“Rainhas de Copas” é um drama pesado, cru, realista e difícil de absorver

É difícil algum filme recente me causar um grande choque, especialmente porque após assistir tantos títulos, eu já tenho em minha memória os casos mais absurdos que já vi. Nesse longa em especial, a história gira em torno de uma traição envolvendo uma mulher mais velha e um garoto. Aparentemente nada tão chocante ou fora do nosso conhecimento, certo? O hollywdiano “Notas Sobre Um Escândalo” (que eu adoro) se propôs a contar um caso de escândalo parecido com esse, mas após assistir ao filme escandinavo ”Rainhas de Copas”, eu entendi a grande diferença entre ambos, nesse filme escrito e roteirizado por May el-Toukhy, as consequências de um caso de traição e abuso são explorados e desenvolvidos com a crueza e o realismo necessário. Em “Rainhas de Copas” há muito mais de ”A Caça”, outro excelente e impactante filme escandinavo que o hollywoodiano ”Notas Sobre Um Escândalo” – ainda que a trama desse seja muito mais próxima do longa dinamarquês.

Na trama, Anne (Trine Dyrholm) é uma advogada (na casa dos cinquenta anos) que trabalha como advogada ajudando crianças e dos adolescentes vitimas de abuso. Acostumada em lidar com jovens complicados, ela não tem muitas dificuldades para estreitar laços com seu enteado Gustav (Gustav Lindh), um garoto de 17 anos, filho do primeiro casamento de seu marido Peter (Magnus Krepper) que acaba de se mudar para sua casa.

Como a maioria dos filmes escandinavos, o longa trabalha muito bem as relações entre todos os personagens e para isso nem sempre são necessários diálogos expositivos. Em muitas cenas o silêncio é primordial para estabelecer a conexão (ou a falta dela) entre os personagens, como é o caso do casamento entre Anne e Peter.

Numa determinada cena de encontro entre amigos, a protagonista interpretada por Trine Dyrholm bebe mais do que deveria e resolve dançar ao som de “Tainted Love” dos Soft Cell (não atoa, já que Tainted Love significa “amor estragado”) numa tentativa desesperada de chamar a atenção do marido.

Na ausência de maior atenção em seu casamento, é o momento em que Anne começa criar um vínculo com Gustav. No entanto, a relação que deveria ser maternal se torna carnal, envolvendo-a uma situação perigosa, arriscando a estabilidade de sua vida pessoal e profissional.

As cenas sexuais são bastante explícitas e o cinema dinamarquês não tem pudor ao expor parte do que uma história como essa precisa mostrar para desenvolver sua narrativa, afinal toda a problemática que surge posteriormente tem uma origem clara; os desejos sexuais incontroláveis.

No último ato, quando o cenário toma grandes proporções, qualquer silêncio se torna ensurdecedor e quando uma música instrumental surge você fica atordoado. Essas sensações, claro, são sentidas porque todos os eventos são de causar repulsa, indignação e choque.

Os personagens são muito bem construídos, porém são complexos e imprevisíveis, e isso da uma camada ainda mais eficiente ao drama, já que na vida real as pessoas nem sempre são centradas como costumamos ver em dramas mais superficiais.

As interpretações são primorosas e colaboram para transmitir todas as nuances de seus personagens. A atriz Trine Dyrholm passa uma frieza desde suas primeiras aparições, e logo quando suas atitudes demonstram uma distancia em seu relacionamento com o marido, notamos que nossas impressões sobre a protagonista de fato faziam sentido. O ator Gustav Lindh consegue transmitir inquietude e mistério, mas durante o filme é o personagem que nitidamente se desenvolve mais, transitando entre a rebeldia e uma doçura até então desconhecida. Já o ator Magnus Krepper interpreta o marido passivo que não toma partido de nada.

Rainha de Copas” venceu o Prêmio do Público no Festival de Sundance em 2019 e foi um dos pré selecionado pela Dinamarca para o Oscar de Melhor Filme Internacional em 2020. Não atoa, o drama cumpria todos os requisitos necessários para ser um dos indicados naquele ano, mas como sempre o Oscar tem um histórico de ignorar filmes que são até melhores que alguns dos seus indicados.

“Rainhas de Copas” não busca julgar as atitudes reprováveis de seus personagens, mas eu como espectador não consegui ficar imune à isso, porque a história não é só de uma traição em diversas escalas como também sobre decisões frias e egoístas que culminam em um desfecho catártico.

Confira o trailer:

⭐️⭐️⭐️⭐️⭐️ – Excelente
🎥 Filme: Rainha de Copas (Dronningen)
🔵 Disponível em: Looke e Apple TV
Direção: May el-Toukhy
2019 ‧ Drama/Thriller ‧ 2h 7m

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