
Antes de falar sobre o novo filme do diretor italiano Luca Guadagnino, é preciso explicar um pouco sobre o autor do livro que serviu de base para o seu mais novo filme, “Queer”.
Essa introdução é importante porque esse filme é quase como uma cinebiografia, já que o autor Burroughs escreveu o personagem Lee para representar a si mesmo, mesmo que em uma viagem alucinante que oscila entre o realismo e o surrealismo. Burroughs era um homem viciado, homossexual e desafiava a ordem natural das coisas em sua época. O autor viveu em lugares como Berlim, México, Paris, Londres e Tânger, no Marrocos.
Enquanto vivia no México, onde tinha uma plantação de maconha, o escritor, segundo ele mesmo, atirou acidentalmente em Joan Vollmer, sua esposa. Apesar de se declarar atraído por homens, Burroughs era apaixonado por Vollmer, bem como por armas. A combinação dos dois — mais uma boa dose de certas substâncias — causou uma embriaguez catastrófica. Tentando atirar em um copo acima da cabeça de Joan, o romancista acertou na testa da esposa, tirando a vida dela.
A partir desse infortúnio, Burroughs decidiu que escrever seria sua forma mais eficiente de superar essa dor, usando sua criatividade para manter sua mente ocupada. É assim que nasce, então, o livro “Queer”, em 1985, obra que reflete um pouco de sua vida deprimida e de seus desejos por homens. No longa de Luca Guadagnino.
A trama segue a vida de Lee (Daniel Craig), um expatriado americano que se encontra na Cidade do México após ser dispensado da Marinha. Lee vive entre estudantes universitários americanos e donos de bares que, como ele, sobrevivem com empregos de meio período e benefícios do GI Bill, uma lei que auxiliou veteranos da Segunda Guerra Mundial. Em meio à vida boêmia da cidade, Lee conhece Eugene (Drew Starkey), um jovem por quem desenvolve uma intensa paixão. O filme explora temas de solidão, desejo e a busca por identidade em um cenário pós-guerra, com uma ambientação que retrata fielmente a atmosfera da Cidade do México nos anos 1950.
É bom lembrar que Burroughs era considerado por muitos uma pessoa indigesta, e isso é refletido no personagem Lee. O fato de termos um protagonista não muito agradável pode causar um distanciamento no público geral. Mas é fato que a atuação espetacular de Daniel Craig colabora para que a experiência se torne mais agradável. Tem uma cena específica em que seu personagem consegue oscilar suas emoções, em um longo tempo filmando seu rosto, através de nuances — um trabalho que só pode ser transmitido por um ator do calibre de Daniel Craig.
Essa desenvoltura de Daniel Craig em um papel tão diferente de seu último trabalho como James Bond não é algo fora da curva na carreira do ator. Ele já havia interpretado um homossexual no início de sua trajetória, no provocativo “O Amor É o Diabo: Estudo para um Retrato de Francis Bacon”, no qual ele interpretava um jovem acompanhante. Lembrando disso, é até curioso imaginar que a escalação de Luca Guadagnino talvez tenha sido intencional, brincando com a ideia de reverter o papel do ator agora que ele está mais velho.

O jovem ator Drew Starkey (de “Hellraiser”, de 2022) também tem o charme que seu personagem precisa, além de um enigmatismo que o torna misterioso até certo ponto, e uma sensualidade contida que se torna hipernatural, especialmente pelo cuidado do olhar de Guadagnino, que nunca torna nenhum desses momentos apelativos, e sempre extremamente naturais, até mesmo quando exibe mais do corpo. E ambos têm uma uma naturalidade em cena que poderia ter sido ainda mais explorada, se fosse trabalhada em um roteiro que fosse mais romantizado como “Me Chame Pelo Seu Nome“.
Mas é bom tocar no nome do filme estrelado por Timothée Chalamet para deixar claro que essa obra não tem nada de seu outro longa-metragem. “Queer” assume sua própria identidade, ainda que se apoie em outros filmes do próprio diretor, como buscando a estranheza de “Até os Ossos”, especialmente em uma cena surrealista onde ambos vomitam seus corações.
E, quando digo isso, é visualmente mostrado de forma literal, ainda que obviamente não aconteça realmente dentro daquela trama — é mais uma forma metafórica de mostrar alguns devaneios e sentimentos. E há também um pouco da estranheza de “Suspiria”, quando os corpos dos dois se entrelaçam, de forma que o efeito visual mostre ambos literalmente colados um ao outro.
Falando em “Suspiria”, provavelmente esse filme de terror do diretor italiano Dario Argento parece ter sido invocado de forma muito sutil em uma cena do motel, quando o personagem de Daniel Craig conhece um jovem na rua e o leva até esse lugar para que possam ter uma noite juntos.

