
“Severence” ou “Ruptura” como foi traduzido para o português, é um thriller envolvente de ficção cientifica, mas o drama também é muito presente, pois a série trabalha e desenvolve os seus personagens e todos os conflitos deles com maestria.
Na trama, cinco funcionários de uma empresa chamada Lumen aceitam participar de um procedimento cirúrgico onde suas memórias pessoais e de trabalho são permanentemente separadas. Quando estão no escritório, só terão as lembranças referentes ao trabalho e em casa, não lembrarão das situações profissionais. Mas por trás desse estranho procedimento, se escondem vários segredos obscuros que a empresa quer manter em sigilo.
Claro que essa idéia absurda por parte da empresa tem sua justificativa que soa até plausível para os iniciantes no processo ambicioso da empresa. Segundo eles, isso daria aos seus funcionários um equilíbrio perfeito entre vida pessoal e profissional, já que com isso eles jamais levariam os seus problemas pessoais para o trabalho e vice-versa, então os resultados durante a jornada de trabalho seriam muito mais satisfatórios, assim como eles conseguiriam aproveitar o lazer sem mais preocupações.
Só que como era de se esperar, tudo que envolve tecnologia nas séries de ficção científica, você deve imaginar que tudo isso tomará rumos inimagináveis, certo? Pois bem, se na recente “Westworld”, um parque criado com robôs para a diversão dos humanos gerou uma auto consciência e revolta nas máquinas, imagina o que aconteceria se um experimento desses fosse feito com humanos? Evidentemente o desenrolar da história de “Ruptura” se aproxima bastante da série original da HBO criada por Lisa Joy e Jonathan Nolan.
Quem assistiu também a ótima primeira temporada da série “Homecoming” estrelada por Julia Roberts, certamente vai notar algumas semelhanças, desde a história onde funcionários trabalham para uma organização e tem problemas para recordar quem são e para o que realmente trabalham. O thriller de Sam Esmail (“Mr Robot”) também tem um mistério envolvente, com uma fotografia que explora bastante os ambientes imensos e vazios de uma corporação nefasta.
Nesta série criada por Dan Erickson, com seis dos episódios dirigidos por Ben Stiller (“A Vida Secreta de Walter Mitty”), ao mesmo tempo que o desenrolar da história beba da fonte de outras obras e do tom futurístico e distópico à la “Black Mirror”, isso não faz com que a série perca sua originalidade, que está em explorar as grandes corporações que parecem uma seita (isso fica ainda mais nítido em uma cena bizarra do penúltimo episódio), ética no trabalho, as recompensas não monetárias que incluem festinhas, tours e lanches.
A crítica social feita ao mundo corporativo em alguns momentos são bastante satíricas, e perfeitas para ilustrar o ridículo que algumas empresas se prestam. Observem no episódio que o personagem de Tramell Tillman faz uma experiência musical na sala de trabalho, onde todos precisam dançar. Só para vocês entenderem melhor, recentemente na vida real, a empresa Walmart foi condenada a pagar uma indenização de cerca de 140.000 reais a um ex-diretor que disse ter sido constrangido por ter que rebolar na abertura e no final das reuniões de trabalho.

A trama é eficiente em criar uma constante crescente de suspense, isso porque a cada novo episódio novos elementos são inseridos nessa história que funciona quase como um labirinto, não só para os personagens que percorrem longos corredores brancos, como para nós que estamos tão presos naquele universo quanto eles. Além de nos perguntamos o que seria cada uma dessas coisas que surgem durante o percurso, também ficamos angustiados para descobrir como e se eles conseguirão sair dessa perigosa empresa, pois a cada episódio descobrimos que não será tão fácil assim. O roteiro também é inteligente ao mostrar como eles poderiam tentar sair dessa, e logo nos apresentam as problemáticas das tentativas, evitando qualquer dúvida quanto a isso ou qualquer ponta solta que poderia existir.
Mas claro que as grandes incertezas não pairam apenas em cima disso, eles trabalham com computadores e números, mas não sabem o que significam esses números e muito menos o que estão fazendo (o que é assustador). Mas os eventos sinistros também envolvem uma sala cheia de cabritos.
Obviamente nem todos os mistérios serão respondidos nesse primeiro ano. A segunda temporada já foi garantida e por mais que eu entenda a necessidade de deixar várias perguntas no ar, eu particularmente prefiro temporadas que funcionem mais de forma independente. Ao deixar inúmeras perguntas sem respostas, temos a sensação de estarmos acompanhando um novo “Lost”, — embora tenha seu mérito de manter o espectador de olhos bem abertos durante todos os episódios — se ao longo prazo a série deixar muito mais perguntas que respostas poderá ser algo negativo para algumas pessoas.
No elenco, é difícil escolher um ator que se destaque mais que o outro, todos estão perfeitos em seus papeis. O protagonista Adam Scott (“Big Little Lies”) transita muito bem entre o seu eu interno e externo (como são chamados na série). A atriz Britt Lower (“Um Fim de Semana com Holly”) faz uma personagem bastante inquieta e determinada a desvendar os segredos da Lumen, inicialmente é a única que se mostra resistente em aceitar o trabalho e questionar os métodos da empresa, isso cria uma conexão direta com a gente e nos coloca exatamente no lugar dela. Os veteranos John Turturro (“The Batman”) e Christopher Walken (“Uma Voz Contra o Poder”) estão ótimos, e contracenam juntos formando uma dupla instigante que rende mais conflitos a história. Mas sentimentos mistos de indignação e raiva serão provocados por Patricia Arquette (“The Act”) e Tramell Tillman (“Hunters”) que dão vida a personagens manipuladores e detestáveis.
A abertura é tão fantástica quanto a própria série. É impressionante que em apenas 1 minuto eles conseguem transmitir a atmosfera da temporada, desde os elementos visuais que foram usados na abertura, até mesmo a belíssima Main Titles (que é tocada durante diversas cenas também). Inclusive, a trilha sonora completa de Theodore Shapiro é incrível e vale a pena ouvir.
A fotografia da série também é essencial, desde a escolha de cores, como o branco nos corredores para ilustrar a solidão e o ambiente claustrofóbico. Percebam como o ambiente da empresa nos remete ao um laboratório, algo muito claro até mesmo porque eles fazem parte de um experimento. Outro destaque ficou para o efeito vertigo usado nas cenas em que eles entram nos elevadores, quando é ativado o modo de trabalho, esse efeito transmite perfeitamente a sensação de mudança, já que no momento em eles entram no trabalho esquecem de tudo que ficou fora da empresa.
“Ruptura” é um thriller viciante de ficção científica que nos faz refletir sobre os malefícios da tecnologia, mas também é sobre um capitalismo cruel, a desumanização das pessoas e o absurdo da cultura corporativa. Tudo isso é apresentado de uma forma metafórica que nunca nos impede de olharmos para os dias atuais e lembrarmos que o futuro nem é tão distante assim.
Confira o trailer:
⭐️⭐️⭐️⭐️⭐️ – Excelente
🎥 Série: Severence (Ruptura)
⚫️ Disponível em: Apple TV
Criado por: Dan Erickson
2022 ‧ Ficção científica ‧ 1 temporada