“Dopesick” é uma minissérie incrível que escancara um dos maiores crimes da indústria farmacêutica e por isso merece a sua atenção

Olha, se alguém me contassem a história real da minissérie original Hulu “Dopesick” (Brasil distribuída pelo Star+), eu não acreditaria! Escândalos e crimes envolvendo a indústria farmacêutica sempre existiram, mas eu nunca imaginei nada desse nível. Só para vocês terem uma ideia, após finalizar todos os episódios, eu fiz uma rápida pesquisa e encontrei uma lista com os 10 maiores casos crimes e corrupção envolvendo a indústria farmacêutica, mas o que eu não imaginava era um crime da escala que é apresentada nessa minissérie protagonizada por Michael Keaton (“Birdman”). A minissérie é uma adaptação do livro Dopesick: Dealers, Doctors, and the Drug Company That Addicted America (“Traficantes, médicos e a empresa de drogas que viciou a América”).

O produtor executivo Danny Strong já foi responsável pelos roteiros dos filmes “Recontagem” (Recount) e“Virada no Jogo”(Game Change), ambos filmes também adaptadas de histórias reais. E ele ainda teve o apoio da Macy, a escritora livro que tornou todo o material ainda mais próximo dos eventos reais.

A história gira em torno de um médico (Michael Keaton) de uma comunidade mineradora, que percebe um aumento perigoso e significativo de pacientes viciados em opioides (medicamentos usados para aliviar a dor) em seu consultório, a maioria deles eram trabalhadores desesperados. A partir disso, ele passa a investigar esse acréscimo no número de dependentes químicos e percebe que existe uma grande conspiração em um enorme conglomerado farmacêutico. A empresa tenta vender a ideia de que o medicamento OxyContin (ou oxicodona) não é viciante, mas as informações foram claramente fabricadas por meio de campanhas massivas de marketing. Só para esclarecer, OxyContin atua como analgésico, com ação semelhante à da morfina e foi aprovado pela FDA (A Anvisa dos Estados Unidos).

Embora a premissa seja interessante, o desenrolar dessa minissérie é ainda mais, isso porque por mais que você saiba algumas informações do caso real, todo o percurso é cheio de surpresas e reviravoltas. No começo eles focam bastante em todo o processo de investigação e no início da crise que levou milhares de usuários do opioides ao vício — não só a esse medicamento — em outras drogas como heroína, isso porque uma vez que o paciente ficasse sem esse medicamento todas as dores voltariam. Mas quando a série começa mostrar os efeitos devastadores causados nos usuários, e o desespero dos engravatados ao continuarem vendendo sem um pingo de remorso pelas vidas perdidas, é o momento em que a história começa causar um sentimento de repulsa, indignação e revolta, como também de comoção! É impossível não sentir a dor daquelas pessoas que sofreram com todos os efeitos terríveis que o OxyContin trouxe para diversas famílias e até mesmo para os médicos envolvidos.

Você deve estar se perguntando como essa epidemia de opioides continuou acontecer sem nenhuma regulamentação que impedisse esses absurdos, não é mesmo? O que acontecia é que o empresário bilionário Richard Sackler (interpretado por Michael Stuhlbarg) da Pardue Pharma, comprava todos aqueles em que se colocassem em seu caminho, tudo para continuar com as vendas dos OxyContin, mesmo com todos os avisos sobre os perigos e os danos causados – especialmente nos mais pobres e trabalhadores. Foram em média 250 mil pessoas que morreram por overdose de opioides entre 1999 a 2019 nos Estados Unidos, segundo informações do CDC (Centros para Controle e Prevenção de Doenças).

Como tudo isso durou por 20 anos, a minissérie transita entre diversos anos para mostrar as consequências do uso do remédio, a manipulação daqueles que eram contratados para oferecer os opioides aos médicos e todo o processo da Procuradoria para arrumar um meio de deter os avanços da Pardue Pharma.

Agora falando um pouco sobre o elenco, o Dr. Samuel vivido pelo ator Michael Keaton (sempre espetacular) consegue representar muito bem como os médicos foram usados nesse jogo sujo de ganância e poder. Ele foi vagamente inspirado no Dr. Stephen Loyd que vive no estado americano de Tennessee. A personagem Betsy Mallum, interpretada pela ótima Kaitlyn Dever (que também deu um show na minissérie “Inacreditável”), é uma fusão de várias vidas que foram terrivelmente afetadas pelos opioides. Todos estavam muito bem em seus papéis, como Will Poulter (“Gotham”), Michael Stuhlbarg (Your Honor), Peter Sarsgaard (Batman), Rosario Dawson (“DMZ”), Mare Winningham (“American Horror Story”) e tantos outros. É um elenco estelar que garante ótimas interpretações.

“Dopesick” é sobre uma história real de um caso monstruoso, desumano e de difícil compreensão. O pior de tudo é imaginar que tudo isso aconteceu recentemente e que não estamos imunes de mais casos como esses. Por isso, além de uma ótima opção de minissérie para assistir, fica um aprendizado e uma experiência que acima de tudo serve como uma denúncia. Quando eu finalizei a minissérie, imediatamente me veio a pergunta “como eu não soube disso antes?”! Talvez eu seja muito desligado, talvez a imprensa mundial não tenha noticiado esse escândalo como deveria, ou talvez nós estamos a mercê de não, sabermos algo que deveria ser mais do que claro. Afinal isso não foi uma epidemia causada por um vírus que surgiu de forma natural ou muito menos uma droga ilícita que as pessoas usavam com consentimento, foi um plano maquiavélico e lucrativo em cima de vidas humanas, e isso uma vez que você sabe, a história e nem o dinheiro pode apagar da sua memória.

Confira o trailer:

⭐️⭐️⭐️⭐️ – Ótimo
🎥 Série: Dopesick
🟣 Disponível em: Star Plus
Criado por: Danny Strong
2021 ‧ Drama ‧ 1 temporada

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