
“Um Lugar Bem Longe Daqui” é a adaptação da obra literária de mesmo nome, escrita por Delia Owens. Como o livro é um sucesso de vendas, é de se esperar que boa parte do público desse longa faça comparações, e uma defesa desta adaptação. Entretanto, precisamos reconsiderar que cinema e literatura tem linguagens distintas. Para um filme se tornar interessante também ao público que não conhece a obra original, ele precisa fazer um bom recorte do material base, e uma boa montagem para ser no mínimo instigante — especialmente para quem nunca teve acesso ao livro –, mas infelizmente não é o que acontece nessa adaptação da diretora Olivia Newman e da roteirista Lucy Alibar.
Na trama, abandonada por sua família, Kya Clark (Daisy Edgar Jones), também conhecida pelos habitantes da cidade de Barkley Cove como a Garota do Brejo, é misteriosa e selvagem. A jovem Kya vive isolada na pequena cidade da Carolina do Norte, e o filme segue duas linhas temporais: A primeira sobre as aventuras da menina, e a segunda é sobre a investigação de um assassinato de um jovem rico e popular na cidade fictícia de Barkley Cove. Enquanto a história acompanha o amadurecimento da jovem criada pelos pântanos do sul dos EUA na década de 1950, quando o garoto da cidade é encontrado morto e inexplicavelmente ligado a Kya, a Garota do Brejo é a principal suspeita em seu caso de assassinato.
A suspeita que se cria em torno da Garota do Brejo com relação ao assassinato é evidente, mas o julgamento que se cria em torno disso é muito superficial, e não conseguiu me conectar com o drama de tribunal que eles tentam colocar como parte central da narrativa para conduzir os desdobramentos da história.
Inclusive, nem mesmo a imagem de Garota do Brejo que é empregada a atriz Daisy Edgar-Jones (“Fresh”) funciona. Por isso, eu preciso recitar uma frase da crítica de cinema Isabela Boscov: “Essa garota tem cara de que já pegou em um celular.”, que foi dita por ela quando se referiu a protagonista do novo “Predador”, e eu acho que o mesmo acontece nesse longa.
Apesar disso, a atriz Daisy Edgar-Jones é excepcional, e consegue ser um dos grandes acertos da escalação de elenco, embora a caracterização dela poderia ter sido melhor trabalhada.
Outro grande problema de “Um Lugar Bem Longe Daqui”, é que o longa se apoia somente na personagem Kya, enquanto deixam os outros como meros coadjuvantes que não possuem mais camadas. Baseado nessas decisões criativas de roteiro, fica cada vez mais difícil torcer por algum personagem em específico, ou temer pelas consequências que esse evento trágico possa ocasionar na vida de cada um deles.
Eu fico triste porque a base da história é realmente muito interessante, qualquer pessoa que ler a sinopse antes e não tiver mais informações além da premissa, certamente vai ficar muito interessado em ir ao cinema para assistir ao filme. Quando a gente sabe que uma trama que envolve assassinato e investigação, a nossa memória rapidamente associa aos grandes filmes ou séries do gênero, e encontrar o material apresentado em “Where the Crawdads Sing” (título original) é realmente frustrante.
A montagem também é problemática, o primeiro ato apresenta um julgamento de maneira apressada, sem dar tempo para você se conectar com os personagens envolvidos, além das faltas de prova. Com isso, cria-se um distanciamento com todas aquelas pessoas envolvidas na história, e o que deveria ser um momento de tensão, acaba sendo apenas uma experiência frívola.
“Um Lugar Bem Longe Daqui” procura ser thriller com toques dramáticos, mas infelizmente o longa acaba sendo muito mais um romance água com açúcar. Ainda assim, o filme deve agradar aqueles que gostam da obra original, ou que procuram apenas um filme regular. Apesar da minha experiência confesso que não é descartável.
Confira o trailer:
⭐️⭐️ – Regular
🎥 Filme: Um Lugar Bem Longe Daqui (Where the Crawdads Sing)
🟡 Em exibição nos cinemas
🎬 Direção: Olivia Newman
2022 ‧ Mistério/Drama ‧ 2h 5m
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