“Crimes do Futuro” de David Cronenberg é vazio e pretensioso

Eu já disse algumas vezes que eu não tenho o menor problema em apreciar filmes estranhos. Nos últimos anos “O Demônio de Neon” do diretor Nicolas Winding Refn e “Mãe” do cineasta Darren Aronofsky poderiam ter testado minha paciência com suas megalomanias e bizarrices, mas a diferença é que ambos diretores souberam dosar bem suas estranhezas com suas histórias que sempre tinham algo para contar além do estapafúrdio. Se “Demônio de Neon” focava em como a indústria da moda era um ambiente tóxico cercado por inveja e que era destrutivo para algumas modelos, “Mãe” fazia sentido ao abrir a nossa mente para diversas interpretações, desde a mais óbvia sobre a Bíblia, ou mesmo sobre uma mulher beirando a loucura ou como o amor poderia consumir uma pessoa por completo.

Infelizmente nesse longa, o diretor David Cronenberg está longe de alcançar o brilhantismo dos diretores Nicolas Winding Refn e Darren Aronofsky, isso porque o cineasta parece acreditar que a idéia para esse filme se sustentaria por conta própria. Não existe nenhum apelo emocional que nos conecte à esses personagens ou até mesmo a estranheza proposta pelo diretor. É um filme sem alma.

Em um futuro próximo, os humanos terão que aprender a conviver e se adaptar ao seu ambiente sintético. Isso faz com que a espécie tenha que ir mais além do que seu estado natural e ir para metamorfose, o que causa uma mudança em seu DNA. Enquanto alguns abraçam o potencial ilimitado do trans-humanismo, outros tentam policiá-lo. De qualquer modo, a Síndrome da Evolução Acelerada está se espalhando rapidamente. Saul Tenser (Viggo Mortensen) é um artista mundialmente amado que abraçou esse novo estado de ser, resultando em alterações no seu corpo, como novos orgãos. Junto com Caprice (Léa Seydoux), Tenser transformou a remoção desses órgãos em um espetáculo para seus fiéis seguidores se maravilharem no teatro em tempo real. Com uma subcultura e uma sociedade obcecada pelo artista, Timlin (Kristen Stewart), uma investigadora do National Organ Registry, rastreia cautelosamente seus movimentos, e deseja usar a notoriedade de Saul (Viggo Mortensen) para espalhar para o mundo as consequências desse experimento.

Ainda que as intenções sejam vazias, ou pelo menos imperceptíveis, já que o roteiro não procura ser claro sobre nenhuma de suas ideias, é sempre interessante fazer um esforço para tentar compreender as mensagens dos roteiristas e diretores. Nesse caso Cronenberg foi responsável tanto pela história, quanto pela direção, e ao meu ver ele falhou tanto como escritor, como diretor.

Dentre as diversas interpretações que cada pessoa possa ter de forma individual, eu particularmente entendo que ele usou o futuro como metáfora para mostrar que mesmo com a evolução, os humanos sempre serão as espécies mais primitivas da existência, já que nesse seu universo todas elas agem como nos circos antigos, onde a deformidade era um espetáculo à ser visto por muitos admiradores da bizarrice. Fica ainda mais nítido isso, quando um pai oferece o corpo de seu filho criança para o show de horrores de Saul Tenser.

A mais clara das mensagens deixada pelo próprio roteiro é de que a cirurgia é o novo sexo, isso é exposto especialmente em uma fala da personagem de Kristen Stwart, que se mostra empolgada após assistir uma cirurgia do artista interpretado por Viggo Mortensen.

Destrinchando alguns dos conceitos — ou pelo menos a tentativa deles —, o filme parece ser muito mais interessante do que de fato é, mas qualquer longa que precise de vários textos ou vídeos explicativos não é um bom sinal, afinal se um cineasta não conseguiu transmitir nenhuma de suas idéias significa que ele foi falho e superficial, explorando apenas a primeira camada.

Como eu citei no inicio dessa análise, “Mãe” de Aronofsky é um belíssimo exemplo de trama complexa e com direito a cenas grotescas que funciona porque sempre tem algo à contar, e definitivamente “Crimes do Futuro” parece estar bem distante disso.

O longa se preocupa mais em chocar (no meu caso me entediou mesmo), mostrando muitas vísceras e corpos sendo mutilados. Sem dúvidas “Crimes do Futuro” se trata de um horror body. Para quem ainda não sabe, é um subgênero do cinema de terror que apresenta intencionalmente violações gráficas ou psicologicamente perturbadoras do corpo humano.

Como todos os críticos tem leituras diferentes, assim como nem sempre há um consenso entre o público geral, talvez eu não tenha apreciado “Crimes do Futuro” por ser mais um filme do David Cronenberg, que nem em seus trabalhos mais comuns como “Marcas da Violência” não conseguiu me cativar, ou talvez esse seu novo trabalho seja terrivelmente enfadonho e sem alma mesmo. De qualquer forma, deve agradar poucos e está muito mais entre o mediano e o ruim, não é o tipo de filme que eu recomendaria.

Confira o trailer:

⭐️⭐️ – Regular
🟨 IMDB: 4.8
🍅 Rotten Tomatoes: 78%
🎥 Filme: Crimes of the Future (Crimes do Futuro)
🔵 Disponível em: Mubi
Direção: David Cronenberg
2022 ‧ Ficção científica/Terror ‧ 1h 47m

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