
A primeira temporada de “Euphoria” me conquistou por completo, eu assistia aos episódios morrendo de orgulho do trabalho primoroso que o showrunner Sam Levinson conseguiu entregar. Até porque eu adorava séries sobre adolescentes, mas desde que eu fui amadurecendo eu percebi que elas eram muito mal escritas. Séries que eu gostava no passado como “The O.C.”, se tornaram guilty pleasure, aquelas que você ama pelo fator nostálgico porque envolve a época em que você assistiu, mas que sabe que no fundo tudo é muito mal escrito e executado, é série para curtir escondido e ter aquela vergonha de assumir que assiste, sabe?
Porém com a primeira temporada de “Euphoria”, eu tive uma sensação inversa, tanto que eu revi umas três vezes, sempre apresentando para um novo amigo. É indiscutível que o primeiro ano da série seja infinitamente melhor que o segundo, porque as histórias além de saírem de uma zona de conforto explorada diversas vezes, redefiniu o gênero provando que dava para contar histórias sobre adolescentes sem ser muito teen, entende? Eu explico melhor, os dramas que envolviam todos os personagens na temporada anterior iam além de conflitos amorosos – que sempre foram explorados em outras séries que envolvem jovens -, o primeiro ano não só apresentava o passado desses personagens – o que possibilitava conhecer mais a fundo sobre cada um deles -, mas também entender como eles se tornaram aquelas pessoas problemáticas, como é o caso do Nate (Jacob Elordi), como também sentir empatia por personagens como a Rue (Zendaya), porque não fazia dela apenas uma drogada sem uma camada maior, você sabia exatamente o que havia levado a personagem ao fundo do poço, e os outros ao um conflito interno bastante tortuoso.
Outro destaque do primeiro ano foi a personagem Kat (Barbie Ferreira), que em qualquer outra série adolescente poderia ser facilmente a garota que sofria bullying por não seguir um padrão estabelecido de aparências. Mas o que diretor e roteirista Sam Levinson fez com a personagem foi surpreendente, ao mostrar o empoderamento feminino e autoconfiança dela independente dos julgamentos alheios, algo que me chamou atenção por fugir do convencional e claro, por fazer com que eu achasse uma das personagens mais fascinantes da série, assim como a Jules (Hunter Shafer), que logo no primeiro episódio enfrenta o bad-boy da história sem medo, mesmo que aparentemente ela fosse a personagem frágil aos olhos dos outros.
Além de todos os personagens muito bem construídos, a primeira temporada conseguia criar diversas subtramas e encaixa-las com maestria, o resultado foi a catarse do último episódio, onde vimos a conclusão de todos os dramas apresentados ao longo da temporada.
A segunda temporada manteve todos os acertos técnicos já apresentados na primeira, como a fotografia exuberante e uma direção primorosa digna de filme de cinema.
No primeiro episódio da segunda temporada, observamos que a série mudou seu tom, enquanto a primeira temporada era cheia de neons e cores como o roxo em destaque, agora a série optou pelo uso de tons amarelados e também foi toda filmada em Kodak Ektachrome e não em câmera digital como anteriormente. Segundo o diretor e showrunner, ele não queria fazer a mesma coisa e quis passar a sensação de que a nova temporada parecia como uma manhã, enquanto a primeira era uma festa em casa durante a madrugada. Mas infelizmente o segundo ano pecou no que eu sempre considero o mais relevante; o roteiro.
Já no primeiro episódio eu me senti enganado pelo roteiro trabalhar um sentido de urgência que não trouxe nenhuma consequência. A cena do Nate preso ao banheiro com a Cassie (Sydney Sweeney) enquanto a Maddy (Alexa Demie) berrava aos cantos para que a porta fosse aberta é o exemplo claro de recurso usado para gerar uma tensão gratuita. Esse artificio de perigo eminente não foi utilizado apenas no primeiro episódio, como em tantos outros dessa temporada, o que deixa claro a falta de história para se contar, por isso as lacunas são preenchidas com esses truques e conveniências de roteiro.
Antes fosse esse apenas o problema da segunda temporada de “Euphoria”, personagens que eram extremamente relevantes na primeira temporada se tornaram meros figurantes, como é o caso da Kat e Jules, que foram praticamente descartadas. Mesmo dando um pequeno destaque ao Nate, esse é um outro personagem que poderia oferecer tanto a história, mas também foi adicionado apenas em algumas delas para mostrar que ele ainda fazia parte do núcleo da serie.
Mas ao menos a Lexi (Maude Apatow) ficou em evidencia, e foi a personagem que mais teve um desenvolvimento nesse segundo ano.
Embora a protagonista Rue (Zendaya) também tenha ganho mais destaque que os outros, algumas subtramas parecem ter sido criadas apenas para encher-linguiça, como é o caso daquele episódio em que ela consegue fugir da casa de uma traficante do qual ela devia 10 mil dólares, e simplesmente a traficante nunca mais foi atrás dela.
Algumas outras histórias também ganham relevância e são esquecidas nos episódios seguintes, dando aquela sensação de série sem continuidade.

Mesmo com o problema nítido da temporada em desenvolver os dramas e os personagens mais importantes, o roteiro conseguiu tempo para uma cena longa de apresentação na escola com garotos semi-nus ao som de “Holding Out For a Hero” da Bonnie Tyle. Esse espetáculo a Broadway seria capaz de fazer, mas na realidade de Sam Levinson a Lexi é o Lin-Manuel Miranda extravasando com o seu talento em uma escola de classe média.
É evidente que a segunda temporada tenha focado muito mais em quesitos técnicos, isso fica evidente em diversos episódios que são muito mais experimentais, parece que o diretor descobriu novas técnicas e quis explora-las e repeti-las em uma única temporada. Entendam, uma estética visualmente atrativa como a de “Euphoria” impressiona, mas sem roteiro não adianta e acaba se tornando apenas uma série adolescente bonita para jovens usarem diversos screenshots no Tumblr.
O segundo ano deveria ter reaproveitado as belíssimas e viciantes canções do cantor Labrinth que foram feitas exclusivamente para o primeiro ano da série, quem sabe isso daria um charme extra para uma temporada que esperamos tanto e ganhamos bem menos em troca.
É evidente que mesmo com todos os erros, a segunda temporada de “Euphoria” é ainda acima da média de muitas séries adolescentes que já foram exibidas ou estão no ar hoje, porém para o que foi apresentado na primeira temporada fica difícil não fazer comparações e esperar por muito mais, afinal a série conquistou esse tremendo sucesso exatamente pela brilhante primeira temporada que na época despertou elogios até mesmo do ator Leonardo Di Caprio!
Confira o trailer:
⭐️⭐️⭐️ – Boa
🎥 Série: Euphoria
🟣 Disponível em: HBO Max
Criado por: Sam Levinson
2019 ‧ Drama ‧ 2 temporadas