“Folhas de Outono” é um romance contemporâneo com a alma de um clássico

Certa vez, o diretor Aki Kaurismäki disse: “Não gosto dos tempos modernos. A não ser os do filme de Chaplin.” Essa afirmação torna-se evidente ao assistir a um de seus filmes, devido ao estilo clássico que ele adota em suas obras, especialmente em “Folhas de Outono”. Não à toa, o cachorrinho que surge no meio do filme é chamado de Chaplin, em mais uma homenagem ao cineasta.

O longa finlandês representa um tipo de cinema que não se vê há muito tempo, o que pode ser uma joia para os amantes da sétima arte, mas também pode ser considerado ‘enfadonho’ por quem costuma julgar um filme pelo seu ritmo. Além disso, o diretor tem sua assinatura única, especialmente ao dirigir o elenco de uma forma que se assemelha quase a acompanhar uma peça de teatro, o que pode causar certo estranhamento em diferentes públicos.

Há outro fator que pode ser proibitivo, em “Folhas de Outono”, o silêncio não deveria limitar a atenção do público; na verdade, é necessário para aqueles que apreciam cinema sem a necessidade de diálogos constantes.

A sutileza está não apenas na bela cinematografia, que utiliza diferentes tons de cores e enquadramentos simétricos para ilustrar cada momento específico dos personagens, desde o distanciamento entre eles até mesmo a comparação entre solidão e intimidade, como na cena da protagonista voltando de ônibus, enquanto atrás dela podemos ver uma mulher que deita a cabeça no ombro de um homem.

O filme acompanha a história de Ansa (Alma Pöysti), uma estoquista de supermercado, e Holappa (Jussi Vatanen), um alcoólatra. Completamente desconhecidos, seus caminhos acabam se cruzando em um bar de karaokê numa noite qualquer em Helsinki.

Atraídos um pelo outro, eles decidem sair em um encontroe possivelmente iniciar um relacionamento improvável que pode ser a solução para afastar a solidão existencial de ambos. No entanto, uma série de adversidades os afasta.

A premissa é simples, mas o contexto social em que se encontram faz uma metáfora direta sobre como, em um mundo rodeado por pessoas sem empatia, ainda podem existir duas pessoas capazes de criar laços verdadeiros em pouco tempo.

Mostrar a feiura do mundo, mesmo que por pequenos trechos de noticiários sobre a guerra Rússia-Ucrânia através de uma rádio, e a beleza desse mundo em que é possível encontrar paixões repentinas, é o que torna esta comédia romântica finlandesa tão especial. Mas não pense que isso é feito de maneira piegas; a construção dessa história de amor é tão genuína que, nas mãos de outro cineasta, poderia soar diferente.

O longa-metragem também explora a precarização do trabalho, mais uma vez deixando claras sua influências no cinema, especialmente porque Chaplin utilizou bastante essa temática em seus filmes, sobretudo em “Tempos Modernos”, no qual o diretor deixou claro ser um grande admirador dessa obra em específico. Inclusive, é um deleite para qualquer cinéfilo notar as inúmeras referências aos filmes favoritos do diretor em cada cartaz que aparece durante o filme.

É interessante como o cineasta usa as folhas de Outono, que caem frequentemente, para fazer um paralelo com os produtos que têm prazo de validade, os entulhos que são descartados e até mesmo os trabalhadores que são igualmente demitidos das empresas quando convém aos empresários. Todo esse descarte também é refletido na guerra — constantemente noticiada pela rádio –, onde sempre a vida humana é desvalorizada. A protagonista, interpretada pela excelente Alma Pöysti, grita: “Maldita guerra”, ao ligar o aparelho e ouvir pela milésima vez que nada mudou. Isso vindo de uma protagonista que demonstra afeto por um homem que acabou de conhecer e também por um cachorro que passaria por um processo de extermínio, mostra o quanto sua bondade é intrínseca.

“Folhas de Outono”, com apenas 1 hora e 20 minutos, consegue explorar temas importantes e mostrar a simplicidade efetiva das relações, nos lembrando que, em meio ao caos que o mundo enfrenta em algumas regiões devido às guerras, ainda é possível restaurar nossa fé na humanidade. Enquanto algumas pessoas semeiam ódio pelo mundo, ainda existe o amor puro e legítimo que, por vezes, pensamos ter desaparecido.

Confira o trailer:

🍿 Filme: Folhas de Outono (Fallen Leaves)

📺 Onde assistir: MUBI
Nota: ✱ ✱ ✱ ✱ – (8.5/10) Ótimo

Direção: Aki Kaurismäki
2023 ‧ Comédia/Romance ‧ 1h 21m

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