Lembrando que o diretor já fez um remake desse clássico, a comparação não soa tão distante assim. Observe o uso das cores: desde o verde bastante iluminado até o vermelho em destaque, passando por outras cores iluminadas e chamativas. Isso prova que ele não usou a mesma estética do clássico “Suspiria” no remake, por querer criar sua própria versão, e não uma cópia do clássico, enquanto em “Queer”, parece fazer uma referência bem discreta.
Falando na composição das cores dessa cena em específico, é bom ressaltar que um dos pontos altos do filme é a belíssima direção de fotografia do tailandês Sayombhu Mukdeeprom, que já trabalhou com o diretor em filmes como “Rivais”, “Suspiria” e “Me Chame Pelo Seu Nome”.
Se os seus outros trabalhos com o diretor Luca Guadagnino já mostravam a delicadeza do cinematógrafo em explorar os ambientes, iluminações e os enquadramentos, o que ele faz em “Queer” é ainda mais sofisticado e transmite diversas sensações. Como na própria cena do motel, onde a iluminação nos transporta para um ambiente quente e, ao mesmo tempo, distante.
E, quando essa cena termina, com o personagem de Lee se envolvendo com um desconhecido em uma noite qualquer, é interessante notar o quanto as cores que traziam um certo peso para a cena do motel saem de cena quando ele encontra Eugene, por quem está encantado. Com isso, os tons amarelados e mais leves ganham destaque, remetendo à própria fotografia de “Me Chame Pelo Seu Nome”, evidenciando, naquele momento, a leveza que Eugene traz ao seu dia. Até mesmo no anoitecer, quando os dois têm sua primeira noite, os tons usados são amarelados, e não a mesma composição utilizada para a noite que ele teve com o outro jovem desconhecido.
O escritor Burroughs é conhecido por sua literatura truncada, feita de recortes e pela falta de linearidade, e o roteiro adaptado por Justin Kuritzkes (o mesmo roteirista de “Rivais”) busca manter essa essência da literatura, ainda que tome algumas liberdades ao adicionar mais à trama. Percebe-se que a narrativa não soa linear, e os diálogos, algumas vezes, parecem soltos no ar, pois as conversas fazem parte mais do cotidiano dos personagens do que, de fato, buscam dar algum suporte para o espectador entender como anda a relação entre eles. Acabamos sentindo as relações mais de forma subjetiva do que clara, o que pode distanciar algumas pessoas, já que o filme acaba sendo, em maior parte, um romance muito mais intimista.
A trilha sonora também é um dos acertos do longa, que compõe cenas belíssimas, como a primeira de Daniel Craig caminhando ao som de “Come as You Are” – Nirvana. O personagem Lee caminha fumando e assistindo a uma briga entre galos, enquanto encontra o jovem Eugene, ficando deslumbrado com a beleza do rapaz, que o observa, faz um sorriso tímido, enquanto caminha. Ou naquele momento em que Daniel Craig está em outra dimensão ao som de “Leave Me Alone” – New Order. Além das ótimas canções instrumentais de Aticcus Ross e Trent Reznor (os mesmos de “Rivais”).
“Queer” tem a primeira uma hora e meia extremamente intrigante e, de certo modo, fascinante, mas, infelizmente, o ato final acaba indo para um lugar comum, onde o diretor tenta explorar uma viagem insana do protagonista em busca de uma planta que ele acredita poder desenvolver a telepatia. Nesse momento, o filme toma um rumo que não agrada à narrativa de nenhum dos personagens e apenas busca preencher o tempo com situações bobas, onde o personagem de Daniel Craig acorda com a dona de uma casinha de madeira o ameaçando com sua espingarda.
Toda a sofisticação e ousadia típica do cinema italiano acabam sendo descartadas para a exploração de uma situação extremamente típica dos filmes hollywoodianos. O pior é que nada desses acontecimentos tem graça, e mais prejudicam o andamento da história do que agregam à narrativa.
Depois desse desvio narrativo, o filme parece se encontrar novamente, com o uso de algumas situações experimentais que provocam uma experiência sensorial. Mas o que se destaca mesmo é a coragem do diretor em colocar em cena o personagem de Daniel Craig revivendo aquele momento doloroso que o escritor Burroughs vivenciou na vida real, aqui de uma forma diferente, evidentemente, mas que não deixa dúvidas do quão impactante isso foi na vida do romancista. “Queer” termina tão melancólico quanto foi em maior parte do tempo, mas não menos reflexivo do que foi inicialmente. Só é uma pena que uma parte do filme poderia ter sido facilmente descartada para que a experiência final fosse ainda mais satisfatória.
Confira o trailer:
🍿 Filme: Queer
📺 Onde assistir: Mubi
Nota: ✱ ✱ ✱ – (7.5/10) Muito bom
Direção: Luca Guadagnino
2024 ‧ Romance/Drama ‧ 2h 16m
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