“A Verdade Por Trás do Ódio a ‘Emilia Pérez’ – Desconstruindo Críticas

Antes de tentarmos entender o que está acontecendo com esse ódio em cima do filme “Emilia Pérez”, é importante nos desprendermos um pouco das polêmicas envolvendo os bastidores do filme e analisarmos também as críticas relacionadas à sua qualidade. Muitos dizem que é um filme terrível, como se isso fosse uma verdade absoluta, e é exatamente esse ponto que quero desconstruir neste texto.

Precisamos lembrar que filmes não tão adorados pela maioria do público podem, sim, chegar ao Oscar, mas isso não significa que sejam ruins. Já tivemos exemplos de filmes que não são necessariamente grandes obras-primas, mas que possuem qualidades e dialogam com seu público.

É o caso de “Juno”, ou até mesmo de “No Ritmo do Coração”. Apesar de eu não gostar deste último como um vencedor do Oscar, reconheço suas qualidades e, na época, o avaliei como um ótimo filme. Além disso, há casos de produções que venceram o Oscar, mas ainda hoje são questionadas, como “Crash: No Limite” e “Chicago”. Ambos continuam sendo debatidos como filmes que talvez não devessem ter levado o prêmio, especialmente considerando os concorrentes que enfrentaram em seus respectivos anos.

É nesse ponto que quero entrar na discussão sobre o porquê de “Emilia Pérez” ser tão odiado, especialmente em um ano com “Duna: Parte Dois”, “Conclave”, “O Brutalista”, e “Ainda Estou Aqui”, filmes naturalmente dramáticos e mais pés no chão, que ganharam essa marca de serem merecedores de melhor filme pois ao longo dos anos foi a imagem que o próprio Oscar construiu para a premiação. Essa disputa cria uma rivalidade entre as produções, principalmente considerando que “Emilia Pérez” é um musical, assim como “Chicago”, que também sofreu rejeição na época, especialmente por ter concorrido com “As Horas”, “O Senhor dos Anéis: As Duas Torres”, “Gangues de Nova York” e “O Pianista”.

Dessa forma, entramos em um debate interessante sobre as qualidades de “Emilia Pérez” e sobre o motivo de ele ser amplamente criticado. Hoje, vivemos em uma era de review bombing e sites de métricas populares, onde o público pode entrar e destruir a nota de um filme sem piedade, e de forma muito simples e rápida. No passado, quando outros ganhadores controversos levaram o Oscar, não era tão fácil assim manipular a recepção de uma obra e a percepção do público usando esses meios. E é justamente esse aspecto que vale a pena discutir.

Longe de querer afirmar que minha opinião é superior ao público em geral. O que proponho aqui é uma discussão mais complexa. Sei que “Emilia Pérez” está envolvido em uma polêmica, especialmente em relação à escalação do elenco e à própria questão de um filme francês adaptar uma história mexicana. No entanto, antes de entrar nesse debate específico, é fundamental abordar um ponto mais amplo: ao longo da história, diversas obras — tanto hollywoodianas quanto brasileiras — se apropriaram de outras culturas e, ainda assim, foram bem aceitas pelo público e amplamente elogiadas. Isso me faz ter um certo distanciamento das críticas dirigidas a “Emilia Pérez”.

Alguns exemplos ilustram essa questão: “Narcos”, “Sicário: Terra de Ninguém”, “Breaking Bad”, por exemplo, retratam cartéis de drogas, mas contam com um elenco majoritariamente composto por atores americanos. No caso de “Narcos”, embora houvesse um protagonista latino, ele era um ator brasileiro, que falava português. Ainda assim, a série foi amplamente reconhecida e bem recebida.

Embora eu adore “Breaking Bad” e a considere um dos grandes marcos da história da televisão, a fotografia amarelada cria uma sensação de calor extremo nos países emergentes, como o México. Esse efeito visual reforça a ideia de um sol desértico intenso e escaldante, tentando transmitir a imagem de um ambiente hostil e desconfortável, onde o calor é opressor e o suor constante.

