
O prazer de assistir a um filme de Robert Eggers no cinema é incomparável, e tive a sorte de vivenciar essa experiência três vezes. Infelizmente, “O Farol” foi o único filme do cineasta americano que vi em casa, mas isso de forma alguma diminuiu o impacto de sua obra. Mesmo em uma tela menor, o filme estrelado por Robert Pattinson e William Defoe conseguiu me transportar completamente para aquele ambiente claustrofóbico e, ao mesmo tempo, exuberante, que faz uma homenagem ao expressionismo alemão. Com “A Bruxa“, “O Homem do Norte“ e agora “Nosferatu”, eu tive o privilégio de ver todos esses filmes na tela grande. Reforço o prazer de acompanhar essas produções dessa forma, pois a obsessão de Eggers pelos mínimos detalhes exige que se aprecie sua visão com a maior resolução possível.
Desta vez, o diretor adapta seu primeiro remake oficial: “Nosferatu” (1922). Para quem não sabe, trata-se de uma adaptação cinematográfica não autorizada de “Drácula de Bram Stoker” — obra que, mais tarde, também foi brilhantemente adaptada por Francis Ford Coppola. Embora Drácula tenha inspirado várias versões cinematográficas, como a de 1931.
“Nosferatu” é, antes de tudo, um conto gótico sobre a obsessão de um terrível vampiro por uma mulher assombrada. A história se passa no século XIX, na Alemanha, e segue o rico e misterioso Conde Orlok (Bill Skarsgård) em sua busca por um novo lar. O vendedor de imóveis Thomas Hutter (Nicholas Hoult) é designado para conduzir os negócios de Orlok e viaja até as montanhas da Transilvânia para tratar da compra de uma propriedade. O que Thomas não esperava era encontrar o mal em sua forma mais pura. Todos ao seu redor o alertam para abandonar a viagem, enquanto, distante dali, Ellen (Lily-Rose Depp) é constantemente atormentada por pesadelos assustadores que parecem se conectar com o homem que Thomas encontrará — o misterioso Orlok, que vive isolado em um castelo em ruínas nos Cárpatos.
Tanto “Drácula“ de Bram Stoker, quanto “Nosferatu“, enquanto obra narrativa, fazem de maneira brilhante a exploração de uma temática sexual monstruosa, que pode ser analisada sob a ótica da teoria psicanalítica de Sigmund Freud sobre a sexualidade. Em “Nosferatu”, a sexualidade feminina é um tema central, mesmo que de forma simbólica, e está presente através de uma criatura que domina a tela como protagonista, sendo o desejo proibido da mulher. Contudo, nesta refilmagem de Robert Eggers, a atriz Lily-Rose Depp tem ainda mais destaque do que sua personagem no clássico de 1922. Isso se deve à maior liberdade da nova adaptação para explorar as questões sexuais, seja pela narrativa, seja pelas imagens visualmente carregadas de conotações eróticas.
A personagem Ellen Hutter representa o arquétipo da mulher casada e pura, mas sua relação com o Conde Orlok funciona como uma metáfora direta para os desejos reprimidos de uma mulher. Orlok, por sua vez, é uma manifestação do desejo dela, embora sua figura também personifique o terror em carne e osso. Ele encarna o desejo sexual não controlado, que desafia as repressões sociais e morais impostas às mulheres da época.
A narrativa continua surpreendentemente atual, o trabalho de recriação histórica é fascinante. Como em suas outras produções, Eggers não erra em nenhum detalhe, permitindo que a obra seja adaptada de forma impecável. O cineasta faz uma belíssima homenagem ao clássico de 1922, com cenários impressionantes e ricos em detalhes, que nos fazem acreditar, de fato, que voltamos no tempo.
A direção de fotografia ficou a cargo do norte-americano Jarin Blaschke, que já havia trabalhado com Eggers em seus outros filmes. O cuidado na iluminação, pensada para realçar as sombras e os detalhes da direção de arte, é fascinante de se admirar.
