
O diretor Adryan Lyne (atualmente com 81 anos de idade), já me deu um grande presente que é o filme “Atração Fatal” com a atriz espetacular Glenn Close, e uma grande decepção que foi o filme “Infidelidade” com Richard Gere e Diane Lane. É claro que o cineasta tem outros filmes em sua carreira que foram muito bem recebidos por crítica e público como “Lolita”, “Alucinações do Passado” e “Atração Fatal”.
Quando “Deep Water” (título original) foi anunciado eu fiquei bastante ansioso por causa da escalação de Ana de Armas (“007 – Sem Tempo Para Morrer”) e Ben Affleck (“Batman vs Superman: A Origem da Justiça”) como protagonistas, além de sua premissa que parecia bastante interessante, logo me veio a mente filmes como “Garota Exemplar”. Mas logo quando vieram as primeiras impressões de público e crítica massacrando o novo filme do cineasta, isso fez com que minhas expectativas ficassem baixas e esperasse pelo pior.
É importante lembrarmos também que o suspense é vendido como um thriller erótico, mas nem mesmo as cenas de sexo são inspiradas, parece que o filme quer provocar mas faz isso de forma tão razoável que me fez questionar se o longa não sofreu muitos cortes na edição final.
Baseado no romance de Patricia Highsmith, “Águas Profundas” segue Vic (Ben Affleck) e Melinda Van Allen (Ana de Armas), um casal que sente prazer em fazer brincadeiras psicológicas e estão passando por problemas no casamento, adiando um divórcio através da abertura do relacionamento. Melinda pode ter quantos amantes quiser, apenas havendo a regra de não abandonar a família que pertence. Em uma de suas escapadas, um dos amantes da mulher é achado morto. Quando outros amantes de sua esposa começam a morrer de maneira misteriosa, a vida do rapaz sai de controle, tomando um caminho inesperadamente obscuro e tornando-o o principal suspeito pelo desaparecimento dos velhos e novos amantes da esposa.
Essa premissa na mão de um roteirista melhor seria ouro, digo isso porque quem assina a adaptação é o Sam Levinson, que embora tenha sido responsável pela primeira temporada espetacular de “Euphoria”, também foi o mesmo da segunda temporada da série, que como eu já apontei em uma análise é cheia de furos, com falta de ritmo e continuidade. Lembrando que o roteirista também foi responsável por “Malcom & Marie”, que não foi tão bem recebido por público e crítica.
Mas não é só Sam Levinson que merece levar toda a culpa, o roteirista Zack Helm (“A Loja Mágica de Brinquedos”) e o diretor Adryen Lyne (“Infidelidade”) falharam na adaptação, especialmente por escolher uma obra literária lançada em 1957 e usar a mesma premissa nos dias atuais sem fazer algumas alterações necessárias.

Outra falha é o fato de não terem explorado nada da psique humana desses personagens que vivem em um relacionamento tóxico e de jogo de poder. Em um determinado momento você clama que o filme mostre o porque a personagem de Ana de Armas age daquela maneira, que ora parece devastada pela morte de seus amantes e na sequência já está toda sorridente e procurando seu próximo homem, como se nada tivesse acontecido antes. É claro que podemos interpretar a partir desse ponto de que ela é uma mulher fria, sem alma, uma sociopata ou qualquer outra coisa que prove que ela não é normal. Mas esse claramente não é aquele filme profundo que deixam dúvidas de maneira proposital para que você reflita sobre, é apenas um roteiro mediano com personagens que deveriam ser complexos dado as suas atitudes, mas que acabam se tornando superficiais porque se encontram em um enredo pouco convincente.
O protagonista interpretado por Ben Affleck também não gera empatia em nenhum momento, e quando você não consegue se importar ou torcer por nenhum deles, é claro que seu envolvimento com esses personagens e com a trama será distante, além do fato de que a atuação do ator não colabore tanto nesse filme.
Ainda que essas falhas existam, é claro que durante um determinado ponto da história você ficará ao menos curioso para saber o que está acontecendo e onde tudo isso vai dar, mas no terceiro ato um personagem importante toma atitudes estupidas e bastante questionáveis. Tem um momento em que um personagem que já desconfiava do outro surge em uma cena de crime e você fica pensando: “Não, ele não vai fazer nada? É isso mesmo? Ele está esperando ele descobrir para tomar alguma atitude?”. O que vem após essa cena é uma das sequências mais ridículas que eu já vi em um suspense criminal, foi impossível não rir diante da cena patética e do momento vergonha alheia.
No outro filme de Adryan Lyne, “Infidelidade” já existiam alguns furos e momentos bastante duvidosos, mas eu acho que nesse filme o cineasta se supera e entrega um resultado ainda mais fraco – ficou claro que 20 anos sem produzir nenhum longa não fez bem ao diretor.
A direção de fotografia ficou por conta de Eigil Bryld (“Você Não Conhece Jack”), e nesse filme ele usa a iluminação para conduzir muito bem o mistério, especialmente nas cenas internas quando aparece Vic (Ben Affleck) observando sua mulher com os encontros que ele aparentemente sente desejo e repulsa. O jogo de luz dentro de casa com os tons escuros e amarelados remete bastante ao suspense “Garota Exemplar”, que também tem o ator no elenco como protagonista.
A trilha sonora inclui algumas canções que vão fazer você procurar para adicionar a sua playlist do Spotify, como Before I Ever Met You – Banks.
Ainda que os erros sejam nítidos, se você embarcar nessa história esperando um suspense mediano estilo “Supercine” poderá se frustrar menos vendo um filme apenas para desligar o cérebro e passar o tempo reclamando dos diversos furos de roteiro, que vão desde a falta de investigação policial, personagens que surgem em cenas importantes sem nenhuma explicação e as decisões questionáveis dos personagens.
Confira o trailer:
⭐️⭐️ – Regular
🎥 Filme: Águas Profundas (Deep Water)
🔵 Disponível em: Prime Video
Direção: Adryan Lyne
2022 ‧ Suspense psicológico/Suspense erótico ‧ 1h 57m
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