No Brasil, diversas novelas de Glória Perez estereotiparam diferentes culturas, como a cigana em “Explode Coração”, a árabe em “O Clone” e a indiana em “Caminho das Índias”. Já em Hollywood, o que dizer dos filmes de Ridley Scott? Recentemente, ele se apropriou de uma história italiana em “A Casa Gucci”, trazendo um elenco majoritariamente americano forçando sotaques italianos.

Falando em estereótipos, um dos mais recorrentes no cinema é o do “branco salvador” — o protagonista branco que resgata personagens de outras etnias. Esse padrão é constantemente reproduzido na indústria cinematográfica, em filmes como “Resgate”, “Histórias Cruzadas” e “Mentes Perigosas”. Em Hollywood, são raras as ocasiões em que atores negros protagonizam heróis e contam suas próprias histórias. Um exemplo que mudou isso foi “Pantera Negra”, o primeiro super-herói negro a ter um filme solo no universo da Marvel.

É uma pena que “Emília Pérez” tenha se tornado alvo de uma polêmica tão grande entre os internautas. Isso dificulta a dissociação entre uma crítica ao filme e os comentários negativos que ele vem recebendo. Embora o papel da crítica seja avaliar apenas o que está em tela, a geração atual tende a problematizar as obras com base em interpretações que vão além disso. O maior problema é que até mesmo a geração passada acaba aderindo a essas discussões para se sentir incluída no debate, ainda que, muitas vezes, isso não tenha relação direta com o que uma obra ficcional propõe. No entanto, a partir de agora, quero focar exclusivamente nas qualidades do longa e explicar por que gostei tanto — e, ao reassistir, passei a apreciá-lo ainda mais.

Primeiro, é importante entender que nenhuma obra de ficção tem a obrigação de ser totalmente verossímil. “Emília Pérez” se apropria de temas reais, e, enquanto alguns são trabalhados com sucesso, outros podem gerar reações negativas justamente por não estarem tão ancorados na realidade. Ainda assim, o filme se propõe a trazer uma visão muito particular, algo que já estamos acostumados a ver em novelas ou em produções cinematográficas que não necessariamente buscam o realismo absoluto.

A primeira cena musical, com a performance de Zoe Saldaña, já evidencia o árduo trabalho de treino e coreografia. Além disso, a forma como é apresentada estabelece grande parte do ritmo do filme. A letra da música, que compõe parte da narrativa da história, não precisa ser aquela canção universal que as pessoas vão querer sair cantando; é isso que torna “Emilia Pérez” diferente e propositalmente deslocado do musical tradicional.

Os números musicais seguem uma estrutura própria, que não se apoia no modelo tradicional da Broadway. Essa escolha me causou desconforto e estranheza na primeira vez em que assisti. Cheguei a considerar alguns números musicais constrangedores, mas é impressionante como minha percepção mudou ao rever o filme.

Toda a técnica dos grandes musicais está presente, mas propositalmente um degrau diferente, para dar a sensação de algo mais corriqueiro, como se a música surgisse naturalmente em cena. Isso fica evidente até mesmo na forma como as pessoas cantam e na maneira como a edição insere a música na narrativa. A perfomance de El Mal é a minha favorita, por sua direção, coreografia e o belíssimo desempenho de Zoe Saldaña.

Quanto àqueles que criticam o fato de temas sérios serem abordados em canções, me pergunto como reagiriam a musicais como “The Book of Mormon”, que explora temas como a cultura africana e mórmon, além de AIDS, câncer e outras questões extremamente sérias, tudo tratado com leveza, humor e até um tom satírico.

A primeira aparição da atriz Karla Sofía Gascón é no papel do líder de cartel chamado Manitas, e é impressionante todo o seu trabalho de maquiagem e interpretação. Ao fazer a transição para a personagem Emilia Pérez, ela evidencia o quão bem conseguiu diferenciar as duas identidades. Quem não souber disso pode facilmente ser enganado e acreditar que houve um ator diferente para interpretar o personagem antes da transição.

