
“Uma Família Feliz” começa com o ponto final da história: uma mãe enterra sua filha, e um pai desesperado liga perguntando o que ela fez. Isso é tudo o que você vai saber nos primeiros minutos do filme baseado no livro do brasileiro Raphael Montes. É a partir desse inicio que você irá montar um quebra-cabeça para desvendar como uma família aparentemente feliz chegou a um final tão trágico.
Pela premissa, você deve imaginar que se trata de um thriller eletrizante que vai mexer com diversas das suas emoções. Mas não espere tanto, porque suas expectativas talvez sejam frustradas.
O longa de José Eduardo Belmonte é muito eficiente, mas essencialmente um drama, pois o progresso da narrativa trabalha muito mais as desavenças dessa família e a confusão mental que se cria no espectador que busca respostas, as quais acabam sendo respondidas apenas nos minutos finais.
Entretanto, a conclusão final se assemelha muito mais a um filme de terror devido à reviravolta que é trabalhada.
Dito isso, a efetividade do filme está na direção, que consegue transmitir aquela sensação de inquietação através dos enquadramentos e da busca pelo desconhecido em cada canto daquela casa, que sempre foca em um quadro feliz do casal, por exemplo.
Além disso, o roteiro é bastante eficiente ao explorar diversos temas, seja pela responsabilidade da maternidade, das acusações, da era do cancelamento e da derrocada de um casamento.
Mas o que me incomoda é que o ápice da história e a descoberta chegam de forma muito tardia, mesmo com o tempo suficiente que trabalhou toda tensão por mais tempo do que deveria. É como se a recompensa fosse curta demais para um caminhar tão longo e nem sempre tão interessante.
As atuações nem sempre atingem seu ponto, especialmente porque, em certos momentos, o exagero nos remete mais a uma atuação teatral. A atuação de Reynaldo Gianecchini, infelizmente, é a que mais deixa essa sensação, embora a personagem de Grazi Massafera sempre precise exceder o tom porque sua personagem pede isso. Mas é até mesmo nos pequenos momentos que Gianecchini demonstra certa fragilidade em assumir as dores de seu personagem com mais naturalidade.
“Uma Família Feliz” é bastante eficiente em seu drama e mistério, mas não é necessariamente bem-sucedido na maneira como organiza suas ideias e as desenvolve.
De qualquer modo, o filme nacional consegue prender a atenção e trazer uma sensação de desconforto ao acompanhar uma família quebrada, que imediatamente nos traz um sentimento amargo daqueles que vivem em família, mas que não conseguem ter o bem mais precioso que se deveria ter: cumplicidade, amor, respeito e felicidade. Afinal, quando se tem uma ou mais maçãs podres, é inevitável que todas as frutas apodreçam juntas. A experiência é recompensadora, pois consegue trazer reflexões sobre a maternidade, vida de casado e, como brinde, um final inesperado.
Confira o trailer:
🍿 Filme: Uma Família Feliz
📺 Onde assistir: Cinema
Nota: ✱✱✱ (6.0) – Regular
Direção: José Eduardo Belmonte
2023 ‧ Thriller/Drama ‧ 1h 36m
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