
“O Brutalista” é uma obra impressionante, realizada com um orçamento enxuto de cerca de 10 milhões de dólares, e filmada utilizando a técnica Vista Vision, criada pelos engenheiros da Paramount Pictures em 1956. O Vista Vision é uma variante de widescreen de alta resolução, filmada em 35mm, sendo o mesmo formato utilizado em filmes icônicos como “Intriga Internacional” e “Um Corpo Que Cai” de Alfred Hitchcock. Embora existam diversos aspectos técnicos fascinantes sobre essa técnica, e “O Brutalista” seja um exemplo técnico exuberante, há muito mais na obra para ser explorado do que apenas os acertos cinematográficos.
Na trama, Lászlo Tóth (Adrian Brody) é um arquiteto visionário que, após fugir da Europa devastada pela Segunda Guerra, chega aos Estados Unidos com o objetivo de reconstruir sua vida, carreira e casamento. Sozinho em um novo país, ele se estabelece na Pensilvânia, onde um industrial rico e proeminente reconhece seu talento.
O primeiro ato do filme estabelece de forma eficaz o cenário pós-Segunda Guerra Mundial nos Estados Unidos e nos insere na jornada do protagonista, interpretado brilhantemente por Adrian Brody, que precisa recomeçar sua vida longe de sua esposa, que permanece em outro país.
É difícil criar empatia imediata pelo personagem de Brody, principalmente quando, logo após ser salvo de uma guerra que perseguia os judeus, ele busca refúgio em um bordel para satisfazer suas necessidades pessoais, enquanto nem sequer sabe como sua esposa está sobrevivendo no caos daquela época.
No entanto, o filme realmente ganha força quando adentra o universo da profissão de Lászlo e seu processo criativo. A abordagem das burocracias, dos jogos de ego e poder dentro desse cenário é fascinante. O problema começa quando a personagem de Felicity Jones entra em cena, e o filme começa a perder seu ritmo, desviando para dramas paralelos que não agregam de forma significativa à narrativa central. Além disso, a personagem Erzébet Tóth é, na verdade, irritante, o que acaba tirando o foco do que o filme tem de melhor a oferecer.
As cenas que ilustram a arquitetura e a paixão de Lászlo por construir e ver suas criações ganharem vida são, sem dúvida, as mais cativantes, em grande parte devido à cinematografia estonteante de Lol Crawley, que enquadra e ilumina perfeitamente tudo o que se refere à arquitetura. O jogo de iluminação, que utiliza sombras e luzes escuras para criar uma sensação de luz natural, é outro acerto. A trilha sonora de Daniel Blumberg complementa a grandiosidade visual do filme, contribuindo para a imersão na trama.
Adoro filmes que buscam contar a história do sonho americano e até mesmo desconstruí-lo, como foi visto recentemente em “Anora”. A diferença é que “Anora” utiliza seu primeiro ato para estabelecer uma jornada de sucesso, mostrando a protagonista atingindo o sonho americano, apenas para sofrer uma quebra narrativa que nos envolve no declínio. Em “O Brutalista”, essa desconstrução ocorre apenas no último ato, após uma cena chocante e inesperada, que rompe com toda a jornada do protagonista, que havia batalhado para alcançar o sucesso profissional nos Estados Unidos.
Para aqueles que não se sentiram tão conectados com “Anora”, o dinamarquês “Um Homem de Sorte” serve como um bom exemplo de uma transição mais sutil entre a ascensão e o declínio, sem a ruptura abrupta de tom vista em “O Brutalista”.
O problema, é que quando essa ruptura ocorre, a cena não só soa como um artifício forçado para causar choque, mas também cria uma cisão pouco convincente. A justificativa de que o protagonista está drogado ao ponto de confessar algo tão íntimo e traumático parece uma jogada do roteiro para que a história continue depois de uma decisão absurda. Considerando o contexto histórico de 1947, seria praticamente impossível que um homem revelasse algo tão pessoal e pesado sobre abuso, e a desculpa de que ele estava drogado para fazer tal confissão soa como uma solução forçada, conveniente e pouco crível.
Em relação à duração do filme, não vejo problema no tempo dedicado à construção da história. Alguns dos maiores e mais premiados filmes da história do cinema, como “Ben-Hur”, “Titanic” e “O Senhor dos Anéis”, são longos e, em seu caso, o tempo é necessário para contar as histórias de forma adequada. Contudo, “O Brutalista” tenta abordar diversas temáticas e, ao fazer isso, acaba se aprofundando em algumas delas apenas superficialmente. Ao tentar retratar os ricos como opressores e vilões, enquanto os refugiados são os únicos personagens positivos, o filme se torna reducionista. Além disso, o personagem interpretado por Guy Pearce acaba sendo uma caricatura, prejudicando até a atuação do ator, que soa exagerada e forçada, especialmente em sua primeira aparição, quando surta e grita de forma desmedida. Não há problema em explorar como a riqueza pode corromper o ser humano, como é feito brilhantemente em “Parasita”, mas em alguns filmes, como “Saltburn”, essa abordagem acaba se tornando infantilizada, o que acaba respingando nesse projeto também.
Confira o trailer:
🍿 Filme: O Brutalista (The Brutalist)
📺 Onde assistir: Cinema
Nota: ✱ ✱ ✱ – (7.5/10)
Direção: Brady Courbet
2024 ‧ Drama/História ‧ 3h 35m
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