O elenco, embora reúna nomes de peso, apresenta um desequilíbrio nas performances em relação a outros trabalhos de Eggers. Enquanto Nicholas Hoult (“Jurado Nº2”) e Bill Skarsgård (“I.T. – A Coisa”) estão ótimos em seus papéis, e até mesmo a atriz Lily-Rose Depp (“The Idol”) se destaca, sendo uma das grandes atuações do longa. Astros como Willem Dafoe parecem mais apagados, e, especialmente, Aaron Taylor-Johnson (“Kraven, o Caçador”) entrega, em minha opinião, a performance mais fraca da produção. Focando nos acertos, é impressionante como Nicholas Hoult consegue transmitir seu medo através dos olhares. Eu já havia elogiado a atuação do ator por sua capacidade de comunicar emoções sem precisar de muitos diálogos, como foi visto também em “Jurado Nº2“, de Clint Eastwood.
A entrega de Bill Skarsgård também é impressionante. Ele desaparece na cena, especialmente pela caracterização como o Conde Orlok, mas sua atuação corporal demonstra a habilidade do ator de provocar a estranheza necessária para o papel. Algumas escolhas criativas, porém, me incomodaram, como o uso do bigode e o sotaque extremamente carregado, que às vezes parecem mais irritantes do que assustadores. Sua caracterização traz um visual mais realista, mas, por vezes, o diretor a negligencia ao escondê-la nas sombras, criando um mistério sobre a criatura — algo que o clássico de 1922 fazia de forma mais explícita ao valorizar a figura do Conde Orlok.
Por fim, a atriz Lily-Rose Depp faz uma atuação histriônica, mas, em minha visão, bastante coerente com o que sua personagem está vivenciando, tornando todo o drama excessivo de sua personagem efetivo. Ela consegue expor suas tensões de forma poderosa em cena.
A trilha sonora, composta por Robin Carolan, é outro acerto notável da produção. As notas musicais nos transportam para aquele ambiente amendrotador, seja por meio de canções carregadas de mistério, como em “The Professor”, ou pelas que reforçam uma tensão latente, como em “A Carriage Awaits” e “Increase thy Thunders”. São tantas canções que colaboram para criar o clima sombrio que poderia mencionar várias delas. Robin Carolan disse que sabia que a trilha sonora precisava ser ao mesmo tempo bombástica e melancólica, e que deveria remeter aos clássicos da década de 20 e 40, ao contrário da abordagem inovadora que ele adotou em sua trilha para “O Homem do Norte“.
Assim como houve esse cuidado em criar uma trilha sonora clássica, é perceptível que, mesmo com as mudanças no visual do Conde Orlok, a narrativa busca manter a essência dos acontecimentos do filme original. Apesar de a questão da possessão e outros elementos serem agora trabalhados de forma mais visceral, eu acho o filme menos eficaz da filmografia de Robert Eggers, filmes como “O Farol“ e “A Bruxa“ foram mais impactantes, pois as duaas obras transcenderam as imagens e ofereceram histórias envolventes com orçamentos mais modestos. Até mesmo o divisivo “O Homem do Norte“ me fez sentir uma conexão mais profunda com seus personagens e narrativa.
Ainda assim, “Nosferatu“ é repleto de momentos viscerais e potentes, com uma escala ainda maior que a dos outros filmes de Eggers. Atuações poderosas e a impressionante técnica do diretor são notáveis, especialmente pela atenção ao visual e aos detalhes, que são percebidos em cada cena. Agora, se você vai se envolver com o filme, isso depende do gosto de cada um. Muitos estão considerando a nova adaptação de Eggers uma verdadeira obra-prima, mas não é o meu caso, embora eu o considere um dos melhores filmes lançados em 2024.
Confira o trailer abaixo:
🍿 Filme: Nosferatu
📺 Onde assistir: Cinema
Nota: ✱ ✱ ✱ ✱ – (8.0/10) Ótimo
Direção: Robert Eggers
2024 ‧ Terror/Drama ‧ 2h 12m
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