“Não, Não Olhe” é o retorno de Jordan Peele em grande estilo

“Não, Não Olhe” do diretor Jordan Peele (de “Corra” e “Nós”) é um filme de terror e ficção científica que vai dividir muitas pessoas, provavelmente como aconteceu com “Mãe” do Darren Aronofsky, você vai amar ou odiar a experiência.

O interessante, é que tanto em um filme, como outro, você pode sair do óbvio e procurar debater sobre os símbolos e as metáforas apresentadas, ou apenas curtir a experiência sensorial que cada um deles proporciona.

Em “Mãe” o ambiente claustrofóbico e as câmeras focadas no rosto de Jennifer Lawrence já traziam um desconforto e, uma clausura necessária para toda a loucura que se desenvolveria através dos olhares da protagonista. Numa primeira interpretação poderia ser um filme sobre o amor que consumia uma mulher devota pelo marido e pela casa, mas sabemos que o suspense de Aronofsky tinha muito mais do que isso para entregar, e por isso caberia aos espectadores procurar por respostas e outras interpretações.

Já em “Nope” (título original), Jordan Peele busca ir além do que foi apresentado em seus dois primeiros filmes, não que isso torne os antecessores inferiores. Por sinal, eu acho esse terceiro filme bem aquém dos primeiros, mas ainda assim de uma qualidade notável que me despertou o interesse do começo ao fim.

Na trama, em uma cidade do interior da Califórnia, eventos bizarros e extraterrestres começam acontecer. Uma dupla de irmãos Emerald (Keke Palmer) e OJ (Daniel Kaluuya), possuem um rancho de cavalos e são vizinhos de um parque de diversões de uma série de televisão do personagem interpretado por Steven Yeun, inspirada no velho oeste. Os dois então são testemunhas de eventos bizarros e assustadores.

O diretor Jordan Peele provou em seus filmes anteriores, que ele é um cineasta muito original e, nesse terceiro longa de sua carreira, se prova competente pela terceira vez consecutiva, agora ele mergulha no universo lovecraftiano, com uma ficção estranha (como o próprio escritor H.P. Lovecraft trabalhava) e não uma ficção cientifica tradicional.

Como M. Night Shyamalan, que começou sua carreira sendo ovacionado por público e crítica com “O Sexto Sentido, e seguiu bem com “Corpo Fechado”, mas não tanto com “Sinais” que dividiu a plateia e os especialistas, “Não, Não Olhe” deve caminhar para o mesmo caminho, e coincidentemente ambos são sobre seres de outro universo.

Jordan Peele faz um belo tributo aos grandes diretores da indústria em “Nope”, como o próprio Steven Spielberg, e isso fica evidente não só pela temática que já foi muito explorada pelo mestre da ficção cientifica, como até mesmo em seu ritmo, suspense e a escolha da trilha sonora de Michael Abels, que embora nunca tenha trabalhado com Spielberg, trouxe canções como “Winkin’ Well”, que imediatamente me levaram de volta para os melhores filmes do gênero da década de 80/90.

Mas não só de tributos o longa se sustenta, o clima de mistério envolvendo a aparição de um objeto não identificado é muito bem construída, seja pelos enquadramentos que exploram a imensidão do ambiente, ou até mesmo pela fotografia que trabalha muito bem não só os momentos diurnos, como a noite. É interessante ver um filme de terror que não cria momentos assustadores apenas durante a escuridão. E outro ponto positivo, é que mesmo quando a ameaça não está presente em cena, é possível sentir o senso de urgência.

Além do perigo eminente de um OVNI, existe uma cena assustadora em um set de filmagem envolvendo um chimpanzé e o personagem de Steven Yeun ainda criança, e esse trauma vai molda-lo nos dias atuais, mostrando como a sociedade é dominada pelo espetáculo, independente de suas consequências. E o tema da espetacularização é colocado em cheque em diversos momentos do filme.

O objeto não identificado muda de forma diversas vezes, em um momento é perceptível que ele pareça até mesmo como um chapéu de um cowboy, e no ato final oscila entre diversas formas, e isso certamente é curioso e interessante para possíveis interpretações das formas, e dos diferentes medos das pessoas.

“Não, Não Olhe” é uma experiência sensorial, poderosa e imersiva, mas poderia ser ainda mais grandioso, se não deixasse tantas idéias para discussões. Eu adoro quando algo abre portas para debates, interpretações, mas entendo que para agradar à todos, o roteiro e a direção precisa estar ciente de que um longa como “Nope” não terá a mesma receptividade como “Corra” ou “Nós”, e por isso é compreensível que seja uma experiência do tipo ame ou odeie.

Confira o trailer:

⭐️⭐️⭐️⭐️ – Ótimo
🎥 Filme: Não, Não Olhe (Nope)
🟡 Direção: Jordan Peele
 2022 ‧ Terror/Ficção científica ‧ 2h 15m

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