
Em uma era onde o cinema é dominado por filmes genéricos de super-hérois, ter a oportunidade de ver um épico de drama, ação com elementos de terror que o diretor Robert Eggers sabe fazer como ninguém, é algo que deveria ser valorizado.
Misturar gêneros tão distintos não é para qualquer cineasta, mas Eggers em seu terceiro filme não se mostra apenas capaz de fazer o que quiser, como também mantém sua excelência e deixa sua marca registrada a cada novo trabalho. Ao assistir “The Northman” (título original), você encontrará um pouco de ”A Bruxa” e ”O Farol”, e ainda conhecerá o que ele tem de novo para oferecer em ”O Homem do Norte”.
Recentemente eu tive duas amargas experiências se tratando de vikings, o primeiro foi o spin-off da série original da Discovery Channel, ”Vikings: Valhalla”, e o segundo foi o longa dinamarquês “O Guerreiro Silencioso” com o maravilhoso Mads Mikkelsen (“Hannibal”). A série original Netflix chega ser ridícula a menção porque nem deveria ser comparada, a trama poderia facilmente se passar em qualquer outra época, os costumes do período são porcamente explorados, as roupas são limpas na maior parte do tempo, assim como todos os cenários, é tudo polido demais para um período onde a selvageria reinava. Já o filme “Valhalla Rising” (título original), tinha um pouco do que se espera da época, toda a sujeira, loucura e violência, mas em um roteiro tão superficial e desconjuntado se calcando apenas em infinitas cenas contemplativas que imediatamente me desconectavam da trama.
Baseado na obra de Shakespeare, Hamelt e a lenda viking de Amelth, “O Homem do Norte” conta a história de vingança e insanidade do príncipe Amleth (Alexander Skarsgård, ”True Blood”) está prestes atingir maioridade e ocupar o espaço de seu pai, o rei Horvendill (Ethan Hawke, ”Antes do Amanhecer”), que acaba sendo brutalmente assassinado. Amelth acaba descobrindo que seu tio é o culpado, mas sem sequestrar a mãe de Amleth primeiro. O menino então jura que um dia voltará para vingar seu pai e matar seu tio. Vinte anos depois, agora Amleth, um homem viking que sobrevive ao saquear aldeias eslavas, conhece uma vidente. Ela por sua vez o lembra que chegou a hora de cumprir a promessa que fez há muito tempo atrás: salvar sua mãe, matar o tio e vingar o pai. O ex-príncipe então parte para uma odisseia em busca de vingança.
Embora a história não seja inovadora, a maneira como o diretor Rober Eggers constrói o caminho insano, selvagem e brutal é o grande diferencial desse filme. Em cada enquadramento o talento indiscutível do cineasta é exposto com ferocidade, crueza e calor humano que hipnotiza! Além disso, não podemos esquecer que esse longa é realizado por um diretor extremamente perfeccionista que busca ao máximo recriar a época com um realismo impressionante.
A atmosfera intensa é aplicada com a fotografia de Jarin Blaschke (“O Farol” e ”A Bruxa”), que é desoladora e fascinante. As cenas oscilam entre tons frios e quentes, enriquecendo cada momento épico com maestria. Há enquadramentos simétricos que parecem obras de arte – e de fato são! Algumas delas lembram bastante o que foi alcançado em “O Farol”, seja pelo uso de tons que puxam mais para o preto e branco e até pelos seus enquadramentos que exploram os ambientes imensos. Observem as espetaculares cenas do mar.
A trilha sonora de Robin Carolan e Sebastian Gainsborough transmite um desconforto de um ambiente coberto de lama e sangue, e de fato é o que o diretor queria para o longa e os compositores atingiram o objetivo e entregaram canções poderosas.
No elenco todos brilham e estão fantásticos, mas eu tenho que confessar que embora eu aprecia outros trabalhos do Alexander Skarsgard, esse definitivamente se tornou o melhor papel da carreira desse ator, que transmite toda sua obstinação e sede de vingança com uma performance arrebatadora. Vale lembrar que ele repete a química ao lado de Nicole Kidman, ambos já contracenaram anteriormente em ”Big Little Lies”. Há também a belíssima Anya Taylor Joy (“A Bruxa”), o sempre espetacular William Defoe (“O Farol”), Gustav Lindh (“Rainha de Copas”) e até mesmo a participação da cantora Björk, dentre tantos outros que entregaram atuações seguras e faiscantes.
“O Homem do Norte” é sobre vingança, mas a história segue de maneira animalesca e bárbara, expondo como eram realmente os vikings, e toda essa meticulosidade só foi alcançada graças aos estudos do diretor Robert Eggers, que não só se preocupou com a riqueza dos detalhes da época, como também com toda a mitologia. Além do realismo alcançado, existe um pouco de fantasia que é transmitida através das simbologias. É uma experiência animalesca, brutal, avassaladora e que há cima de tudo entrega muito mais que efeitos visuais!
Confira o trailer:
⭐️⭐️⭐️⭐️⭐️ – Excelente
🎥 Filme: O Homem do Norte (The Northman)
🟡 Nos Cinemas
Direção: Robert Eggers
2022 ‧ Ação/Aventura ‧ 2h 17m
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