
O filme indicado ao Oscar, “American Fiction”, é do roteirista e diretor estreante no cinema Cord Jefferson, mas o estudaniense já foi responsável pelos roteiros de alguns episódios da série “The Good Place” e também da ótima minissérie “Watchmen” da HBO.
Por isso, é possível perceber que o roteiro deste filme é um ponto forte, certo? Mas fica ainda melhor quando se descobre que se trata de uma sátira sobre o comportamento da indústria editorial de livros nos Estados Unidos em relação aos escritores negros — algo nunca explorado e mostrado antes dessa forma que escancara o racismo dos americanos sob uma outra ótica.
Na trama, o autor Thelonious “Monk” Ellison (Jeffrey Wright) fica irritado depois que um de seus trabalhos não foi aceito pelas editoras e sua carreira parece estar estagnada pois sua obra não é considerada “negra o suficiente”. Enquanto isso o livro We’s Lives in Da Ghetto, de Sinatra Golden (Issa Rae, da série “Insecure” da HBO), chega a lista de mais vendidos, deixando o autor em crise ainda mais frustrado. Ao perceber o tipo de conteúdo que o público esta interessado, Thelonious decide escrever um romance satírico sob pseudônimo na intenção de expor as hipocrisias do mundo editorial.
É assustador observar como as editoras de livros tentam estigmatizar as histórias da cultura negra, evitando que esses escritores sejam autênticos e contem histórias comuns, como deveriam. Isso revela como o preconceito está enraizado na cultura americana, inclusive afetando a área artística, que deveria ser uma das principais a lidar com a liberdade criativa e as histórias a serem contadas.
Há uma tendência à comercialização do conteúdo para atingir determinado público-alvo, no caso os brancos. As editoras acabam rotulando os negros de uma maneira que não corresponde à verdadeira diversidade dessa comunidade.
Se os brancos da alta sociedade podem contar diversas histórias, por que os negros são impedidos de ter essa mesma liberdade?
Esta história me comoveu, e mesmo sendo uma sátira, é difícil achar humor que encontraríamos em uma história satírica comum. Senti mais constrangimento e desconforto ao testemunhar a situação criada pela comunidade branca em torno do personagem interpretado por Jeffrey Wright, (que também brilhou em “Westworld” como Bernard).
Neste longa, o ator Jeffrey Wright desempenha um papel de destaque que lhe rendeu uma indicação ao Oscar. É fascinante acompanhar como a perspectiva do roteiro retrata o protagonista de forma que podemos entender seu desconforto. A cena em que um editor o interrompe, e pede para que ele finja ser um ex presidiário é particularmente reveladora, escancarando todo um preconceito estrutural das editoras de livros.
Essa história nos faz refletir sobre como as indústrias podem manipular narrativas ao longo das décadas, baseadas no que desejam transmitir de acordo com suas crenças pessoais.
Além do tema central,o filme explora as relações do protagonista com sua mãe e seus irmãos, especialmente Clifford Ellison (Sterling K. Brown, de “Marshall”), que revela ser homossexual.
No entanto, considero os dramas familiares menos impactantes do que a parte central que foca em toda a estrutura criativa que o protagonista terá que enfrentar para lidar com essa situação difícil, podendo comprometer seu trabalho e sua profissão.
O ato final revela algumas ideias que o personagem Thelonious tem para concluir sua história, e uma jogada que ele faz desperta o interesse de Wiley (Adam Brody). No entanto, isso acaba evidenciando como o estigma das histórias envolvendo negros no cinema é predominante, fazendo-nos refletir sobre como geralmente são lançadas apenas histórias que envolvam racismos e tragédias devido à falta de oportunidades para os realizadores contarem novas histórias sobre a cultura negra.
Em um paralelo, recordamos como o cinema costumava retratar os homossexuais, frequentemente associando-os à promiscuidade e às doenças sexualmente transmissíveis, pois era isso que a indústria desejava transmitir.
Assim, sempre que uma nova narrativa se afasta desse caminho estigmatizado, a comunidade gay a recebe com entusiasmo e aclamação. Portanto, “American Fiction” revela-se igualmente crucial ao mostrar uma realidade ainda presente na comunidade artística e destacar a importância de valorizar novas histórias que escapem dos estigmas da sociedade negra, independente de qual a etnia do artista que escreva sobre essas histórias.
Confira o trailer:
🍿 Filme: Ficção Americana (American Fiction)
📺 Onde assistir: Prime Video
Nota: ✱ ✱ ✱ ✱ – (8.0/10) Ótimo
Direção: Cord Jefferson
2023 ‧ Comédia/Drama ‧ 1h 57m
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