Filme brasileiro “Deserto Particular” deveria ter sido indicado de Melhor Filme Internacional no Oscar 2022!

Antes de mais nada, eu preciso reforçar que “Deserto Particular” é infinitamente melhor que vários dos indicados na categoria principal de Melhor Filme do Oscar 2022, particularmente acho superior a “King Richards“, “Belfast” e “Não Olhe Para Cima”, dentre outros.

Na trama, Daniel (Antonio Saboia) é um policial exemplar, mas acaba cometendo um erro que coloca em risco sua carreira e sua honra. Quando nada mais parece o prender a Curitiba, ele parte em busca de Sara, que ele acredita ser uma mulher com quem se relaciona virtualmente. Mas o que Daniel não sabe, é que Sara não é a mulher que ele pensa ser. Ele então mergulha em um intenso processo interno para aprender a lidar melhor com seus próprios afetos.

O roteiro e direção assinado por Aly Muritiba (“Ferrugem” e “O Caso Evandro”) é eficiente ao contar uma história que descontrói a figura de um policial durão e o retrata como um homem afetivo. Todo esse entusiasmo do cineasta ao desenvolver uma história de amor com potência é bastante visível, e o próprio diretor já revelou em uma entrevista ao Omelete, que ele está muito apaixonado e em um momento de contar histórias de amor e não de ódio.

O início é lento e serve mais para apresentar a premissa, ainda que o ritmo de todo longa seja cadenciado, conforme a história avança nos tornamos parte da busca incessante de Daniel por Sara, especialmente após os 30 minutos iniciais (quando aparece o título do filme).

O protagonista interpretado brilhantemente por Antonio Saboia, é um homem impulsivo que age pelas emoções, não só devido a sua paixão que o move durante todo o longa, como até mesmo pelo seu descontrole que fica ainda mais evidente quando descobrimos que ele se envolveu em uma briga que deixou um homem hospitalizado. Ainda que existam esses sentimentos mais aflorados, o policial tem um lado sensível, ele cuida de seu pai que está com uma idade avançada e muito debilitado.

Mesmo antes da descoberta de Daniel sobre segredos que envolvem Sara, sabemos todos os riscos que isso representaria para ele e as pessoas ao seu redor, como sua profissão e a família de sua amada.

A interpretação de Antonio Saboia é um dos pontos altos, ele consegue transmitir sua impetuosidade e seu lado passional através de seus olhares, suspiros e performance corporal.

A trilha sonora de Felipe Ayres também é sensacional, a música instrumental Sara toca em um momento muito particular em que podemos sentir a pressão psicológica e a confusão mental que paira na mente de Daniel, logo após toda a descoberta e os conflitos que surgem a partir dessa revelação.

A direção de fotografia de Luis Armando Arteaga também é realizada com maestria, conseguindo captar a beleza até nos cenários mais inóspitos.

“Deserto Particular” pode não ter uma premissa inovadora, mas a forma com que essa história se desenvolve é o grande diferencial desse longa nacional que reserva o que tem de melhor no cinema nacional, um realismo ao tratar de temas tão delicados quanto os que são retratados nesse belíssimo longa de amor de Aly Muritiba, que definitivamente merecia um lugar especial no Oscar 2022.

ATENÇÃO: O texto abaixo contém spoilers.

No segundo ato, após conhecermos mais sobre Daniel, o longa tem uma virada onde passamos a conhecer mais sobre a personagem Sara, que na verdade não é uma mulher como Daniel achava que fosse, Sara (Pedro Fasanaro) é um homem trans.

Quando descobrimos isso, logo sabemos o que está em jogo, a profissão de Daniel e a família de Sara.

Na primeira cena quando eles se reencontram em um barzinho toca a música “Total Eclipse of The Heart” da Bonnie Tyler, que é um clássico brega que eu adoro, e potencializa qualquer cena. Só para vocês terem ideia, essa música já tocou no filme “Vida Bandida” (“Bandits”), numa cena em que a Cate Blanchett está sozinha chorando no carro e na série “Nip/Tuck” (“Estética”) do Ryan Murphy, quando o personagem Matt (John Hensley) está fazendo metanfetamina em casa e tudo começa pegar fogo e ele da um pulo pela janela. Acreditem, essa música funcionou nessas três cenas totalmente distintas.

Uma das cenas finais de diálogo entre esses dois personagens enquanto eles observam o Rio é espetacular.

E como se não tivesse sido suficiente aquela dança icônica ao som de “Total Eclipse of The Heart” , eis que a canção clássica ressurge para finalizar essa história de amor.

Confira o trailer:

⭐️⭐️⭐️⭐️⭐️ – Excelente
🎥 Filme: Deserto Particular
🟣 Disponível em: HBO Max
Direção: Aly Muritiba
2021 ‧ Drama/Ficção ‧ 2 horas

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