
“O Mundo Depois de Nós“ é baseado no livro “Leave The World Behind”, do autor Rumaan Alam. Dirigido por Sam Esmail, conhecido pelas excelentes séries “Mr. Robot” e, especialmente, pela primeira temporada de “Homecoming”, estrelada por Julia Roberts (“Erin Brokovich: Uma Mulher de Talento”), este thriller também conta com a participação da atriz hollywoodiana e dos talentosos atores Marshala Ali (“Moonlight: A Luz do Luar”), Ethan Hawke (“Antes do Amanhecer”) e Kevin Bacon (“Sobre Meninos e Lobos”).
Apesar desses nomes, o filme não cumpre sua promessa; embora tenha a direção de Esmail, que mantém suas características das séries, muitas vezes se assemelha a filmes de M. Night Shyamalan, como “Fim dos Tempos“ e “Batem à Porta“.
Na trama, o casal Amanda (Julia Roberts) e Clay (Ethan Hawke) e seus filhos vão passar o fim de semana em uma mansão de luxo. Tudo vai bem até que uma série de eventos estranhos trazem dois desconhecidos com notícias de um grande ataque cibernético. G.H. (Mahershala Ali) e Ruth (Myha’la) alegam que a casa é deles e precisam entrar para se protegerem da grande ameaça invisível que arrisca a vida de todos. Agora, as duas famílias precisam se unir para se salvarem do desastre que se aproxima e, a cada momento, fica mais assustador.
O ponto alto está no primeiro ato, onde a direção utiliza ângulos que exploram o cenário em torno da família, introduzindo os personagens centrais e criando um mistério crescente.
O problema surge nos clímaxes, que são concluídos rapidamente para aliviar a trama. O abuso desse artifício reduz a tensão, tornando difícil levar a sério as tentativas posteriores da direção e do roteiro em criar suspense.
Isso se torna evidente na cena final, que poderia ser uma cena pós crédito divertida, mas, em vez disso, quebra o ritmo, desperdiçando uma oportunidade de deixar uma cena marcante como final que proporcionaria um debate posterior. Apesar de a cena final quebrar o ritmo, é interessante e serve para destacar a importância de termos mídia física de nossas séries e filmes favoritos.
Com uma trama tão intrigante quanto a de “O Mundo Depois de Nós“, não esperava por respostas, contanto que os temas como racismo, conflitos mundiais e teorias da conspiração não fossem apenas pincelados. Além disso a tensão deveria culminar em um verdadeiro clímax final. No entanto, a quebra constante do ritmo prejudica a experiência, resultando em um desfecho inconclusivo.
Um filme terminar sem oferecer grandes explicações nunca foi um problema pra mim. Mas quando a jornada até o desfecho não oferece maiores explicações, precisa ao menos ser extremamente satisfatória para compensar essa falta.
Minha impressão recorrente é a de que o diretor originalmente planejava adaptar essa história para uma minissérie, mas eventualmente teve que condensar tudo em um filme com mais de duas horas. Não é à toa que o cineasta possui no seu currículo muito mais temporadas de séries do que longas-metragens, já que este filme se tornou o segundo de sua filmografia.

As simbologias também estão saturadas; o uso excessivo dos cervos, empregado até a exaustão, muitas vezes sinaliza a chegada de algo negativo. Essa prática é bastante comum no cinema e em séries de televisão. Aqueles que assistiram às séries “True Detective” e “Hannibal”, por exemplo, provavelmente notaram a frequente utilização desse símbolo ao longo dos episódios. Quem considera este lançamento da Netflix um filme complexo talvez precise primeiro assistir a filmes como “Cidade dos Sonhos”, de David Lynch, e algumas obras de Andrei Tarkovski para compreender verdadeiramente a complexidade cinematográfica.
A decepção é ampliada ao perceber que nem mesmo uma equipe competente – composta por um ótimo diretor, um elenco estelar e uma trilha sonora incrível de Mac Quayle (“American Horror Story”) – consegue suprir as lacunas do filme. A trilha sonora, aliás, é usada em excesso para criar tensão, evidenciando a falta de um roteiro caprichado.
“O Mundo Depois de Nós” prova que, dentre a maioria dos lançamentos originais Netflix, muitos são longas medianos que servem para preencher o tempo quando não há opção melhor, o que demonstra que o streaming, em muitos casos, oferece conteúdo similar aos telefilmes dos antigos canais de televisão, que não alcançavam a qualidade necessária para merecer ir direto para as telonas do cinema (ainda que claro, existam telefilmes realmente muito bons).
🍿 Filme: O Mundo Depois de Nós (Leave The World Behind)
📺 Onde assistir: Netflix
Nota: ✱ ✱ – (5.0/10) Regular/Mediano
Direção: Sam Esmail
2023 ‧ Suspense ‧ 2h 21m
Confira o trailer:
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