“Alien: Romulus” mantém a tensão do clássico, mas traz um roteiro reciclado

“Alien: Romulus” começa com uma proposta menos ousada e uma premissa muito mais pé no chão, que nos remete ao clássico e até mesmo à sequência “Aliens: O Resgate”. É um bom ponto de partida, lembrando que os maiores sucessos de público foram justamente esses dois filmes. No entanto, essa escolha de permanecer na zona de conforto pode ser um grande obstáculo para que o filme seja mais lembrado no futuro. Embora atualmente possa vender ingressos e ser considerado um dos melhores da franquia, é provável que, com o tempo, lembremos mais do filme original do que este que se baseou nele.

As pessoas estão saudosistas, basta ver quantas continuações, remakes e reboots estão sendo lançados e estão em produção. Muitos questionam a falta de criatividade da indústria hollywoodiana quando se anuncia mais uma sequência de franquia, remake ou reboot, mas já notaram que os mesmos que reclamam são os que pagam ingresso para conferir todos esses resgates de clássicos ou franquias? Seja por curiosidade ou não, é exatamente isso que faz com que Hollywood se prenda ao passado e não invista em novas histórias.

Quando isso acontece, na maioriadas vezes, a nova história fracassa e não rende lucro. E como qualquer coisa, Hollywood é movida pelo dinheiro; engana-se quem pensa que a indústria está preocupada com a liberdade criativa de diretores e roteiristas. Um exemplo disso é a própria franquia Alien. Quando o diretor Ridley Scott tentou inovar com “Prometheus”, o filme alcançou apenas uma média de 403,4 milhões de dólares, com um orçamento de 130 milhões, o que é considerado pouco para a indústria, dada a proporção do investimento.

A recepção do público também foi divisiva, embora boa parte da crítica considere o filme um grande salto de frescor e originalidade na franquia. Eu me incluo entre aqueles que acham que o filme é mal compreendido. Além da direção espetacular de Ridley Scott, “Prometheus” tem um roteiro muito bem construído por Damon Lindelof, o produtor executivo de “Lost”, criador de “The Leftovers” e da minissérie “Watchmen”.

O diretor Fede Alvarez (do ótimo “O Homem nas Trevas”) entende essa necessidade do público pelo básico e faz disso uma escolha esperta, apostando no seguro, sem sair da zona de conforto, praticamente replicando todos os acertos dos dois primeiros filmes da franquia, além de pegar elementos de “Prometheus”. É um problema fazer isso? Definitivamente não. Tanto que as pessoas estavam realmente querendo o básico que a franquia já ofereceu, e Alvarez faz isso com uma direção astuta e muito vibrante. Dá para perceber o quanto ele admira os filmes e buscou entregar o melhor. Isso fica nítido nos belíssimos enquadramentos, na fotografia que compõe muito bem a sua direção, além da trilha sonora enervante.

Mas, para quem acabou de maratonar a franquia e tem tudo muito fresco na memória, o roteiro soa preguiçoso ao criar uma narrativa muito similar ao filme original, apenas fazendo pequenas mudanças para transmitir ao espectador uma sensação de novidade. No entanto, essa sensação soa vazia quando você reflete que está assistindo a uma réplica dos primeiros filmes sob um novo olhar. É isso que levanta meu questionamento sobre sequências geralmente consideradas desnecessárias. Será que, se o título deste novo filme carregasse um número após “Alien”, as pessoas teriam questionado: “Precisamos de mais um filme da franquia Alien?”?

E quando o filme vem com esse ar de novidade, carregando um subtítulo diferenciado, será que ele é vendido com mais facilmente? Ou será que o questionamento sobre continuidades, remakes e reboots só é válido quando o resultado sai abaixo do esperado? Eu, particularmente, sempre vou questionar uma sequência que busca se aproveitar do que deu certo sem trazer nenhuma novidade. Acho que filmes bem dirigidos, mas com roteiros reciclados, são meramente um artifício ilusório para se tornarem produtos de fácil aceitação.

Ainda que eu tenha focado nesta crítica a sobre sequência que se aproveitam dos acertos dos filmes mais marcantes, é inevitável admitir que “Alien: Romulus” me conquistou até mais do que o segundo filme da franquia, que, embora muitos gostem, não é um dos meus favoritos.

A franquia “Alien” sofre de um desgaste evidente, mostrando que eles realmente não conseguem se reinventar. Talvez, como em um terror slasher que sempre se apoia na figura do assassino e dos jovens em perigo, esse novo filme nos faça perceber que é exatamente isso que o público da franquia busca: um terror slasher com um alienígena, em vez das propostas filosóficas que Ridley Scott tentou empregar em sua própria franquia com “Prometheus” e “Alien: Covenant”.

Embora eu tenha ficado um pouco decepcionado com a falta de originalidade do roteiro, a tensão é muito bem trabalhada, pois o diretor Fede Alvarez sabe como conduzir os ambientes e o som de maneira excepcional. Ele demonstrou essa habilidade com maestria em “O Homem das Trevas”, onde subverteu os clichês do terror home invasion, por isso eu tenha esperado algo mais inovador em “Alien: Romulus”. No entanto, mesmo trabalhando dentro dos limites convencionais, Alvarez conseguiu criar uma atmosfera imersiva e bastante eficaz ao explorar os ambientes e o som.

Apesar disso, o elenco de novatos parece estar aquém da tensão construída por Alvarez. Em momentos de maior dramaticidade, fica a sensação de que eles poderiam ter entregue mais. Uma franquia que já contou com nomes como Sigourney Weaver, Michael Fassbender, Charlize Theron e Noomi Rapace merecia um pouco mais de cuidado na escolha do elenco.

“Alien: Romulus” oferece uma experiência audiovisual impressionante, mas se você espera mais do que jovens em perigo lutando pela sobrevivência, saiba que este não é o filme que você procura.

Confira o trailer:

🍿 Filme: Alien: Romulus
📺 Onde assistir: Cinema
Nota: ✱ ✱ ✱ – (7.0/10) Bom
Direção: Fede Alvarez
2024 ‧ Terror/Ficção científica ‧ 1h 59m

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