“Holy Spider”, história real sobre um assassino de mulheres, é muito mais brutal pelo seu contexto cultural

“Holy Spider” é baseado numa chocante história real de Saeed Hanaei (Mehdi Bajestani), um homem casado, pai de duas crianças, e também um assassino sangue frio que executava prostitutas. Ele conhecia essas mulheres, mostrava para elas que tinha dinheiro, e as convidavam para sua própria casa, onde ele praticava os seus crimes.

Como se toda a premissa já não fosse perturbante o bastante, essa história aconteceu no Irã, e como é de conhecimento de todos, este não é um dos países onde as mulheres costumam ter voz. Além de silenciadas, também sofrem agressões físicas e psicológicas. Eu mal posso imaginar o quanto deve ser cruel viver em um lugar onde você precisa viver em condições inimagináveis.

Partindo desse principio, fica ainda mais fácil nos relacionarmos com a história dessas mulheres, especialmente pelo contexto social e cultural em que elas vivem.

O diretor Ali Abbasi (que dirigiu os dois últimos episódios de “The Last of Us”), que também assina o roteiro do longa, opta por contar a história da maneira mais crua, exatamente da forma como ela realmente aconteceu. Nesse longa não há espaço para criar um mistério em cima da identidade do assassino, nem mesmo para esconder a brutalidade dessas mortes.

Esse é um caso muito específico onde eu acho que a ausência de sutileza é muito mais um aliado da narrativa do que um problema de escolha criativa do diretor. É preciso ser explícito para mostrar o quanto o Irã é um país injusto, e como o descuidado poderia privilegiar ainda mais assassinos como Saeed.

A figura da jornalista Rahimi (Zar Amir Ebrahimi) é uma peça fundamental para o desenrolar dessa história, afinal ela é a única disposta a investigar o crime e impedir que novos assassinatos aconteçam, porque as pessoas do Irã simplesmente não se mostraram preocupadas com estas vidas perdidas porque a religião delas não permite compaixão por garotas de programas.

A direção explora muito mais o drama e as questões socioculturais que implicam na investigação destes crimes. Mas quando a câmera opta por mostrar Saeed carregando os corpos destas mulheres em seu veículo, enquanto ele caminha pela noite, podemos notar o quanto o diretor Ali Abbasi consegue transitar entre o drama para um thriller envolvente. O cineasta não precisa dos artifícios de mistérios tão recorrentes em filmes de assassinatos para prender a sua atenção.

Mas a violência é algo que o diretor não descarta. Na verdade, ele se apropria dela como um recurso narrativo para contar essa história. Dito isso, você deve ter em mente que esse não é um longa fácil de digerir, especialmente se você for sensível.

Enquanto algumas pessoas podem ter uma leitura da falta de necessidade destas cenas, ou da glorificação da violência, eu vejo isso muito mais como uma denúncia crua e realista de uma realidade dura que ninguém gostaria de vivencia. Só assim, muitos terão em mente como é viver em um país onde as mulheres não tem voz, e como elas sofrem abusos de todas as formas.

Confira o trailer:

🎥 Filme: Holy Spider
🔵Disponível em: Mubi e Imovision
Nota: ⭐️⭐️⭐️⭐️ Ótimo (9.0/10)
Direção: Ali Abassi
2022 ‧ Drama/Crime ‧ 1h 55m

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