“Assassinos da Lua das Flores” é bom, mas não é Scorsese em seus dias de glória

O cineasta Martin Scorsese possui em seu currículo filmes grandiosos que são apreciados não apenas por mim, mas também pela crítica e pelo público em geral. Posso destacar apenas alguns dos filmes dele que considero obras-primas, representando cada uma uma década no cinema hollywoodiano: “Taxi Driver” (1976), “Touro Indomável” (1980), “Os Bons Companheiros” (1990), “Os Infiltrados” (2006) e “O Lobo de Wall Street” (2013).

Embora eu considere “O Irlandês” um ótimo filme, no qual nem percebo as mais de três horas passando, é evidente que o frescor do diretor de sete décadas atrás não estava mais presente. Tudo estava lá: a sua forma de fazer cinema, o mesmo elenco e a mesma temática. No entanto, o problema não se limitava a isso. O longa estrelado por Al Pacino e Robert De Niro continuava grandioso e muito acima da média quando se tratava de filmes de máfia recentes, mas faltava algo, algo que o tornasse tão inesquecível quanto seus filmes anteriores. Mesmo considerando-o um dos dez melhores deles, não acredito que a maioria compartilhe da mesma opinião.

Dessa vez, Scorsese optou por contar mais uma história real: a história envolvendo o sumiço do grupo Osage, que chamou a atenção dos magnatas após eles descobrirem petróleo em suas terras, tornando-os ricos.

Só para contextualizar melhor, na década de 1920, essa nação indígena estava entre os mais ricos do mundo, com uma fortuna estimada em mais de 30 milhões de dólares por ano, o que equivale a mais de 400 milhões de dólares, cerca de 2 bilhões de reais em valores atuais. Evidentemente, isso despertou a inveja e a cobiça dos homens brancos.

A escolha de dar protagonismo ao ator Leonardo DiCaprio (“Ilha do Medo”) é acertada, uma vez que ele é um renomado ator com uma história de colaborações bem-sucedidas com o diretor em diversos filmes relevantes. No entanto, a relação estabelecida entre ele e a protagonista Lily Gladstone soa apressada, mesmo com a duração do filme sendo de mais de 3 horas, o que é estranho.

A história real na qual o filme se baseia é extremamente relevante e continua sendo muito atual nos dias de hoje, dado que o preconceito contra o povo indígena é semelhante ao preconceito enfrentado por todas as minorias. Contudo, é um fato que a perseguição aos indígenas no filme é retratada de forma superficial, como se o único motivo fosse a busca pelo petróleo, que traria grandes lucros aos homens brancos. No entanto, o tratamento cruel dado aos personagens indígenas vai muito além da simples ganância, revelando uma violência mais profunda.

Mas não há nenhuma dúvida ao que se diz respeito de todos os acertos ténicos do filme. Scorsese continua com toda sua paixão pela sétima arte, e expõe isso muito bem em seus enquadramentos e todo cuidado na questão visual. Mas é evidente que aos 80 anos, a forma de contar uma história não seja tão inovadora quanto foi 10 anos atrás com “O Lobo de Wall Street” por exemplo. Essa observação pode vir de vários diretores que enfrentam essa dificuldade de superar seus últimos grandes sucessos de 10 anos atrás, posso citar alguns como Clint Eastwood quando lançou “Gran Torino” em 2008 e Woody Allen com “Meia Noite em Paris” de 2011.

Mas o que impede que eu considere seu mais novo longa tão grandioso quanto seus outros filmes é a falta de aprofundamento na própria história. As mais de três horas acabam sendo pouco aproveitadas para explorar mais da complexidade que envolve o extermínio do povo indígena pelas mãos do homem branco, tornando esse crime algo corriqueiro, como em um filme de máfia, à la “Os Bons Companheiros”. Sabemos que, abordando um tema tão sensível, seria necessária uma abordagem bem mais autêntica.

A necessidade do ato final de humanizar o personagem de DiCaprio também incomoda. Parece que, devido à falta de um protagonista pelo qual pudéssemos torcer, foi exigido que o personagem adquirisse novas dimensões para encerrar a história. No entanto, para alguém que cometeu atos tão criminosos e demonstrou falta de empatia pelo próximo, evidentemente, ele não conquistaria a minha compaixão.

Eu preferiria que a história tivesse sido adaptada para ser contada a partir da perspectiva de um personagem virtuoso, como o detetive Tom White, interpretado pelo ótimo ator Jesse Plemons (“Ataque dos Cães”) — que, aliás, havia sido inicialmente escalado para interpretar o personagem Enerst Burkhart, antes de Leonardo DiCaprio assumir o papel.

Confira o trailer:

🍿 Filme: Assassinos da Lua das Flores (Killers of The Flower Moon)
📺 Onde assistir: Cinema
Nota: ✱ ✱ ✱ – (7.5/10) Muito bom
Direção: Martin Scorsese
2023 ‧ Drama/Crime ‧ 3h 26m

2 comentários em ““Assassinos da Lua das Flores” é bom, mas não é Scorsese em seus dias de glória

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  1. Eu achei O Irlandês um filme mediano. Sou fã do Pacino, mas achei o personagem mais do mesmo, parecido com outros 2 ou três personagens que ele já interpretou na vida.
    Já coloquei esse na lista

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