“Jurado Nº 2” é mais um filme que expõe as injustiças da sociedade

Que orgulho saber que um diretor como Clint Eastwood, aos 94 anos, ainda nos presenteia com filmes tão envolventes como “Jurado Nº 2”, especialmente em um ano em que um diretor como Francis Ford Coppola entregou um trabalho tão questionável quanto “Megalópolis”.

Esse comparativo acaba por valorizar ainda mais o sucesso duradouro de Clint, especialmente quando lembramos o quanto “Megalópolis” demorou para sair do papel, em contraste com a rapidez com que os filmes de Eastwood costumam ser feitos. Isso reforça ainda mais o ponto que eu destaquei na análise do mais recente filme de Coppola: às vezes, o simples, bem executado, é muito mais eficaz do que um projeto ambicioso, mas mal elaborado, que acaba se transformando em uma colcha de retalhos. Mas, enfim, “Jurado Nº 2” é tão bom que eu prefiro focar no que realmente importa, em vez de falar de um filme que me frustrou tanto este ano.

Na trama, Justin (Nicholas Hoult), um pai de família, é convocado para ser jurado em um caso de assassinato. Ele declara não saber nada sobre o ocorrido, pois essa é uma exigência para aqueles que participam do processo do júri. No entanto, quando o julgamento começa, ele logo percebe que não apenas sabe o que aconteceu, como também pode ter sido responsável por algo que pode condenar a vida de um homem acusado para sempre.

A premissa, por si só, é extremamente envolvente, mas se não estivesse nas mãos de um diretor excepcional como Clint Eastwood, não teria a mesma magnitude que este thriller de tribunal consegue alcançar. Isso se deve à fluidez da direção de Eastwood, que sabe exatamente como conduzir seus atores e moldar os momentos, de forma que tudo parece sempre estar no lugar e na hora certa, como se estivéssemos acompanhando um fragmento da vida real.

A atuação de Nicholas Hoult, que sempre considerei um excelente ator, mas injustiçado em Hollywood, se revela ainda mais impressionante sob a direção de Eastwood. O cineasta consegue extrair o melhor de Hoult, levando-o a entregar uma performance que se tornou a minha favorita de sua carreira. É palpável o medo e a culpa que corroem o personagem a cada momento, mesmo quando ele não precisa dizer uma palavra. A segurança do ator em transmitir as sutilezas dessa interpretação, que provavelmente exigiu um grande esforço emocional, é notável. Também gosto muito de como Eastwood, atento à força dessa atuação, foca constantemente no rosto do protagonista, utilizando a câmera para evidenciar o peso de suas emoções durante o júri. Isso cria um senso de imprevisibilidade, tornando o drama um thriller profundamente envolvente.

Além da excelente atuação de Hoult, Toni Collette também se destaca com uma performance segura e expressiva. Em uma das últimas cenas, é possível sentir claramente todas as emoções que atravessam sua personagem. Novamente, isso é mérito não apenas da atriz, mas de como o diretor consegue extrair o máximo de seus atores, mesmo quando já são extremamente talentosos.

A única decepção fica por conta do ator J.K. Simmons, que, embora seja brilhante, acaba sendo subaproveitado no filme.

No entanto, não são apenas a direção e as atuações que fazem de “Jurado Nº 2” uma obra marcante. O roteiro nos espanca com uma dura realidade sobre a justiça, confrontando-nos com a verdade mais crua e dolorosa quando se trata de casos em que a vida de uma pessoa pode ser irrevogavelmente decidida. É fascinante como Clint Eastwood nos coloca na pele do protagonista, questionando-nos junto a ele: o que faríamos diante do dilema de salvar nossa própria pele ou fazer justiça, mesmo que isso custe nossa própria vida?

Através desse questionamento ético, fui levado a refletir sobre como, enquanto seres humanos, tendemos a julgar com uma certeza absoluta, mesmo sem ter as provas em nossas mãos. Escolhemos, com frequência, quem acreditamos ser digno de punição, independentemente de termos a verdade em nosso poder, baseando-nos apenas em nossas concepções egoístas e crenças infundadas.

O aspecto mais chocante dessa reflexão, porém, é perceber que o sistema de justiça está ciente de como operamos, e, ainda assim, continua confiando nos nossos erros como jurados, mesmo quando isso pode custar a vida de outra pessoa. E isso não é uma mera teoria da minha cabeça; ‘basta olhar para o número de homens que foram enviados ao corredor da morte devido a erros e falhas no sistema. Por isso, acredito que o novo longa de Clint Eastwood seja mais um trabalho memorável que busca, mais uma vez, abrir nossos olhos para uma questão ainda não resolvida e que continua a selar a vida de muitas pessoas.

Confira o trailer:

Confira a análise em video:

🍿 Filme: Jurado Nº2 (Juror 2)

📺 Onde assistir: Prime Video (aluguel) e Max (dia 20 no catálogo)
Nota: ✱ ✱ ✱ ✱ ✱ – (10/10) Excelente 

Direção: Clint Eastwood

2024 ‧ Thriller/Drama ‧ 1h 54m

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