
O diretor Pablo Larraín encerra sua trilogia sobre divas históricas com “Maria”, após os aclamados “Jackie” (2016), sobre Jacqueline Kennedy, e “Spencer” (2021), que explorou a vida da princesa Diana. Desta vez, Larraín centra sua narrativa na figura da lendária soprano Maria Callas, oferecendo um retrato sensível e melancólico de uma das maiores cantoras de ópera de todos os tempos.
Uma escolha interessante do diretor é iniciar o filme nos anos finais da vida de Callas, quando ela já está distante do brilho e do glamour que marcaram o auge de sua ‘carreira. Essa abordagem, similar à de “Spencer”, privilegia o drama psicológico e introspectivo, apresentando uma protagonista isolada e em profunda reflexão sobre sua identidade e trajetória. Mas, ao mesmo tempo em que essa parecia uma escolha acertada, conforme a narrativa avança, há um cansaço nessa abordagem mais depreciativa, algo que “Spencer”, por exemplo, conseguia condensar melhor por não utilizar uma linguagem excessivamente melodramática, mas sim algo muito mais intimista.
As cenas na casa espaçosa de Callas, iluminadas por tons dourados e uma fotografia alaranjada que beira o sépia, evocam uma atmosfera de nostalgia e abandono. Essa estética remete diretamente ao universo visual de “Spencer”, estabelecendo uma ligação estilística entre os dois filmes de Larraín. A combinação de cenários opulentos com o vazio emocional da protagonista cria um contraste poderoso, reforçando a dualidade entre o passado glorioso e o presente melancólico de Callas.
O filme narra a reclusão da soprano em Paris, após anos de uma vida pública intensa e turbulenta. A abordagem de Larraín, no entanto, é mais contemplativa do que biográfica, reimaginando os últimos dias de Callas enquanto ela enfrenta suas memórias, medos e arrependimentos. Essa escolha dá ao filme um tom melancólico e, por vezes, deprimente, que pode afastar espectadores menos familiarizados com a história real da cantora.
Como comparação, o documentário “Maria Callas – Em Suas Próprias Palavras” oferece um olhar mais direto e dinâmico sobre a vida da artista, explorando tanto o apogeu quanto o declínio de sua carreira de forma envolvente. Já o filme de Larraín adota uma montagem mais lenta e introspectiva, especialmente no primeiro ato, o que pode parecer menos convidativo para quem busca conhecer Maria Callas através do cinema.
A atriz Angelina Jolie (vencedora do Oscar por “Garota Interrompida”) dedicou sete meses a aulas de canto para dar vida à lendária soprano. O que ouvimos no longa é uma mistura entre a voz de Jolie e as gravações reais de Maria Callas. Apesar do esforço evidente da atriz e de um resultado tecnicamente impressionante, sua atuação não me cativou da mesma forma que Marion Cotillard em “Piaf – Um Hino ao Amor”, por exemplo. Jolie, remete mais à interpretação de Bradley Cooper como o maestro Leonard Bernstein: muita maquiagem e caracterização, mas pouca profundidade emocional.
Eu também não acho que Angelina Jolie se pareça fisicamente com Maria Callas, e nem mesmo que a maquiagem tenha conseguido transmitir essa imagem de forma convincente. O roteiro, que opta por mostrar apenas um recorte dos últimos dias de vida da soprano, esvazia a carreira fascinante de Callas e foca em uma melancolia que pode afastar aqueles que não conhecem sua trajetória.
Há quem defenda que um recorte da vida de um astro da música torna a experiência mais rica, em comparação a uma abordagem mais ampla de sua trajetória. Eu penso o contrário. Embora um resumo da vida possa comprometer partes da narrativa pela limitação de tempo em tela, ele permite que mostremos mais camadas de uma pessoa, em vez de reduzi-la a um único aspecto.
É frustrante ver Maria Callas sendo representada apenas em seus últimos dias, sem que possamos acompanhar os momentos em que ela estava radiante, sorrindo e exalando simpatia por onde passava. Embora a parte amarga de sua vida seja tão fascinante quanto os períodos em que ela estava cheia de vida, acredito que não se deve focar apenas em um fragmento da existência de alguém. Uma pessoa é muito mais do que um momento isolado, e ao apresentar sua história ao público geral, é preciso ter cuidado para que a imagem transmitida não reduza a verdade.
Confira o trailer:
🍿 Filme: Maria
📺 Onde assistir: Plataformas digitais
Nota: ✱ ✱ – (5.0/10) Mediano
Direção: Pablo Larraín
2024 ‧ Drama ‧ 2 h 3 min
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