Ao surgir em cena como Emilia Pérez, a força da personagem se torna evidente, assim como a sensação de plenitude que ela experimenta após a mudança de sexo. O reencontro com a advogada Rita Castro é um dos momentos mais interessantes do filme, e a edição na cena em que ela responde “Bingo” adiciona um charme especial. Alguns questionam o fato de a personagem Rita Castro identificá-la como Manitas, enquanto a personagem de Selena Gomez não percebe. É importante lembrar que Rita a reconhece pelos eventos ligados a ela, e não por sua aparência ou voz — algo que é deixado claro no texto. Além disso, na vida real, nem todas as pessoas percebem as mesmas coisas da mesma forma.

É evidente que o espanhol de Selena Gomez não é o ponto alto do longa, mas isso é facilmente justificado pelo roteiro, que apresenta sua personagem como latino-americana. Para quem não sabe, a cantora é filha do mexicano-americano Ricardo Joel Gomez, o que torna sua escalação ainda mais justificável, ainda que eu ache a perfomance da cantora a mais fraca dentre todas do elenco.

O que mais me encanta em “Emília Pérez” é sua ousadia ao apresentar uma história extremamente original: a de um líder de cartel que decide passar por uma cirurgia de redesignação de sexo para se tornar uma mulher. Essa premissa é fascinante, e o filme trabalha muito bem as consequências dessa transição, especialmente no arco do personagem Manitas, interpretado brilhantemente por Karla Sofia Gascon. Manitas passa por uma transformação ao se tornar “Emília Pérez”, e a atriz entrega uma atuação poderosa, transitando entre sua identidade anterior e sua nova vivência como mulher.

As questões envolvendo a redenção de Manitas após a transição para Emilia Pérez são pertinentes; afinal, não seria uma mudança de sexo que tornaria uma pessoa melhor? Mas ao reasistir ao longa, percebe-se como Manitas se sentia preso em uma vida à qual já não pertencia. Sua nova forma de viver não era apenas um escape visual, mas também uma oportunidade de recomeçar e de se redimir de seus erros do passado. mAinda que isso possa não justificar ou tornar a história crível, é importante lembrar que o cinema nem sempre se pauta apenas na realidade.

A relação entre Emília e a personagem de Selena Gomez adiciona ainda mais camadas à narrativa. A transição não apaga completamente a identidade de Manitas, e isso se reflete nos sentimentos que emergem ao ver sua ex-companheira se envolvendo com outro homem. O ciúme aflora, e, ao mesmo tempo, há a complexidade de saber que seus filhos agora fazem parte de uma nova dinâmica familiar. Esse é um dos momentos mais dramáticos do filme, pois evidencia que, apesar da transição, o passado de Manitas ainda existe e continua a influenciá-lo. O apego aos filhos e as marcas de sua antiga vida permanecem, tornando essa jornada ainda mais intensa e emocionalmente forte.

“Emilia Pérez” é reflexo de uma tendência cada vez mais presente: a dificuldade de separar a obra do artista. Esse fenômeno pode ser problemático, pois um filme não é fruto do trabalho de apenas uma ou duas pessoas, mas de um elenco e uma equipe inteira. Basta lembrar quantos filmes produzidos por Harvey Weinstein — um predador que abusou de diversas atrizes — ainda são amplamente assistidos e admirados. Isso levanta uma questão: quando um filme é condenado com tanta veemência, será que o cancelamento não é, muitas vezes, seletivo? Especialmente quando há narrativas que o sustentam isso.

Confira o trailer:

🍿 Filme: Emilia Pérez

📺 Onde assistir: Cinema
Nota: ✱ ✱ ✱ – (7.5/10)

Direção: Jacques Audiard

2024 ‧ Musical/Thriller ‧ 2h 10m

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