
Imagina viver em uma época em que você precisa ter um filho, mas seu marido não é muito chegado no “vamo-vê”. Com isso, você passa dias antes de dormir tentando acordar o dito cujo, mas, infelizmente, nada consegue levantar o falecido. Parece cômico, não é? Mas, na verdade, isso é só o pontapé inicial de uma história que se torna trágica à medida que os acontecimentos se desenrolam.
O longa baseado em fatos, conta a história de Agnes, uma jovem casada que se sente oprimida no mundo do marido, desprovido de emoções e limitado a tarefas e expectativas. Mulher piedosa e altamente sensível, Agnes cai em profunda depressão antes de cometer um chocante ato de violência, que ela vê como a única saída de sua prisão interior.
O filme é dirigido pelos cineastas Veronika Franz e Severin Fiala, que já foram responsáveis pelos ótimos filmes austríacos “Boa Noite, Mamãe” e “O Chalé”. Eu adoro “Boa Noite, Mamãe”, não gostei tanto de “O Chalé”, mas adorei esse novo trabalho deles, que me lembrou muito o tom de “A Bruxa”, de Robert Eggers — tanto pela temática quanto pela atmosfera intensa e imersiva que conseguem construir.
Antes da trama se desenrolar a partir dessa premissa, acompanhamos uma cena impactante: uma mulher caminha com uma criança de colo pela floresta. O problema é que, ao chegar em uma área elevada, ela se depara com uma ribanceira de água corrente, como se fosse uma cachoeira. Nesse momento, já fiquei totalmente perturbado com a possibilidade do que essa mulher poderia fazer com sua própria vida ou com a da criança. O que acontece nessa cena inicial é extremamente perturbador e acaba sendo um grande ponto de partida para a história de Agnes. Ao longo de sua trajetória na tentativa de dar à luz a uma criança, ela desenvolve uma loucura crescente que imediatamente nos faz lembrar dessa primeira cena, fazendo-nos temer pela vida dela e das pessoas ao seu redor. Afinal, será que Agnes está realmente se tornando depressiva por não conseguir gerar uma criança? Ou seria pela ausência de atenção e afeto do marido?
É importante lembrarmos o quanto a vida naquela sociedade era difícil em 1750. As mulheres praticamente não tinham voz. Agnes, especialmente, não tinha voz, nem a atenção do marido e muito menos uma vida sexual ativa. E, para completar, ainda precisava lidar com uma sogra palpiteira, que mais criticava do que ajudava. Eu me coloquei muito no lugar dessa protagonista e imaginei o quanto deveria ser difícil viver naquela época, onde, além de tudo, havia muitas fofocas, especialmente porque viviam em uma comunidade isolada. Tudo parecia complicado — até mesmo em uma simples cena em que as mulheres vão lavar roupa, fiquei pensando em como até isso podia ser opressor. Eles também passavam por muitas necessidades. Em um momento, Agnes e a sogra distribuem pães para os trabalhadores e precisam controlar os pedaços que estão dando. É realmente um terror real, que nos fisga pela angústia da situação miserável em que os personagens se encontram.
Agora, entro em uma zona de spoilers, mas sem revelar tudo — apenas o essencial. No início do filme, é mostrado o crime cometido por uma mulher. Isso era relativamente comum naquele período, pois, segundo a religião da época, quem tirasse a própria vida não seria perdoado por Deus. No entanto, quem cometesse um crime contra outra vida poderia ser perdoado. É algo bizarro, mas também um reflexo das crenças e narrativas religiosas que sempre convenceram os fiéis.
Com o contexto estabelecido, acompanhamos Agnes mergulhar cada vez mais na reclusão e na depressão, vivendo em um ambiente emocionalmente hostil. Ela não tem o carinho do marido, não tem relações sexuais e ainda é constantemente oprimida pela sogra, que dita até como ela deve organizar as panelas na própria cozinha.
Como mencionei, o filme é baseado em uma história verídica, e mais de 400 casos foram registrados de pessoas que cometeram crimes acreditando que, sendo presas e arrependidas, seriam perdoadas por Deus e, assim, iriam para o céu. Na primeira cena que comentei, a mulher está com uma criança de colo, chega perto de uma ribanceira de cachoeira, olha para baixo… e joga a criança do alto.
Sim, isso mesmo. Fiquei estatelado, absorvendo a loucura daquela atitude. A partir disso, ela corre até um local e, ao ser atendida, confessa o crime. Logo depois, vemos alguém cortando seus dedos, e a cena seguinte mostra a mulher com a cabeça decepada dentro de uma gaiola. A partir desse trágico acontecimento, começamos a acompanhar a história de Agnes. E aí, vocês lembram que comentei que ela tenta engravidar de todas as formas, mas o marido não consegue cumprir seu papel?
Isso começa a mudar a personalidade de Agnes com o passar do tempo. Na cena final, ela decide levar uma criança para um local isolado. Dessa vez, é um garoto de cerca de 10 anos de idade. De repente, a mulher resolve tirar a vida da criança, cortando seu pescoço. O garoto chora e pede ajuda, mas ela o observa de forma passiva. Quando ele grita mais alto, ela se aproxima e termina de matá-lo. É uma cena tão brutal e visceral que eu não poderia deixar de comentá-la. Seria difícil expressar o impacto dessa sequência sem entrar em detalhes, mas ao comentar, vocês podem imaginar o quanto ela me afetou enquanto assistia.
No fim das contas, esse é um filme que incomoda — e esse é seu maior mérito. Ele nos força a confrontar não só a miséria psicológica de sua protagonista, mas também as estruturas sociais, religiosas e familiares que contribuíram para sua ruína. É um terror que vai além do sangue e da violência: é o horror da opressão cotidiana, da culpa imposta e da loucura silenciosa. Franz e Fiala entregam um retrato sombrio e necessário de uma época em que ser mulher era quase uma sentença. E, de forma inquietante, fazem a gente se perguntar: será que mudou tanto assim?
Confira o trailer:
🍿 Filme: O Banho do Diabo (Des Teufels Bad)
📺 Onde assistir: Eppi Cinem
Nota: ✱ ✱ ✱ ✱ – (8.5/10) Ótimo
Direção: Veronika Franz, Severin Fiala
2024 ‧ Terror ‧ 2h 01m
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