
Ao assistir ao excelente filme hollywoodiano “Voo United 93”, dirigido pelo cineasta Paul Greengrass, senti uma tensão e um profundo impacto na habilidade do diretor em recriar um cenário tão intenso e aterrorizante quanto o retratado no longa de 2006, que narrava o sequestro do voo em 11 de Setembro. Naquela época, eu jamais imaginei que o cinema brasileiro alcançaria o mesmo nível daquele filme de Greengrass.
Em “O Sequestro do Voo 375”, desesperado e passando por dificuldades, Nonato (Jorge Paz) recorre a medidas extremas: sequestrar o voo 375 da Vasp, com mais de cem passageiros, e ordenar ao comandante Murilo (Danilo Grangheia) que direcione o avião em direção ao Palácio do Planalto. Para evitar a tragédia, o piloto se vê obrigado a executar manobras nunca antes tentadas com um avião daquele porte.Em “O Sequestro do Voo 375”, desesperado e passando por dificuldades, Nonato (Jorge Paz) recorre a medidas extremas: sequestrar o voo 375 da Vasp, com mais de cem passageiros, e ordenar ao comandante Murilo (Danilo Grangheia) que direcione o avião em direção ao Palácio do Planalto. Para evitar a tragédia, o piloto se vê obrigado a executar manobras nunca antes tentadas com um avião daquele porte.
Não é exagero dizer que a direção de Marcus Baldini (também responsável por “Bruna Surfistinha”) conseguiu transmitir todo o caos vivenciado pelos passageiros do Voo 375 da Vasp naquele atípico dia de 1988.
Além disso, o roteiro de Lusa Silvestre (de “Estômago“) e Mikael de Albuquerque é eficiente ao nos inserir no contexto social da época em que essa história real se desenrolou, apresentando o personagem central antes de se tornar um thriller eletrizante que prende a atenção do espectador do início ao fim.
Os acertos não se limitam apenas ao roteiro e à direção, mas também à recriação da época, aos figurinos e as excelentes atuações dos atores Jorge Paz e Danilo Grangheia. Enquanto um transborda desperança, ódio e repulsa em seus olhos, o outro demonstra toda a complexidade de lidar com uma situação que coloca em risco a sua vida, a de seus colegas de profissão e a de todos os seus passageiros.
Adorei também rever a atriz Roberta Gualda (que não via desde “Mulheres Apaixonadas”) em um papel importante para a condução da história na tentativa de negociação com o sequestrador. Outra atriz que se destaca é a sempre carismática Juliana Alves, que mesmo em um papel curto, mostra que até as pequenas participações foram grandes acertos na escalação do elenco.
Assistir a uma história como essa, retratada de forma magistral, me faz refletir sobre como um acaso do destino pode nos destruir por dentro. É inimaginável o sentimento e tudo o que viveu o piloto dessa história real. A tensão muito bem construída nos envolve naquele ambiente aéreo de uma maneira tão imersiva quanto o filme de Paul Greengrass conseguiu na época.
Tem um momento em que o piloto realiza movimentos arriscados para tentar retomar o controle do avião do sequestrador, e nesse instante, senti-me literalmente dentro da aeronave, sentindo o caos junto aos passageiros.
A adrenalina não é apenas física, mas também psicológica. Literalmente me coloquei no lugar daquelas pessoas que, provavelmente, viveram o pior dia de suas vidas. Mal posso imaginar a sensação de estar em um voo sequestrado por um homem portando uma arma. Certamente, tal experiência deixaria marcas profundas, talvez até um trauma pós-incidente, que poderia afetar a confiança em voar novamente.
Todos esses questionamentos e sensações são possibilitados por um trabalho feito com tanto cuidado pelo diretor. Na cena em que os passageiros ficam de cabeça para baixo em uma sequência impressionante quando o piloto realiza um “tonneau”, uma acrobacia em que o avião executa uma rotação completa em torno do seu eixo longitudinal, especificamente um giro de 360°, sente-se a veracidade dessa cena. Foi filmado com efeitos práticos, e isso transparece nas expressões faciais do elenco, que precisou até de medicamentos contra enjoo após serem amarrados em poltronas com cordas especiais para evitar desprendimentos.
Foram necessários mais de 30 anos para que uma história real impressionante como essa se materializasse, e é evidente que não foi uma tarefa fácil. Para um diretor, exige uma dedicação imensa, ainda mais considerando que o cinema nacional não costuma apresentar muitos longas que se atrevam a contar histórias reais complexas, demandando efeitos práticos.
O filme “O Sequestro do Voo 375” evita o erro comum de alguns filmes nacionais, que tomam partido e se tornam maniqueístas como é o caso do nacional “A Jaula”, que claramente banaliza as complexidades humanas ao criar a imagem de um herói e um vilão.
Já no longa de Marcus Baldinini, a história apresenta o contexto social difícil em que o sequestrador vive, permitindo-nos compreender suas motivações, porém, não nos exime de perceber que seu ato é criminoso. O roteiro é autoconsciente ao humanizá-lo, mas também humaniza a figura do piloto.
De maneira simbólica, a cena final mostra ambos os personagens na mesma situação, embora seus destinos sejam distintos baseado nas suas ações.
Veja o video dos bastidores clicando aqui.
Confira o trailer:
🍿 Filme: O Sequestro do Voo 375
📺 Onde assistir: Cinema
Nota: ✱ ✱ ✱ ✱ – (8.0/10) Ótimo
Direção: Marcus Baldini
2023 ‧ Ação/Thriller ‧ 1h 40m
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