
“Armadilha”, o novo filme de M. Night Shyamalan, apresenta uma ideia inusitada inspirada em um caso real conhecido como Operação Flagship, ocorrido em 1985, mas a história real diverge significativamente da visão do diretor. Ainda assim, a premissa do filme parece bastante original, ao partir de um princípio que permite diversas cenas ambientadas em um show, estabelecendo-o como o ponto de partida da trama.
Com isso, o filme cria um cenário inusitado para a condução da narrativa, que promete um grande thriller, envolvendo uma armadilha para capturar um assassino em meio a um ambiente repleto de música e adolescentes eufóricos, enquanto, nos bastidores, ocorre uma perseguição contra um criminoso.
Na história, acompanhamos Cooper (Josh Hartnett) e sua filha adolescente. Ambos estão em um show de música pop quando Cooper nota a presença excessiva de policiais, o que o deixa inquieto. Rapidamente, ele descobre por meio de um membro da equipe do local que eles estão no epicentro de uma armadilha para capturar um serial killer—o próprio Cooper. O que deveria ser uma noite de diversão entre pai e filha transforma-se em uma luta desesperada pela fuga. O filme acompanha a angustiante jornada de Cooper e sua filha enquanto são implacavelmente perseguidos.
O primeiro ato foca bastante no show e na descoberta de Cooper sobre a armadilha que visa capturá-lo. Ao longo da trama, percebemos diversas inconsistências. Inicialmente, fiz um esforço de suspensão de descrença para aproveitar a jornada alucinante e até cômica de M. Night Shyamalan, que às vezes consegue transformar essa mistura de humor, terror e mistério em uma receita que funciona, como vimos no subestimado “A Visita”.
Contudo, o diretor por vezes parece esquecer que nem todas as suas ideias ousadas resultam em bons filmes—há momentos em que ele tropeça na própria ambição.
O problema de “Armadilha” surge quando o filme abandona esse cenário incomum para o gênero e, através de situações inverossímeis, tenta dar continuidade a uma história que não consegue se sustentar em sua ideia ambiciosa. O filme acaba caindo na mesmice de desdobramentos surreais que testam progressivamente a paciência do espectador.
No início, as situações absurdas são amenizadas pela necessidade narrativa—afinal, se fosse fácil prender o assassino, a história terminaria ali. Por isso, todas as tentativas do protagonista de despistar seus perseguidores e encontrar uma saída tornam a trama um pouco menos absurda e mais interessante. No entanto, à medida que a ideia inicial se expande para outras ambientações, essas incongruências se tornam ainda mais evidentes.
No último ato, Shyamalan revela que tinha apenas uma premissa inventiva, mas que não a desenvolveu o suficiente para sustentar a trama. Essa falta de planejamento leva o cineasta a recorrer a clichês e a aborrecer o espectador com explicações excessivas, que neste filme soam ainda mais tediosas por subestimarem a capacidade do público de entender o óbvio. Exageros e excessos podem ser bem-vindos, mas até para isso, é necessário que sejam bem orquestrados.
Em meio a isso, destaca-se a ótima atuação de Josh Hartnett, que por vezes pode parecer caricata. Contudo, isso não se deve necessariamente a uma falha de interpretação, mas sim ao tom que Shayamalan imprime à sua história, mesclando humor nos dois primeiros atos e culminando em um terceiro ato mais sério. Nesse ponto, vemos como o ator consegue transitar do tom exagerado do início para algo mais sombrio. A maneira como ele navega entre diferentes nuances deixa claro que sua atuação é o ponto alto do filme.
No meio de toda a ambiciosa narrativa, quem parece preso em sua própria “Armadilha” é o próprio diretor, que mostra que nem sempre consegue repetir o sucesso. Por isso eu gosto tanto do também subestimado “Batem à Porta”, que ao ficar no lugar seguro e não tentar inovar tanto, acaba sendo muito mais efetivo e interessante que alguns filmes do diretor que me aborrecem pela sua pretensão de ser sempre o visionário do terror, ainda que eu o considere como um, já que ele produziu grandes filmes.
Mas meu receio é que nessa tentativa frustrada, ele acabe produzindo uma quantidade maior de erros e fique esquecido pelos seus grandes feitos no gênero do suspense e do terror.
Confira o trailer:
🍿 Filme: Armadilha (Trap)
📺 Onde assistir: Cinema
Nota: ✱ ✱ – (5.0/10) Mediano
Direção: M. Night Shyamalan
2024 ‧ Terror/Mistério ‧ 1h 45m
Deixe um comentário