
Criada por Jack Thorne e Stephen Graham — que também estrela a minissérie britânica de apenas quatro episódios — “Adolescência” se firma como uma das grandes surpresas do início do ano, com fortes chances de se destacar na temporada de premiações.
Além de uma trama envolvente e extremamente atual, a produção se destaca por seu elenco. A atuação de Stephen Graham, no papel do pai, é um dos grandes destaques da série. Seu olhar transmite uma mistura de medo, impotência e uma dor genuína, tornando suas cenas ainda mais intensas e viscerais. Já o jovem Owen Cooper, com apenas 15 anos, entregou possivelmente o papel de sua carreira. O ator imprime uma veracidade impressionante ao seu personagem impetuoso, desnorteado e fragilmente instável. Sua atuação é poderosa e, ao mesmo tempo, assombrosa.
Além disso, não deixa de ser por completo, um primoroso, que garante uma direção ousada, sustentada por uma ideia ambiciosa: filmar cada um dos quatro episódios em um único plano-sequência.
Para o diretor Philip Barantini, responsável pelos episódios, esse desafio não era novidade. Ele já havia explorado essa técnica no filme “O Chef” de 2021, também estrelado por Stephen Graham (que na minissérie da vida ao pai do garotinho), no qual capturou a intensidade do mundo gastronômico em um único take. Essa escolha não diminui o mérito da minissérie, apenas reforça seu caráter inovador e o domínio técnico da equipe por trás dela.
A trama começa de forma impactante: um garoto de 13 anos é acusado de um crime no interior da Inglaterra, e policiais invadem sua casa em uma operação de força-tarefa. A cena inicial choca o espectador e desperta uma pergunta inquietante: o que uma criança tão jovem poderia ter feito para ser capturada dessa maneira?
A abordagem da polícia sugere a perseguição a um criminoso perigoso, quase como se estivéssemos assistindo à caçada de um assassino implacável. A construção da tensão é magistral, especialmente no plano-sequência que acompanha o pai do garoto se despedindo do filho antes que ele seja levado. Vemos o menino dentro do carro, de costas, gritando, e sentimos a angústia crescente da situação. A cena gera uma sensação de desconforto, urgência e imprevisibilidade sobre o que está por vir e sobre os eventos que levaram até ali.
A escolha de filmar tudo em um único plano-sequência poderia ser encarado como um mero artifício para impressionar, assim como o uso de ângulos diferenciados visto no indicado ao Oscar, “O Reformatório Nickel”. Ao contrário do que considero no filme superestimado e, até, pretensioso, a escolha narrativa na minissérie faz muito mais sentido dentro da lógica de sua trama. A história, por si só, já seria angustiante o suficiente para o espectador, mas o plano-sequência se torna uma ferramenta ainda mais relevante, pois exige que o público acompanhe cada passo da narrativa, intensificando a sensação de exaustão. Esse recurso não só espelha o desgaste físico e emocional dos personagens, mas também transmite a mesma tensão que eles vivenciam. Ao final do episódio, o espectador se sente tão cansado quanto os envolvidos, mas de uma forma impactante e eficaz, pois sente na pele o peso da situação e o desconforto constante experimentado por pais, crianças e demais personagens ao longo desse árduo percurso.
Embora, à primeira vista, a série pareça um thriller investigativo, o brilhante terceiro episódio revela sua verdadeira essência: um drama profundo sobre como a infância tem sido transformada com o avanço da internet e o acesso irrestrito às redes sociais.
Hoje, crianças e adolescentes são expostos precocemente a conteúdos que afetam sua percepção sobre si mesmos e o mundo ao seu redor. A série retrata isso de forma impactante, especialmente através do personagem Jamie (Owen Cooper), que enfrenta a rejeição e começa a questionar sua própria aparência. Ele se vê como alguém feio, justamente por não receber a validação que gostaria, evidenciando o peso da aceitação social nessa nova geração. Com uma abordagem sensível e provocadora, “Adolescência” não é apenas uma história sobre um crime, mas um retrato profundo dos desafios enfrentados por jovens que cresceram na era digital.
O primeiro episódio focou no caos e na captura do jovem acusado de assassinato. O segundo explorou o impacto do crime nas pessoas ao seu redor, especialmente em seu círculo de amizades. Já o terceiro mergulhou na psique do garoto, revelando como sua infância influenciou sua trajetória. Para encerrar a minissérie, nada melhor do que explorar as consequências desse evento na vida da família, com ênfase nos pais, que se viram devastados pelas repercussões dos atos do filho. É impossível não sentir o peso da dor desses pais, que precisam lidar com uma situação que rompe os laços familiares e lhes impõe o grande fardo da culpa – a sensação de que poderiam ter feito mais, de ter dado mais apoio ao filho, de ter sido mais presentes. E, embora isso não ofereça uma resposta definitiva, são sempre esses questionamentos que retornam quando eles enfrentam a dura realidade dos fatos. A cena final é de partir o coração de qualquer um, embora seja, sem dúvida, manipulativa, com o intuito de arrancar um choro. No entanto, é impossível questionar esse recurso narrativo, já que ele está intrinsecamente ligado à trama e é convincente dentro de seu contexto. Pode-se até aumentar o volume da música triste, pois, sem ela, provavelmente o impacto emocional seria o mesmo.
No final das contas, “Adolescência” é exatamente sobre o que seu título propõe: a adolescência atual, na qual muitos jovens crescem bombardeados por informações e expostos a uma realidade adulta à qual tem fácil acesso.
A série explora como isso molda a percepção de mundo e a identidade de seus protagonistas. É mais um alerta para os pais, que muitas vezes permitem que seus filhos, desde a infância, tenham total controle sobre seus aparelhos eletrônicos e computadores. Cada vez mais, temos observado que essa liberdade pode ser mais prejudicial do que benéfica para crianças e adolescentes. Talvez seja hora de refletir e perceber que nem todos estão preparados para esse consumo digital tão cedo. Afinal, se nem todos os adultos estão prontos para lidar com isso, o que podemos esperar dos nossos jovens?
Confira o trailer:
🍿 Filme: Adolescência (Adolescence)
📺 Onde assistir: Netflix
Nota: ✱ ✱ ✱ ✱ ✱ – (10/10) Excelente
Criado por: Philip Barantini
2025 ‧ Drama ‧ 4 episódios
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