“Bingo: O Rei das Manhãs” é o Coringa brasileiro que se você ainda não viu, não sabe o que está perdendo

“Bingo: O Rei das Manhãs” é uma comédia dramática baseada na história real do palhaço Bozo, um fenômeno que se tornou um dos programas mais assistidos no SBT (chamada de TVP no filme), ultrapassando até mesmo a audiência do programa da Xuxa da TV Globo (intitulada como Mundial no longa).

A história segue a vida de Arlindo Barreto (representado pelo nome de Augusto), um dos intérpretes do palhaço Bozo (chamado como Bingo) em um programa infantil durante a década de 1980. Barreto alcançou a fama graças ao palhaço Bozo, apesar de jamais ser reconhecido pelas pessoas por sempre estar fantasiado. Esta frustração o levou a se envolver com drogas, chegando a utilizar cocaína e crack nos bastidores do programa, embora o verdadeiro desminta essa parte da história retratada no filme.

Apesar de poucas alterações feita nessa história real, o próprio Arlindo Barreto disse ter feito parte dessas pequenas alterações, isso torna a experiência do longa bastante interessante, já que sabemos que a maioria do que foi retratado em cena era verdade. Tem uma matéria da Veja que comenta tudo o que foi verdade e mentira nessa adaptação.

O roteiro de Luiz Bolognesi (“Bicho de 7 Cabeças”) é extremamente competente em contar uma história sobre ambição, sucesso, decadência e redenção, mas sem soar extremamente repetitivo como outras cinebiografias, isso porque o enredo conduz muito bem toda a trajetória do personagem com um ritmo energizante.

O protagonista Vladimir Brichta também tem energia de sobra, sex appeal e irreverência que provoca na primeira hora de filme momentos hilários e contagiante. O ator está no melhor papel de sua carreira dando vida ao um dos personagens mais icônicos da história do cinema brasileiro, tendo um desempenho tão surpreendente quanto o de Joaquin Phoenix em “Coringa”. Mas diferente do filme estrangeiro onde o drama prevalecia durante toda a trama, aqui temos uma performance mais jocosa, ainda que em determinados momentos transmita toda uma dramaticidade necessária. Entretanto, o que mais me chamou atenção foi a parte cômica de Brichta, porque eu sempre acho muito mais difícil fazer comédia que drama, principalmente porque eu não me pego rindo com facilidade. O ator conseguiu tirar boas risadas durante suas apresentações como Bingo, graças a voz que ele criou para o personagem, seus movimentos corporais e todo o entusiasmo que é notável nessa interpretação.

No elenco, também tem Leandra Leal, Domingos Montagner, Pedro Bial, Ana Lúcia Torre, entre outros grandes nomes.

Além da menção ao personagem “Coringa”, o longa tem uma estrutura narrativa bem semelhante ao filme “Birdman” que venceu o Oscar de Melhor Filme. Ambos falam sobre um artista inquieto, os bastidores da fama os delírios e conflitos internos desses personagens complexos.

Outro elemento que colabora para essa originalidade também é o fato de se passar na década de 80 no Brasil, você pode esperar por absurdos que rolavam na televisão, especialmente em programas infantis como é retratado no longo. Inclusive um crítico americano disse que não apostaria nesse filme para o Oscar (na época que era um dos pré-candidatos), porque segundo ele: “Como era possível um palhaço fazendo tudo o que fez em um programa infantil?”. É claro que nesse momento eu revirei os olhos e pensei: “Esse cara nunca assistiu aos programas da Xuxa.”, quem já viu os memes da Rainha dos Baixinhos ou assistiu os programas na época, sabe que a extravagância e o nonsense não é algo exclusivo do palhaço Bozo. A ambientação dos anos 80 também é muito bem construída também, quem viveu nessa época certamente vai notar alguns brinquedos que aparecem, além de outros elementos característicos da época.

Além do roteiro habilidoso, a direção do estreante Daniel Rezende é um espetáculo. Para quem não sabe, antes de se tornar diretor, ele foi responsável pelas montagens dos filmes “Cidade de Deus, “Tropa de Elite” e dos internacionais “Robocop”, “Diários de Motocicletas”, “360”, “Ensaio Sobre a Cegueira” e a “A Arvore da Vida” de Terrence Malick, e fazer parte de um filme do Malick não é para qualquer um mesmo. É nítida a capacidade do cineasta na direção de “Bingo – O Rei das Manhãs”, a transição entre o drama e a comédia acontece de forma natural e nunca fora de tom, especialmente pelo time perfeito entre os cortes de cenas que diferencia bastante de outros longas nacionais. Tem também um plano-sequência maravilhoso que é quando você percebe que não está vendo um filme dirigido por qualquer outro cineasta, nesse momento eu sabia que tinha o dedo de alguém muito competente na direção.

A direção de fotografia de Lula Carvalho (responsável também do excelente “O Lobo Atrás da Porta”) é fantástica, ele trabalha muito bem a alternância das cores vivas e a iluminação durante os momentos de sucesso do protagonista com a escuridão e melancolia nas cenas que ele não está caracterizado como o palhaço Bingo – quando vive momentos de frustração em sua vida pessoal.

“Bingo: O Rei das Manhãs” é um filme sobre a cultura pop brasileira, e vai te fazer rir enquanto o Bingo vive os seus momentos de glória, mas também vai te emocionar quando você ver que por trás daquela mascara existe um ser humano imperfeito buscando sobreviver um dia de cada vez.

Confira o trailer:

⭐️⭐️⭐️⭐️⭐️ – Excelente
🎥 Filme: Bingo – O Rei das Manhãs
⚫️ Disponível em: Telecine
Direção: Daniel Rezende
2017 ‧ Drama/Comédia ‧ 1h 53m

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