
Não é sempre que somos surpreendidos por um filmaço, não é mesmo? E nessa era onde os streamings priorizam mais quantidade que qualidade, encontrar ”Rede de Ódio” (Ganhador do Tribeca Filme Festival) no catálogo da Netflix nos dias de hoje é algo que deve ser valorizado. Inclusive, essas continuações de filmes desnecessários como ”356 Dias” só existem porque as pessoas consomem tanto ao ponto de ir para o Top 10 de Mais Assistidos, enquanto filmes e séries excelentes como ”Mindhunter” são literalmente esquecidas ou canceladas. Lamentações a parte, vamos ao que interessa! “Hejter” (título original) aborda diversos temas relevantes e atuais como ética, fake news, perseguição política, a imagem das pessoas nas redes sociais e a obsessão pela realidade virtual.
Na trama, Tomasz (Maciej Musialowski) é o pupilo de uma agência que visa sujar a imagem de pessoas públicas, atacando desde influenciadores virtuais a políticos renomados. Ele é o principal responsável pelo caos crescente imposto pela agência. Oscilando entre aprendiz e mestre, ele instiga o espectador a todo o momento, pois sua frieza indescritível cria um senso de perigo eminente. Evidentemente toda essa crueldade que ele pratica no mundo virtual, terá um custo alto no mundo real, complicando sua própria e de todos ao seu redor.
O que move toda a trama é o protagonista sociopata e frio Tomasz interpretado brilhantemente por Maciej Musialowski, sua inexpressividade é asfixiante e nos transportam para um ambiente tóxico movido pelo ódio e pela maldade pura. Além do ótimo roteiro que o ator tem em mãos, é evidente que sua entrega foi fantástica, pois ele é convincente em cada cena, sua performance é do nível da atuação de Jake Gyllenhaal em “O Abutre”, e coincidentemente ambos os personagens também são muito semelhantes. Curiosamente, o desfecho do filme me fez lembrar de outro suspense que eu gosto muito, mas que eu sei que não devo cita-lo para não estragar a sua experiência.
De forma inteligente, o filme faz um paralelo ao livro A Arte da Guerra de Sun Tzu, quando insere não apenas trechos da obra literária, como faz uma conexão direta com o que o autor do livro acredita e o que o protagonista decide seguir para alcançar seus objetivos mais obscuros.
Outro ponto interessante é a inserção de CGI através de um jogo de video game nas cenas em que o personagem Tomasz se comunica com outro garoto extremista, o jogo violento representando a conversa desses dois jovens com pensamento tão violento quanto os da realidade virtual fazem uma conexão assombrosa com a realidade deles.
Uma curiosidade sobre “Rede de Ódio”, é que o filme é na verdade uma continuação de “Suicide Room”, que tem alguns dos mesmos atores e personagens e também foi muito bem recebido por público e crítica. Infelizmente essa primeiro filme não tem disponível em nenhum streaming, mas vale lembrar que você pode assistir “Rede de Ódio” sem ver o anterior, já que nessa sequência eles focam em uma outra história que funciona de forma independente.
O longa é aquele thriller que choca a cada novo desdobramento, especialmente porque no último ato tem uma reviravolta envolvendo o trabalho de Tomasz que torna todo o desenrolar dessa história imprevisível. Além disso, surpreende positivamente por fazer uma crítica social com maestria.
“Rede de Ódio” ou como deveria ter sido traduzido para o Brasil como “Gabinete do Ódio” (pois a nossa realidade não é muito distante da realidade abordada no longa), é um suspense sensacional que expõe o pior lado do ser humano, a podridão envolvida em alguns meios e as consequências devastadoras das fake news.
Confira o trailer:
⭐️⭐️⭐️⭐️⭐️ – Excelente
🎥 Filme: Rede de Ódio (Hejter)
🔴 Disponível em: Netflix
🎬 Direção: Jan Komasa
2020 ‧ Suspense ‧ 2h 15m
Deixe um comentário