
Todos nós podemos imaginar como é difícil ser mãe, e para nos colocarmos nessa posição, nem precisamos ser mulheres necessariamente. Basta imaginar a responsabilidade de criar um ser vivo desde o seu primeiro dia de vida e acompanhar seu crescimento, o que será fundamental para oferecer o suporte necessário a uma educação que, por sua vez, será crucial para o adulto que ele ou ela se tornará.
A história acompanha uma artista que deixa a carreira de lado para cuidar de seu filho por tempo integral. Vivendo em uma casa suburbana enquanto seu marido está sempre ocupado jogando video game ou em viagens de negócios, o estresse da nova rotina começa a afetar sua sanidade e ela passa a acreditar que está se transformando em um cachorro.
A premissa por si só é insana, e o que o filme propõe através dessa metáfora absurda poderia sair muito errado, mas não é o que acontece sob a direção da cineasta Marielle Heller, que também foi responsável pelo drama intimista “Um Lindo Dia na Vizinhança”, e quem viu esse outro filme baseado na história real de um apresentador de televisão, sabe o quanto a diretora tem uma sensibilidade para tratar de temáticas sobre as relações humanas.
Pois é isso que acontece em todo primeiro ato de “Nightbitch” (ou “Canina” no título em português), a estranheza dessa proposta diferenciada intercala com momentos de humor ácido, misturado ao um drama intimista sobre uma mãe que em momentos se sente cansada da rotina de cuidar de seu filho, ao mesmo tempo que percebe o quanto o ama, e se vê confrontada entre aceitar sua nova condição materna, ou surtar e largar tudo.
A maneira como a atriz Amy Adams conduz esse papel, é brilhante, não atoa a atriz recebeu uma indicação ao Globo de Ouro por sua performance em “Nightbitch”. Esse papel definitivamente mostra o quanto a atriz é capaz de encarar pápeis desafiadores, os momentos em que ela começa agir literalmente como uma cachorra são hilários, e ao mesmo tempo constrangedores. Tem uma cena em específico que ela brinca com seu filho enquanto estão comendo, que ela literalmente solta seu lado bestial, e todos ao redor começam julga-la, é um dos momentos mais insanos e divertidos desse longa inusitado.
O ator Scoot McNairy também desempenha muito bem o papel de pai passivo que irrita a mãe, ele sempre está muito desligado e apático a tudo o que está acontecendo, e isso faz com que a gente sinta o desespero da personagem de Amy Adams ao ter que lidar com aquela situação sozinha. Embora, o roteiro também deixe claro que a escolha dela em deixar a carreira, era algo somente dela, já que algumas outras mulheres deixam claro que contratam babas para poder continuar dando seguimento em seus projetos pessoais e profissionais.
O ator mirim Emmett James Snowden, também é uma graça, embora ele sempre esteja interpretando uma criança bastante atentada, que nos faz ter completa empatia pela mãe, ao nos colocarmos no lugar dela, e imaginar o quanto desafiador deve ser dar atenção ao uma criança que parece exigir tanto dela durante o dia todo.
Toda a forma que o roteiro lida com essas consequências de ser mãe, torna a metafóra dela se tornar uma cachorra completamente relevante, ao entendermos o quanto ela começa se sentir como uma cadela parideira que precisa cuidar da sua cria, dessa forma literal mesmo.
Mas o que começa como algo provocativo, e bastante interessante por fugir das narrativas comuns sobre maternidade, acaba sendo deixado de lado no ato final, o que torna a experiência fragmentada em duas partes distintas, é como se acompanhássemos um filme como “A Substância” no começo, e depois um drama convencional sobre o envelhecimento. Só que aqui, a temática obviamente é outra, então eu me senti vendo um filme inovador sobre maternidade durante o começo e o meio, e na reta final é como se eu estivesse vendo qualquer outro drama genérico sobre a mesma temática.
Embora essa mudança de tom não prejudique a narrativa, e sua mensagem final, fica evidente que a premissa ousada acaba sendo disperdiçada por uma falta da coragem da diretora em expandir essa metáfora. E o que me causa estranhamento, é que essa coragem foi muito bem utilizada nos dois primeiros atos, e depois literalmente descartada na reta final, talvez na tentativa de agradar parte do público geral, visto a rejeição que filmes como
“A Substância” tiveram por exemplo. Só que ai, ao meu ver, é pior ainda, porque você não agrada nem um público mais ousado, e muito menos o conservador, já que você tentou ficar no meio termo para agradar os dois, e isso se reflete muito nas avaliações gerais da crítica especializada e do público, tanto que o longa que tinha mais força para concorrer em mais premiações, acabou sendo escanteado para uma estreia direta no serviço de streaming.
Apesar desses altos e baixos, o saldo final de “Nightbitch” foi positivo para mim. Considero este um dos melhores trabalhos de Amy Adams. O filme consegue ser eficaz ao discutir as relações maternas e a dificuldade das mães em escolher suas prioridades após a gravidez. Ser mãe em tempo integral, ainda que seja exaustivo, ou encontrar um equilíbrio entre a maternidade, a vida pessoal e a profissão, é um dilema difícil, mas necessário de ser discutido. “Nightbitch” abre uma porta para essa reflexão, e isso, definitivamente, é um ponto positivo.
Confira o trailer abaixo:
🍿 Filme: Nightbitch (Canina)
📺 Onde assistir: Disney+ (estreia dia 24 de Janeiro)
Nota: ✱ ✱ ✱ – (7.0/10) Muito bom
Direção: Marielle Heller
2024 ‧ Drama/Comédia ‧ 1h 39m
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