
A diretora estreante Celine Song utiliza o conceito coreano In-Yun para dar início a uma história de amor que não se concretizou devido aos acasos do destino. Para proporcionar um contexto mais claro para quem não está familiarizado com o conceito, vale ressaltar que ele sugere que todos nós podemos ter nos cruzado em vidas passadas e convivido em outros planos de existência. O conceito também acredita que estamos sempre conectados, e nossos afetos jamais morrem, apenas se transformam em novos tempos.
No entanto, não espere um filme de romance com ficção científica que explore as possibilidades de vidas passadas por meio de flashbacks. Este é, na verdade um romance intimista que busca através de nuances e interpretações sutis, explorar o íntimo de seus personagens por meio de gestos e olhares.
Na trama, Nora (Greta Lee) e Hae Sung (Teo Yoo) são amigos de infância com uma conexão profunda, mas acabaram se distanciando quando a família de Nora decidiu deixar a Coreia do Sul. Vinte anos depois, Nora está em um relacionamento com Arthur (John Magaro) e vive no Nova York. Os dois amigos se reencontram, confrontando noções de amor e destino.
É impressionante o que a cineasta realiza em seu primeiro trabalho, especialmente na direção (Celine Song também assina o roteiro), explorando o distanciamento desses dois personagens por meio de ângulos que mostram essa distância em belos enquadramentos que compõem parte da narrativa com delicadeza. Estas escolhas não são meras decisões estéticas, mas sim apoios à história dos dois protagonistas.
A direção de fotografia de Shabier Kirchner (de “Os Nove do Mangrove”) também é um acerto; os tons sutis se encaixam na doçura do elenco, e a leveza da direção ao explorar longas cenas de silêncio que transmite muito sobre os sentimentos dos protagonistas.
Kirchner trabalhou para capturar a sensação de tempo e sua fugacidade, conforme revelado por ele mesmo ao Variety. Além disso, ele demonstra ter uma compreensão sólida de como a arquitetura e o espaço devem ser trabalhados nas cenas que envolvem ambos os personagens.
Apesar de todos os acertos notáveis, “Vidas Passadas” é o novo “Antes do Amanhecer” do diretor Richard Linklater, que foi um grande sucesso que rendeu ao norte-americano uma trilogia deste romance.
No entanto, é importante ressaltar que “Past Lives” (título original) alcançou elogios demasiados como se tratasse de algo realmente inovador, mas a questão é que talvez as pessoas tenham esquecido de obras igualmente sutis, tocantes e intimistas como a Trilogia do Antes.
Uma decisão do roteiro, em abordar a história da protagonista envolvida em outro relacionamento, me afasta um pouco do envolvimento belíssimo entre Nora e Hae. A presença do personagem Arthur no meio dessa história é, de certa forma, desconfortável. O personagem até brinca com isso, dizendo que em um filme ele seria considerado o chato e vilão. Mas Arthur é, na verdade, apenas um homem bom que descobre que sua esposa poderia estar mais feliz com seu amor do passado.
Podemos entender que o grande acerto da diretora é nos despertar tamanha empatia por todos personagens, como também pelo coadjuvante da história que precisa lidar com uma situação extremamente delicada, sabendo que ela precisa enfrentar esses demônios do passado e seguir em frente com ele. A cena final, devastadora para o casal que rompe esses laços, é igualmente dolorosa para Arthur, que precisa consolar sua esposa aos prantos ao se despedir de seu amor de infância.
“Vidas Passadas” é mais um filme de romance que segue a estrutura do “e se…”, recentemente o francês “Pare Com As Suas Mentiras” também explorou um relacionamento interrompido pelo destino e nos mostrou como a vida adulta da outra pessoa teve uma consequência irreparável.
É um belíssimo trabalho da diretora estreante Celine Song que nos coloca na pele de todos os personagens envolvidos e nos convida a refletir sobre nossas escolhas e como elas impactam nossas vidas.
Confira o trailer:
🍿 Filme: Vidas Passadas (Past Lives)
📺 Onde assistir: Estreia 1 de Fevereiro no Cinema
Nota: ✱ ✱ ✱ ✱ – (8.0/10) Ótimo
Direção: Celine Song
2023 ‧ Romance/Drama ‧ 1h 46m
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