
“Anora”, o novo filme de Sean Baker (diretor de “Red Rocket“ e outros dramas intimistas), marca uma de suas obras mais ambiciosas. Isso fica claro logo pela cinematografia, que abandona a estética de baixa resolução e a granulação que marcaram seus filmes anteriores. E isso não é um demérito: a escolha de filmar com celulares nos primeiros filmes de Baker conferia um charme único à narrativa, algo que sempre diferenciou sua obra pela originalidade.
Mas vamos direto ao ponto. O filme segue Anora, uma prostituta do Brooklyn que se casa impulsivamente com o filho de um oligarca russo. O que parecia ser um conto de fadas vira um pesadelo quando a família dele descobre o casamento e tenta anulá-lo, contratando capangas para forçar o casal a romper esse laço.
A princípio, você pode achar que se trata de mais uma comédia romântica adolescente clichê, em que os protagonistas precisam lutar para ficar juntos. Mas, à medida que a história se desenrola, o tom muda radicalmente. O filme sai de um romance juvenil para uma comédia ácida, que remete a obras como “Fargo” ou “Triângulo da Tristeza”. Esse tom se intensifica na reta final, quando uma situação constrangedora de humilhação envolve a família do jovem e a própria Anora. É o tipo de cena que faz a gente rir de nervoso, ou até pela satisfação de ver aquela família recebendo, de alguma forma, o que merece.
O filme não se destaca apenas por ser um conto de fadas disruptivo, que quebra nossas expectativas o tempo todo, mas também por sua ousadia em abordar cenas de nudez e sexo, tornando essencial que o público tenha uma mente aberta. Quem for mais conservador provavelmente vai detestar a forma como Baker explora esses momentos sem nenhum tipo de tabu.
A atuação de Mikey Madison é impressionante. Desde o início, ela prende a atenção, mesmo quando sua personagem parece não ter muito a oferecer. A naturalidade de Madison é evidente e se transmite para a personagem, o que torna Anora cada vez mais fascinante à medida que a trama avança.
Em contrapartida, Mark Eidelstein, o ator russo, é eficiente, mas seu personagem não é fácil de se conectar. Mesmo sendo um jovem inconsequente, havia algo nele que soava errado, o que me afastava emocionalmente. No fim, eu estava certo em minhas impressões iniciais.
O mais interessante é que até os coadjuvantes acabam roubando a cena. Yuriy Borisov é um exemplo, com sua simpatia, que se revela uma das surpresas da produção. Sua boa performance, no entanto, não seria possível sem o excelente trabalho de Sean Baker, tanto no roteiro quanto na direção. Ele consegue, com sutileza, explorar as complexidades das relações humanas e imprimir uma humanidade palpável em cada um dos personagens.
O que mais admiro em Sean Baker é sua escolha de fugir das histórias convencionais de sucesso e das jornadas clichês de crescimento pessoal. Ele prefere abordar o lado da vida real que muitos cineastas evitam: pessoas quebradas, com sonhos desiludidos. Seus personagens têm uma humanidade tão crua que, em certos momentos, é difícil lembrar que estamos vendo um filme. Isso é particularmente evidente na protagonista, que oscila entre momentos de ternura e rudeza, mas sempre com uma complexidade que a torna genuína. Como ela, nós também somos ambíguos, e é essa sutileza que torna os personagens de Baker tão ricos e reais.
“Anora“ provavelmente não agradará a todos, devido à ousadia do diretor em explorar narrativas que vão além do que muitos estariam dispostos a encarar na tela. No entanto, certamente conquistará aqueles que apreciam histórias ancoradas na complexidade da condição humana — histórias de personagens falhos, que tomam decisões egoístas, inconsequentes e imaturas, gerando uma cadeia de eventos que deixam marcas profundas. A cena final é um reflexo poderoso dessa dinâmica, ilustrando com clareza como as escolhas de um personagem reverberam nas vidas de outros, tornando a trama ainda mais instigante e arrebatadora.
Confira o trailer:
🍿 Filme: Anora
📺 Onde assistir: Cinema
Nota: ✱ ✱ ✱ ✱ ✱ – (10/10) Excelente
Direção: Sean Baker
2024 ‧ Comédia/Romance ‧ 2h 19m
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