
Uma coisa em “Saltburn” é indiscutível: a direção de fotografia de Linus Sandgren, responsável pelos visuais exuberantes de “La La Land” e “Babilônia”, se equiparam em beleza ao trabalho realizado agora em “Saltburn”.
Além da cinematografia que explora figurinos, paisagen e ambientes incrivelmente belos, a escolha da tela em 4:3 foi outro grande acerto da diretora Emerald Fennell, estreante no excelente “Bela Vingança”.
A trama se passa nos anos 2000 e acompanha o estudante universitário Oliver Quick (Barry Keoghan), que tem dificuldades para se encaixar na Universidade de Oxford.
Após conhecer Felix Catton (Jacob Elordi), Oliver é imediatamente atraído pelo mundo aristocrático do jovem – que o convida para passar uma temporada na casa de sua família. Mas o que começa como uma amizade aparentemente inocente logo escalona para uma crescente obsessão.
Quando uma cineasta como Emerald Fennell começa em alta, espera-se que mantenha o mesmo primor em seus projetos seguintes ou que não permita que seu próprio (no caso “Bela Vingança”) sucesso se torne um inimigo. O mesmo aconteceu com Florian Zeller, que estreou como diretor com “Meu Pai”, seguiu com “Um Filho”, que, apesar de bom, fica aquém de seu drama de estreia.
Neste thriller sensual, falta uma narrativa mais coesa que nos envolva profundamente na história, especialmente nos desdobramentos finais que, aos meus olhos, soam totalmente desconexos do restante da trama. Apesar de uma sugestão sutil de algo errado surgindo, a direção não prepara um terreno para um desfecho tão chocante quanto pretende ser.
O primeiro ato nos envolve em um drama que aparentemente evoluiria para um romance, mas à medida que a história avança, o romance é deixado de lado em prol do desenvolvimento de um thriller.
Falta uma ligação mais sólida para tornar o desenrolar da história tão intrigante quanto pretende ser. Esse problema de ritmo já era visível no primeiro trabalho de Emerald Fennell, o que sempre me fez considerar “Bela Vingança” ótimo, mas não perfeito. O tom por vezes inconsistente persiste neste segundo trabalho da diretora, talvez devido a um roteiro não tão bem elaborado quanto o anterior.
No entanto, “Saltburn” não se limita apenas a problemas. O filme tem méritos consideráveis, especialmente no elenco, com atuações seguras de Barry Keoghan (“Os Banshees de Inesherin”), Jacob Elordi (“Euphoria”) e Rosamund Pike (“Garota Exemplar”).
Há também algumas cenas extremamente provocativas e desconfortáveis que desafiam o espectador. Considerando especialmente a escolha do personagem responsável por essas cenas repulsivas, é fácil compreender porque algumas coisas bizarras aconteceram.
Para alguns, podem parecer apelativas e buscando choque gratuito, mas a estética visual fascinante e a complexidade dos personagens as integram à estranha narrativa proposta pelo roteiro.
Em sua conclusão, “Saltburn” poderia ter nos levado a refletir sobre como o desejo e o amor não correspondido podem consumir alguém de maneira destrutiva, transformando essa pessoa em um monstro que cresce de diferentes formas e cria um próprio inferno pessoal. Mas ao buscar justificar algumas atitudes com outras explicações adicionais, o texto acaba caindo no lugar comum sobre histórias de ambição, nos lembrando que este longa tenta ser uma versão modernizada de “O Talentoso Ripley”.
Confira o trailer:
🎥 Filme: Saltburn
📺 Onde assistir: Prime Video
Nota: ✱ ✱ ✱ – (6.5/10) Bom
Direção: Emerald Fennell
2023 ‧ Thriller/Drama ‧ 2h 7m
Confira a matéria complementar que
fiz sobre as referências de “Saltburn”:
Achei uma cópia de O Talentoso Ripley, que foi inspirado em O Sol por Testemunha, com o Delon. Me lembrou um pouco o Match Point, do Woody Allen também. O filme não chega a ser ruim, mas já dá para se ter uma noção de que envolve comportamentos psicologicamente estranhos, a começar pelo elenco. Rosamund e Barry juntos só poderia ser um filme com personagens curiosos (para dizer o mínimo).
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Sim, concordo! Eu fiz até uma publicação com as referências que o filme usou, da uma olhadinha na página do Instagram. Eu adoro “O Sol Por Testemunha” também, o Delon ficou ótimo no papel de Ripley.
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