
Na década de 1990, filmes como “Proposta Indecente”, “Nove e Meia Semanas de Amor” e “Instinto Selvagem” dominaram as bilheterias. Os thrillers eróticos faziam grande sucesso em Hollywood, geralmente centrados em homens mais velhos envolvidos em relações extraconjugais com amantes ou mulheres mais jovens. Esse cenário, porém, tem mudado nos últimos anos, especialmente com a geração Z expressando uma aversão crescente a filmes que mexploram sexo ou nudez de forma explícita.
É quase simbólico que, neste contexto, a diretora Halina Reijn (de “Morte, Morte, Morte”) tenha lançado um filme que reflete essa mudança geracional. Reijn demonstra compreender profundamente a mentalidade da geração Z, algo evidente tanto em seu trabalho anterior quanto neste novo longa, que traz como protagonistas personagens dessa faixa etária.
O grande atrativo do filme está justamente em sua ousadia, ao não se limitar aos moldes conservadores que têm dominado Hollywood nos últimos tempos. Em uma época em que parte significativa do público parece rejeitar obras minimamente provocadoras, este thriller se destaca. Apesar de abordar sexo como tema central, o filme evita cenas explícitas, tratando o assunto de forma contida, mas instigante.
Na trama, Romy (Nicole Kidman) é uma executiva que alcançou o posto de CEO graças a anos de dedicação e esforço. Porém, tudo o que ela construiu é colocado em risco quando se envolve em um caso tórrido e proibido com seu estagiário Samuel (Harris Dickinson), um homem muito mais jovem. A partir daí, Romy se equilibra precariamente entre suas responsabilidades profissionais e as dinâmicas de poder e desejo que permeiam essa relação.
O longa lembra uma fusão entre o thriller erótico “Jogo Justo”, da Netflix, e “50 Tons de Cinza”, abordando temas como o ambiente de trabalho, o romance proibido e os jogos de poder que envolvem desejos obscuros e limites morais.
A forma como Halina Reijn aborda esses elementos diferencia o filme dos thrillers eróticos dos anos 1990, majoritariamente dirigidos por homens. Ainda assim, há semelhanças com obras como “Jogo Justo”, que já traziam um olhar feminino. Isso se reflete especialmente na escolha de tratar o sexo de maneira sugestiva, evitando mostrá-lo de forma gráfica. O foco recai sobre os jogos de poder e a complexidade emocional dos personagens.
Vale destacar que “Babygirl” não é um filme pensado para agradar as massas. Seu teor provocador e as decisões moralmente questionáveis dos personagens certamente incomodarão espectadores mais conservadores. A obra desafia ao abordar o lado mais sombrio dos desejos humanos, expondo as contradições e vulnerabilidades de seus protagonistas.
Um ponto curioso é que a própria Halina Reijn comparou “Babygirl” com o clássico “De Olhos Bem Fechados”, de Stanley Kubrick. Assim como o longa de 1999, este explora temas como desejo, limites, casamento e poder, mas sob o ponto de vista feminino.
“No filme de Kubrick, acompanhamos o personagem de Tom Cruise o tempo todo. Mas nunca sabemos o que Alice está passando. E se ela realmente tivesse vivido sua fantasia? “Babygirl” é minha resposta!”, brinca a diretora ao comentar sua inspiração. “Todas nós, mulheres, estamos famintas por histórias que reflitam o que sentimos e desejamos”, conclui Reijn.
Além de uma narrativa envolvente, as atuações se destacam por sua intensidade e profundidade. Harris Dickinson entrega um personagem propositalmente insuportável, manipulador e imaturo, cujas ações provocam desconforto no espectador. Já Nicole Kidman interpreta uma mulher emocionalmente desconectada, fruto de anos reprimindo seus desejos mais sombrios. Essa repressão se traduz em um descontrole emocional latente, que a impede de separar sua vida profissional de seus impulsos pessoais, mesmo quando isso ameaça destruir sua carreira e família.
O personagem de Antonio Banderas, embora tenha menos tempo em cena, entrega uma performance marcante. Ele transita com maestria entre a serenidade de um homem bondoso e calmo e os momentos de explosão emocional, revelando um marido profundamente indignado, cujos sentimentos intensos vêm à tona de forma impactante.
“Babygirl” se destaca ao explorar, de forma impactante e sensível, temas como desejos reprimidos, dinâmicas de poder no ambiente de trabalho e a complexidade das relações humanas. A narrativa, marcada por momentos desconfortáveis e tensos, também reserva espaço para sequências memoráveis, enriquecidas por uma trilha sonora poderosa. Canções como “Never Tear Us Apart”, do INXS, e “Dancing On My Own”, de Robyn, criam uma atmosfera emocional e evocativa. Já a inclusão da icônica “Father Figure”, de George Michael, em uma cena cheia de sedução, encapsula a tensão erótica do filme com perfeição.
Ao mesmo tempo que desafia o espectador, o longa equilibra ousadia e sensibilidade, conduzindo-nos por um mergulho nas nuances do desejo e das consequências de ultrapassar limites pessoais e profissionais. “Babygirl” é um thriller que provoca, emociona e deixa reflexões sobre o impacto dos impulsos mais íntimos.
Confira o trailer:
Confira a análise em video:
🍿 Filme: Babygirl
📺 Onde assistir: Prime Video
Nota: ✱ ✱ ✱ – (7.0/10) Muito bom
Direção: Halina Reijn
2024 ‧ Thriller/Erótica ‧ 1h 48m
Deixe um comentário