
É difícil permanecer indiferente após assistir a “Zona de Interesse”, a menos que se esteja completamente por fora da história real dos campos de concentração – o que espero que não seja o caso de nenhum espectador do filme de Jonathan Glazer, conhecido por obras como “Sob a Pele” e “Sexy Beast”. O cineasta londrino opta por não seguir a estrutura convencional dos filmes sobre o nazismo. Não espere explicações contextuais sobre esse período sombrio da história. A narrativa se desenrola através da perspectiva de uma família nazista que vive nas proximidades de um dos maiores campos de concentração, agindo como se estivessem alheios aos horrores ao seu redor.
O enredo centra-se em um intricado caso de amor entre um oficial nazista e Hedwig (Sandra Hüller, indicada ao Oscar por “Anatomia de Uma Queda”), esposa do comandante Rudolf Höss (Christian Friedel) do campo de concentração de Auschwitz. Apesar de desfrutarem de uma vida aparentemente idílica em uma casa próxima ao campo, tudo se complica quando Rudolf informa à esposa que precisarão deixar o local.
O aspecto mais simbólico de “Zona de Interesse” reside no fato de que apenas o cachorro parece incomodado e agitado. Embora seja natural para um animal reagir assim a ruídos, é intrigante observar como os seres humanos permanecem calados e indiferentes ao que ocorre de mais nefasto ao lado de onde vivem normalmente.
Não espere por cenas explícitas de tragédia que costumam caracterizar filmes sobre a Segunda Guerra Mundial. Glazer opta por explorar o horror da época através do som e da rotina banal de uma família nazista, que segue suas atividades diárias como se nada estivesse acontecendo.
A personagem Hedwig, interpretada por Sandra Hüller, demonstra mais preocupação com seus próprios interesses do que com o marido. Embora justifique seu desejo de proporcionar uma infância feliz e saudável aos filhos naquela casa, parece que sua verdadeira motivação é satisfazer seus próprios caprichos.
Enquanto isso, seu marido Rudolf (Christian Friedel) mantém um caso extraconjugal, revelando uma falta de conexão até mesmo com a sua esposa. É estranho observar a cena em que ele demonstra certo afeto por seu cavalo, notando que toda a frieza diante do que acontece ao lado de sua casa acaba refletindo nas próprias relações humanas que eles desenvolve.
A correlação que Jonathan Glazer explora entre a banalidade dessa família, que negligencia tudo o que acontece diante dos próprios olhos, é refletida não apenas no comportamento humano do cotidiano, mas também na decisão de dar destaque ao ambiente em que vivem.
Há uma cena em particular em que a câmera foca nas flores, e podemos ouvir os sons do que acontece bem próximo daquele local, revelando muito sobre a beleza e a feiura deste mundo. O mais assustador é lembrarmos como isso ocorreu há menos de 100 anos, e que ainda vivemos no mesmo mundo, com a mesma espécie humana que fez parte desse horror difícil de digerir até hoje.
O aspecto mais intrigante reside na forma como o diretor Jonathan Glazer subverte nossas expectativas em relação a tudo o que já conhecemos sobre a Segunda Guerra Mundial. Ele nos coloca diante da perspectiva dos nazistas, proporcionando uma abordagem única à narrativa. A partir disso, somos confrontados com a frieza e normalidade com que tudo era tratado, amplificando a natureza assustadora dessa história real.
Esse sentido de terror real é potencializado pela direção, excelentes atuações e também pela trilha sonora de Mica Levi que é tão estranha quanto a realidade assustadora daquele período sombrio.
O terror emerge dessa normalidade aparente. Não somos apresentados a cenas de guerra nem aos horrores vivenciados na época. Ao invés disso, testemunhamos essa família nazista desfrutando de sua rotina na zona de conforto, vivendo seus dias como se nada estivesse acontecendo, enquanto uma média de 12 mil pessoas são exterminadas diariamente. Essa dicotomia entre a banalidade da vida cotidiana e a magnitude dos acontecimentos históricos torna a narrativa ainda mais impactante.
Eu terminei essa experiência cinematográfica me sentindo sobrecarregado, refletindo sobre como o ser humano pode ser cruel e indiferente ao próximo quando submetido à liderança de um regime totalitário, que dita o que deve ser feito sem permitir a autonomia de uma reflexão individual. Se nós, como seres racionais, perdemos essa capacidade em situações de guerra devido à nossa própria busca pela sobrevivência, “Zona de Interesse” me faz lembrar que como sociedade falhamos.
Confira o trailer:
🍿 Filme: Zona de Interesse (The Zone of Interest)
📺 Onde assistir: Cinema
Nota: ✱ ✱ ✱ ✱ ✱ – (10/10) Obra-prima
Direção: Jonathan Glazer
2023 ‧ Guerra/Crime ‧ 1h 46m
Eu vi no cinema e fiquei um pouco arrependida 😂
Não sabia o roteiro, mas vi que era candidato ao Oscar e fui assistir. Eu teria esperado sair no streaming.
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