
Preciso dizer o quanto adoro musicais, e não apenas as adaptações para o cinema como “Cantando na Chuva”, “All That Jazz”, “Amor, Sublime Amor”, “Chicago”, “O Fantasma da Ópera” e “Os Miseráveis”, mas também as produções originais da Broadway. Tive a oportunidade de assistir a “Chicago” e “O Rei Leão”, além de “Aida” em um espetáculo do Metropolitan em Nova York, entre muitos outros. Por isso, não tive nenhuma restrição quanto à escolha de fazer a sequência de “Coringa” como um musical. Tinha tudo pra me agradar.
A continuação se passa após os acontecimentos do filme de 2019, quando é iniciado um movimento popular contra a elite de Gotham City. Preso no hospital psiquiátrico de Arkham, Arthur (Joaquin Phoenix) conhece Harleen ‘Lee’ Quinzel (Lady Gaga). Juntos, Lee e Arthur embarcam em uma desventura alucinada e musical pelo submundo de Gotham City, enquanto o julgamento público do Coringa se desenrola.
Como “Coringa: Delírio à Dois” é oficialmente um musical, e com base na minha visão sobre o gênero, considerarei as performances que incluem dança, música e a própria montagem na análise. Não é possível levar em conta apenas os aspectos visuais, que continuam impressionantes, ou a trilha sonora instrumental de Hildur Guðnadóttir, que segue enervante. Neste filme, as vozes de Joaquin Phoenix e Lady Gaga, assim como as músicas que eles interpretam, são essenciais para o resultado final.
Os primeiros minutos do filme, antes de introduzir a parte musical, trazem o clima sério do thriller que vimos no primeiro filme, seguindo os eventos anteriores. A introdução de Lady Gaga em uma cena simples de conversa com o personagem de Joaquin Phoenix é simples, mas eficaz, estabelecendo uma prévia do que esperar dessa nova dupla que não conhecíamos no primeiro filme.
No entanto, quando surge o primeiro número musical solo de Arthur Fleck, fica evidente que o diretor Todd Phillips não tem habilidade para dirigir cenas musicais. A voz de Joaquin Phoenix, combinada com uma performance desajustada, sem tom ou ritmo, agrava o problema.
Após a decepção com a atuação de Joaquin Phoenix em “Napoleão”, não imaginei que me decepcionaria com o ator tão cedo. Neste longa, ele não traz a mesma intensidade do primeiro filme. Parece que o astro acredita já ter atingido o auge de sua interpretação do personagem e acaba atuando de forma automática em boa parte do longa. Talvez o diretor tenha pensado que Phoenix encontrou o tom certo e, por isso, não exigiu mais dele, como fez no filme anterior. Ainda assim, é uma boa atuação, mas distante do que ele entregou no original.
Grande parte da trama deste segundo filme ocorre durante um julgamento, intercalado com os devaneios de Arthur em números musicais. A sequência do tribunal não apresenta nada de inovador em comparação com outros filmes do gênero, nem provoca confrontos emocionantes que ofereçam uma nova visão sobre os crimes de Arthur. A ideia de explorar a possibilidade de seus crimes terem sido cometidos por uma outra persona é tratada de maneira superficial e repetitiva.
Quando Arthur e a Lee realizam um número musical juntos no palco, a cena soa quase como uma paródia do primeiro filme, de tão frágil e embaraçosa. Numa tentativa falha, parece um stand-up ruim onde os dois não possuem química. Nem Phoenix, nem Gaga conseguem entregar performances dignas de seus talentos. A falta de inspiração na direção é evidente.
A cena em que Lady Gaga canta “Just Like Me” funciona melhor, principalmente pelo refrão que fica na cabeça. Embora não haja uma performance marcante, Gaga consegue extrair o melhor de si nesse momento, tornando a música mais memorável que a maioria das outras, que são facilmente esquecíveis.
Outro número musical, em que o Coringa se apresenta no tribunal, revela um lado mais agressivo do personagem e é uma das performances mais impactantes. No entanto, logo após o término do número, o filme retorna a um ponto de partida, sem grandes consequências, já que tudo o que acontece nesses números não passa de delírios. A linha entre fantasia e realidade se torna desajustada e sem uma conexão envolvente.
Joaquin Phoenix até falha no sapateado, o que nos faz lamentar que Gene Kelly já não esteja entre nós. Algumas aulas com o mestre dos musicais poderiam ter ajudado a melhorar o número de sapateado do ator.
O clímax da trama, que ocorre em uma prisão e não envolve música, traz de volta a tensão que conhecemos no primeiro filme. Mas, assim que a cena termina, o filme retorna ao julgamento tedioso, mostrando que se preocupa mais em ser um filme de tribunal genérico do que em explorar o caos que o filme anterior dominou com maestria.
“Coringa: Delírio a Dois” é tecnicamente deslumbrante, com uma cinematografia que enche os olhos, mas o roteiro não traz nada de inovador para a jornada de Arthur Fleck.
O enredo parece girar em círculos, tentando minimizar a loucura do personagem e suavizar seus crimes em busca de uma redenção narrativa, evitando mostrá-lo em momentos de fúria como no primeiro longa. É como se o diretor estivesse pedindo desculpas pelas polêmicas que surgiram em torno da violência, tentando agradar à minoria que reclamou do óbvio.
Além disso, Todd Phillips parece indeciso sobre seguir o caminho de um thriller ou de um musical, oscilando entre os gêneros de forma pouco natural. Os personagens mais sussurram do que cantam, como se o diretor tivesse receio de assumir completamente o formato de um musical. A cena final parece um desfecho apressado, revelando o cansaço do diretor, como se ele nem quisesse realmente ter feito este segundo filme.
Confira o trailer:
🍿 Filme: Coringa: Loucura à Dois
📺 Onde assistir: Cinema
Nota: ✱ ✱ (5.0/10) – Mediano
Criado por: Todd Phillips
2024 ‧ Musical/Thriller ‧ 2h 19m
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