
“Femme” marca a estreia de Sam H. Freeman (roteirista da série “Industry”) da HBO) e Ng Choon Ping na direção e já os posiciona como promissores talentos no cinema. O filme é um daqueles casos raros em que cineastas novatos surpreendem logo no primeiro trabalho, entregando uma obra direta e, ao mesmo tempo, complexa, bonita e profundamente comovente. Trata-se de uma história sobre pessoas quebradas: uma, em conflito com sua sexualidade; outra, resolvida, mas consumida por uma tragédia que lhe roubou o brilho e a transformou em alguém movido pela vingança.
Sempre falamos sobre as drag queens, mas raramente refletimos sobre os drag kings, que, para quem não sabe, são artistas performáticos que se vestem de forma caricata como homens, personificando estereótipos de masculinidade. Este longa explora ambos os lados dessa dinâmica: embora os personagens masculinos não se vistam como artistas, eles ainda assim adotam uma ‘armadura’ para transpor uma masculinidade que, no fundo, não existe. Como os próprios diretores mencionam em uma entrevista: “Todos nós nascemos nus, e o resto é drag”, uma frase de RuPaul que serve como base inspiracional para este longa.
O filme é um thriller de vingança queer neo-noir, e os diretores, que eram amigos de faculdade, revelaram que a ideia surgiu após assistirem ao filme “Bom Comportamento” (2017), dos cineastas Ben e Josh Safdie. Eles ficaram tão impactados que decidiram criar algo semelhante dentro do universo queer, uma vez que, geralmente, esse gênero de filme não explora esse lado da história.
Antes de se torna um longa-metragem, a ideia começou como um curta-metragem em 2021, que guarda diversas semelhanças com a versão longa, mas com algumas mudanças que tornam as duas experiências igualmente interessantes. O curta foi vencedor do Bifa de Melhor curta-metragem, e indicado ao Bafta na mesma categoria.
Preciso destacar o acerto de não manter Harris Dickinson do curta para o longa, optando pelo ator George MacKay. Sua atuação é muito mais visceral e convincente. Se eu tivesse que recomendar qual versão assistir primeiro, com certeza escolheria o longa-metragem.
O longa adota uma abordagem humanizada, porém realista, enquanto o curta-metragem segue por um caminho mais sombrio. Há uma complexidade que o longa explora, a qual o curta-metragem não consegue alcançar devido à sua limitação de tempo. Mas hoje vamos falar somente do longa-metragem.
A trama segue Jules (Nathan Stewart-Jarrett), uma drag queen cuja vida é devastada após sofrer um ataque homofóbico perpetrado por Preston (George McKay), um gay enrustido. Quando Jules reencontra o agressor em uma sauna gay, decide se aproximar dele, iniciando um relacionamento como parte de um plano de vingança.
O diferencial de “Femme” está no fato de o filme evitar o simplismo das narrativas convencionais de vingança ou a dicotomia entre vilão e vítima. Em vez disso, oferece um retrato profundo e humano de personagens imperfeitos.
Logo no início, vemos Preston cometer um ato de violência brutal e injustificável contra Jules, que estava caracterizada como drag queen. Porém, à medida que a história avança, somos apresentados a uma faceta diferente dele. Por trás da máscara de um agressor homofóbico, emerge um homem preso em uma vida que claramente não lhe pertence.
É importante ressaltar que o roteiro não tenta justificar as ações da personagem. Na maior parte do filme, tentamos entender por que Jules ainda não colocou em prática seu plano de vingança, mas, ao mesmo tempo, percebemos que ela está tentando se inserir nesse mundo e encontrar a melhor maneira de se vingar, sem se ferir novamente.
Preston continua a ostentar uma imagem forçada de virilidade, mantendo relações sexuais com Jules sem notar que ela é a mesma pessoa que atacou anteriormente. Seu comportamento é duplamente condenável: ele se apresenta como um narcisista egocêntrico, obcecado por exibir sucesso e masculinidade, mas revela, nos bastidores, um conflito interno complexo. É um personagem que existe na vida real, mas que dificilmente pode ser compreendido de forma superficial, exigindo um olhar mais atento — ou até psicológico. Essa camada de complexidade torna a experiência do filme fascinante.
Por outro lado, temos Jules, igualmente complexa. Movida por um desejo ardente de vingança, ela carrega consigo a dor e a vergonha da humilhação que sofreu. É evidente o impacto do trauma, refletido em sua decisão de abandonar os shows, como se a vida como drag queen tivesse perdido o sentido. Contudo, conforme a história avança, a relação entre Jules e Preston se torna cada vez mais ambígua, e começamos a questionar se ela ainda pretende levar adiante seu plano de vingança. Essa ambivalência confere à trama uma tensão irresistível, tornando a relação entre os dois personagens ardente, conflitante e cheia de mistério.
Como se uma trama extremamente envolvente não fosse suficiente, as atuações de George MacKay (de “1917” e “O Segredo de Marrowbone”) e Nathan Stewart-Jarrett (de “A Lenda de Candyman”) elevam ainda mais o filme. MacKay se destaca como um verdadeiro camaleão: cada papel que interpreta é único, distinto dos anteriores, e aqui ele transmite uma complexidade impressionante, nos conduzindo a questionar constantemente as motivações e ideias de seu personagem. Já Stewart-Jarrett entrega uma atuação que transita com maestria entre a doçura, a malícia e o desejo de justiça. Essa oscilação é tão convincente que nunca temos certeza sobre o que ele realmente fará com todo o peso de suas emoções e intenções. Sua performance é cativante, sustentando a tensão e o mistério que permeiam a narrativa.
“Femme” é uma experiência profundamente realista e catártica, que retrata com honestidade a realidade do mundo gay. O filme nos lembra de algo crucial: nem todos tem o privilégio de viver sua verdadeira identidade. Muitos ainda enfrentam ambientes hostis, onde a aceitação não é uma realidade, e estão presos a círculos sociais ou estruturas que insistem em impor padrões tradicionais considerados “normais”. A obra reflete essa luta, destacando as barreiras que ainda existem para quem busca ser autêntico em um mundo que, muitas vezes, resiste à evolução.
Como se tudo isso não fosse o suficiente, os diretores ainda se esquivam de criar um filme simplista ou moralista. Embora possa incomodar parte do público gay por não transformar a história em uma simples trama de vingança, é justamente a complexidade dessa humanidade que torna a experiência tão provocante e marcante.
Confira o trailer:
🍿 Filme: Femme
📺 Onde assistir: Eppi Cinema
Nota: ✱ ✱ ✱ ✱ ✱ (10/10) – Excelente
Direção: Sam H. Freeman, Ng Choon Ping
2023 ‧ Thriller/Drama ‧ 1h 39m
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