“Pobres Criaturas” vai na julgular da nossa sociedade hipócrita

Quando o diretor grego Yorgos Lanthimos (de “A Favorita”) decide adaptar em 2024 um livro como “Pobres Criaturas”, escrito em 1992 por Alasdair Gray, fica evidente o quão crucial é trazer as questões sexuais e de libertação nos dias atuais. Especialmente em uma geração que questiona a necessidade de cenas sexuais nos filmes atuais. É importante ressaltar que Yorgos não é um cineasta que utiliza essas temáticas apenas para apelar, como ocorre em filmes que carecem de substância narrativa. “Pobres Criaturas” vai além desse teor e dessas cenas, utilizando esses temas para abordar questões de aprisionamento, liberdade, capitalismo, socialismo e outros temas pertinentes que demandam constante discussão.

É interessante observar como o sexo ainda é tabu para muitas pessoas. Na sessão em que assisti ao filme, notei reações de choque e desconforto ao lado. Apesar disso, a sexualidade explorada por Yorgos Lanthimos é sempre apresentada de forma natural. Ele simplesmente retrata o que é inerente ao ser humano. Se esse é um dos temas centrais de sua história, por que censurar tais cenas?

Agora, vamos falar da história de “Pobres Criaturas”. A jovem Bella Baxter (Emma Stone) é ressuscitada pelo cientista Dr. Godwin Baxter (William Defoe). Buscando explorar mais do mundo, ela foge com um advogado e viaja pelos continentes, demandando igualdade e libertação, livrando-se dos preconceitos de sua época.

Essa é, em minha visão, a obra mais madura da carreira de Yorgos Lanthimos. Especialmente porque ele explora temáticas sociais já abordadas em outros trabalhos de sua carreira que, pessoalmente, considero menos atrativos. Sabendo que seu desejo de adaptar esse livro está presente desde o início de sua carreira, é possível imaginar que, enquanto não concretizava a adaptação de “Pobres Criaturas”, ele explorou alguns desses temas em outros projetos, como “Dente Canino” e “O Lagosta”.

O amadurecimento de seu trabalho reside na capacidade de articular diversas temáticas relevantes, não apenas colocando-as na tela, mas criando uma narrativa que se desenvolve junto com a protagonista Bella (Emma Stone). Esse mérito não pode ser atribuído apenas a ele, pois o roteiro é assinado por Tony McNamara (de “A Favorita”, também dirigido por Yorgos, e da série “The Great”).

O primeiro ato explora intensamente as descobertas de Bella (Emma Stone), inicialmente algo estranhas e quase incompreensíveis, uma vez que somos introduzidos a um mundo fantasioso que parece não ter sentido à primeira vista. No entanto, tudo ganha novos contornos quando algo chocante sobre a existência da protagonista é revelado. Sendo uma comédia de ficção científica, é evidente que quem busca explicações lógicas e um sentido real da trama poderá ter sua experiência comprometida.

O desenvolvimento de Bella (Emma Stone), associado à sua descoberta, é ilustrado por sua vontade de conhecer o mundo, explorar a cidade sozinha, buscar a leitura e outras atividades que mostram uma evolução mais rápida do que o normal. Isso fica evidente quando a personagem interpretada por Margaret Qualley surge em cena, representando uma nova tentativa do Dr. Baxter de repetir o sucesso com Bella.

A evolução da protagonista é tão envolvente quanto para a personagem, pois sua jornada de descoberta é habilmente construída, destacando-se em uma cena específica quando ela entra em contato com a música pela primeira vez. A performance corporal de Emma Stone nessa cena, contracenando com Mark Ruffalo como o canastrão Duncan, é contagiante.

Se “Barbie” foi elogiado e defendido por feministas devido às questões debatidas, o mesmo deveria ocorrer com “Pobres Criaturas”, mesmo que haja um fator limitante para o filme de Yorgos Lanthimos atingir o público em sua plenitude. A comparação é válida: ambas as protagonistas saem de um mundo para entrar em uma realidade dominada pelo machismo e enfrentam desafios. No entanto, a maneira como cada uma lida com o patriarcado e as questões sociais difere, pois uma personagem é doce e tradicional, enquanto a outra é ousada, destemida e amoral.

O humor, muitas vezes ingênuo, mas sempre afiad, funciona excepcionalmente bem. Uma cena em que Bella (Emma Stone) é censurada por Duncan (Mark Rufallo) na mesa, e ao retornar repete as palavras exigidas por ele, é uma sacada simples, mas eficaz. O constrangimento transmitido pelo elenco nessa cena de jantar é deliciosamente divertido.

A fotografia hipnotizante de Robbie Ryan é impressionante, explorando ambientes de forma criativa com lentes e cores deslumbrantes. O design de produção é fantástico, referenciando diretamente as arquiteturas de Antoni Gaudi, ilustrando uma Lisboa futurista e retrô ao mesmo tempo, através de cores vibrantes.

Entre as belezas visuais, também existe as estranhezas desse mundo imaginário, especialmente ilustrado pela mistura de corpos de animais, ainda que não explorada em detalhes de como foram feitos e o porque disso. Considerando que o personagem de William Defoe é retratado como um homem benevolente, especialmente por dar uma segunda chance às mulheres mortas, é possível notar que ele tentou resgatar a vida dos animais à sua maneira ‘Frankenstein’.

O meu único problema com “Pobres Criaturas” foi especificamente, uma sequência que dura cerca de 10 a 15 minutos, na qual tentam explorar a evolução da personagem sob a consciência dela em relação ao mundo, mostrando-lhe a existência de pobreza e situações que ela desconhecia, fugindo de sua realidade. É admirável observar o quanto Bella se preocupa com isso e tenta resolver à sua maneira, mas todo esse arco foi abordado de forma rápida e até um pouco desconexa do restante da história que consegue aperfeiçoar as temáticas exploradas. Provavelmente, essa é uma parte que deve funcionar melhor no livro, já que devido ao tempo de tela, acaba ficando limitada essa abordagem.

“Pobres Criaturas” lança uma alfinetada precisa nos costumes da sociedade, provocando uma reflexão profunda sobre como esta se posiciona diante das questões sexuais e patriarcais.

O mais intrigante é perceber que uma obra como esta surge com o propósito claro de destacar que a liberdade e a escolha sexual deveriam ser direitos fundamentais de qualquer indivíduo, independentemente dos padrões da sociedade. O filme também aborda o patriarcado de maneira eficaz, evitando a armadilha do simplismo que poderia se esconder por trás de uma sátira mais exagerada. Todo o mérito é atribuído a um roteiro refinado e a uma direção sofisticada, resultando em um clássico instantâneo.

Confira o trailer:

🍿 Filme: Pobres Criaturas (Poor Things)

📺 Onde assistir: Cinema
Nota: ✱ ✱ ✱ ✱ – (9.0/10) Ótimo

Direção: Yorgos Lanthimos

2023 ‧ Comédia/Ficção científica ‧ 2h 21m

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