Em “Os Enforcados”, o terror real da podridão humana é muito mais assustador

“Os Enforcados” é o novo filme nacional dirigido por Fernando Coimbra, cineasta responsável pelo impactante “O Lobo Atrás da Porta” — também estrelado por Leandra Leal, que volta a repetir a bem-sucedida parceria com o diretor. Entre seus trabalhos, Coimbra ainda dirigiu episódios das séries internacionais “Narcos”, “Outcast” e “Perry Mason” e o longa hollywoodiano “Castelo de Areia”, estrelado por Nicholas Hoult e Henry Cavill. Agora, ele retorna às suas origens com uma obra profundamente brasileira, que desnuda a podridão de um Rio de Janeiro tomado por uma engrenagem criminosa disposta a tudo em nome do dinheiro.

Embora seja vendido como thriller, o longa flerta intensamente com o terror psicológico, mergulhando no lado mais sombrio da condição humana. É um filme sufocante, que nunca oferece respiro diante de uma maldade desenfreada e que encontra seu clímax em um desfecho brutal e aterrador.

Valério (Irandhir Santos) e Regina (Leandra Leal) formam um casal vivendo confortavelmente na Zona Oeste do Rio de Janeiro, graças ao império do jogo do bicho construído pelo pai e pelo tio dele. Valério, que acredita ter mantido suas mãos limpas, precisa lidar com as pendências de sua família, em um meio que obedece a leis próprias. Incentivado pela ambiciosa mulher, ele tenta uma jogada que ambos consideram infalível.

O cineasta Fernando Coimbra deixou claro que inspirou-se em “Macbeth”, de William Shakespeare, mas dessa vez, contando a história pela perspectiva de Lady Macbeth. No longa, como na peça, os dois personagens se veem presos em uma escalada de ambição e violência, em uma tragédia à brasileira.

O clima sufocante se estabelece já em uma das primeiras sequências, quando Regina, a personagem de Leandra Leal parece ser vítima de um assalto seguido de violência sexual. A cena, inicialmente perturbadora, logo se revela uma encenação erótica compartilhada com o marido — um jogo de dominação que mistura prazer e agressividade. Esse momento não apenas choca pelo contraste entre expectativa e realidade, mas também antecipa a atmosfera de transgressão moral e desejo distorcido que permeia todo o filme, funcionando como uma chave para entendermos a lógica sombria do casal e o universo corrompido em que a trama se desenrola.

Se o casal já demonstra não ter qualquer limite moral ao entregar-se a esses desejos sórdidos, o espectador logo entende que nada está fora de alcance. O filme não hesita em desnudar, pouco a pouco, os instintos mais podres e repulsivos que cada um deles guarda, levando a história a um terreno ainda mais perturbador.

Logo no início, Valério (Irandhir Santos), marido de Regina, confessa que está falido e que precisará interromper a obra da casa. Regina não hesita em reagir com um escândalo, deixando transparecer sua ambição e a angústia diante da falta de dinheiro. Em meio à discussão, Valério faz uma provocação ao mencionar seu tio e questiona se ela gostaria que ele o matasse. O que surpreende não é a brincadeira em si, mas a reação de Regina: longe de se chocar, ela devolve a pergunta, questionando-o, se essa ideia nunca passou pela cabeça dele.

É claro que não cabe aqui revelar os desdobramentos dessa conversa, mas o importante é como ela estabelece a lógica que irá reger todo o filme. Em “Os Enforcados”, a confiança é um recurso inexistente, e a cada nova cena o espectador é arrastado para um terreno de paranoia crescente, onde qualquer gesto pode esconder uma ameaça. Essa atmosfera de desconfiança constante é o motor do suspense psicológico que sustenta a narrativa até seu desfecho brutal.

Embora o filme toque na corrupção e em suas consequências, a narrativa se concentra muito mais no casal e em sua relação passional e distorcida com o poder — um território onde não existem limites, e onde a ambição se impõe a qualquer risco, mesmo que isso signifique colocar em jogo esse status de poder.

Os personagens são construídos de forma tão ambígua que, num primeiro olhar, até conseguem nos enganar. No entanto, conforme a narrativa se desdobra, fica impossível não perceber o quão inviável é se relacionar com qualquer um deles, já que todos expõem sua podridão em algum momento. Isso, claro, é proposital — e funciona como um choque calculado pelo diretor.

Mas isso também pode se tornar um obstáculo para parte do público, já que a empatia com a trama fica comprometida, mesmo sendo um filme brilhantemente escrito e dirigido. Eu, pessoalmente, adorei a experiência, mas não tenho dúvidas de que é o tipo de filme que deve dividir opiniões.

Além de Leandra Leal e Irandhir Santos, o elenco de coadjuvantes desempenha um papel fundamental para sustentar o clima de corrupção e decadência que permeia a narrativa. Stepan Nercessian, como o político inescrupuloso, desaparece atrás da máscara do personagem — sua performance é tão convincente que quase não lembramos do ator, o que só reforça a densidade da encenação. Ernani Moraes traz para a tela uma presença densa e perturbadora, encarnando a podridão moral de alguém capaz até de desenterrar um corpo para alcançar seus objetivos. Já a atriz Irene Ravache, sempre impecável, interpreta a mãe de Regina (Leandra Leal), um papel que mais adiante se revela essencial em uma das cenas mais impactantes e significativas da trama.

A direção de fotografia de Junior Malta é sofisticada e precisa, seja nos enquadramentos que exploram com inteligência os espaços, seja na iluminação que privilegia tons esverdeados e banha os personagens em luz, criando um contraste marcante com os ambientes sombrios ao redor. Há momentos em que a composição visual é tão imponente que temos a sensação de estar diante de uma superprodução de alto orçamento.

A direção de Fernando Coimbra é outro grande acerto. Mesmo nas cenas silenciosas, ele consegue instaurar uma atmosfera de perigo constante, alimentando um terror psicológico que vai isolando os personagens em um verdadeiro labirinto de insanidade. É o que acontece, por exemplo, na cena em que Regina caminha pela parede úmida, de onde escorre água, ou em outros momentos marcados pela paranoia e pela incerteza. Tudo isso é potencializado pela escolha precisa dos ângulos e pelo trabalho da fotografia, resultando em uma união tão harmoniosa quanto perturbadora — um casamento perfeito, ao contrário do vivido pelo casal protagonista.

“Os Enforcados” se impõe como um dos filmes nacionais mais intensos e inquietantes dos últimos anos, não apenas pelo modo como dialoga com clássicos universais da tragédia, mas também por mergulhar sem concessões em uma realidade profundamente brasileira. Ao expor a corrupção entranhada na elite, a ambição desmedida de seus personagens e a fragilidade das relações humanas quando consumidas pelo poder, Fernando Coimbra entrega um filme que é ao mesmo tempo sofisticado e brutal, elegante e devastador. É uma obra que convida o espectador a entrar em um território de sombras, onde cada escolha tem consequências irreversíveis e onde a violência não surge apenas como ato físico, mas como reflexo da degradação moral de toda uma sociedade. Difícil sair imune da experiência: “Os Enforcados” é o tipo de filme que continua reverberando muito depois da última cena, incômodo e necessário em igual medida.

Confira o trailer:

🍿 Filme: Os Enforcados
📺 Onde assistir: Cinemas
Nota: ✱ ✱ ✱ ✱ – (8.0/10) Ótimo
Direção: Fernando Coimbra
2025 ‧ Thriller/Terror Psicológico ‧ 1h 55m

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