
Não é à toa que o cineasta Alfred Hitchcock se tornou uma referência no cinema de suspense e terror, permanecendo até hoje como um dos maiores nomes da indústria cinematográfica.
Ao longo de sua carreira, ele nos presenteou com grandes sucessos que marcaram época, e, entre todos eles, “Psicose” é, sem dúvida, o meu favorito. É impressionante como, ao revisitar este filme em 2024 — 64 anos após seu lançamento — sinto como se estivesse assistindo a uma obra realmente à frente de seu tempo.
Embora alguns aspectos, como as cenas de esfaqueamento, possam soar um pouco envelhecidos, o restante da obra parece ter sido feito nos dias de hoje. Desde a utilização criativa de ângulos, passando pela trilha sonora atemporal, até as atuações marcantes de Anthony Perkins (Norman Bates) e Janet Leigh (Marion Crane). “Psicose” se mantém um clássico difícil de ser superado — algo que nem mesmo o remake de Gus Van Sant, de 1998, conseguiu alcançar.
A ousadia do filme começa já no primeiro ato, quando Janet Leigh rouba a cena interpretando uma protagonista amoral, que está em uma corrida contra o tempo, tentando escapar da polícia. Para os padrões dos anos 60, tratar uma protagonista mulher como uma bandida fugitiva da polícia, era bastante ousado. Mas Hitchcock não para por aí. Ele vai além, trocando o protagonismo de uma “mocinha” (que não é exatamente virtuosa) por um personagem muito mais ambíguo.
Conforme a trama avança, o filme revela segredos cada vez mais perturbadores, culminando em uma reviravolta final que, até hoje, é um dos momentos mais memoráveis do cinema. É claro que, hoje, muitos já conhecem a grande surpresa do filme, mas é impossível não admirar como Hitchcock conseguiu, com tanta precisão, manipular as expectativas do público. A construção do suspense é magistral.
A direção de Hitchcock é, como sempre, impecável. Ele sabe exatamente como criar mistério através de enquadramentos criativos e escolhas visuais que ampliam a tensão. O diretor de fotografia John L. Russell contribui decisivamente para o clima de “Psicose”, optando pelo preto e branco para dar um tom sombrio e psicológico ao filme. Em momentos-chave, ele usa sombras intensas para ilustrar a escuridão interna de Norman Bates, uma escolha que dá à narrativa uma profundidade única.
E como não mencionar a trilha sonora de Bernard Herrmann? Suas músicas são absolutamente essenciais para o filme. Os icônicos agudos dos violinos, especialmente na icônica cena do chuveiro, tornaram-se inseparáveis das imagens na tela. A trilha de Herrmann não é apenas um complemento à ação, mas sim uma extensão da própria narrativa, intensificando a tensão de maneira quase visceral.
Quando Anthony Perkins aparece pela primeira vez, sua dinâmica com Janet Leigh é fascinante. Ele consegue transmitir uma inocência perturbadora, que se vai desfazendo à medida que a história avança, revelando um lado obscuro que nos deixa tensos e desconfiados.
A atuação de Perkins, com seus olhares enigmáticos, cria um clima de inquietação que só cresce à medida que as interações entre seus personagens se intensificam.
A famosa cena do chuveiro, em que Marion Crane (interpretada por Janet Leigh) é brutalmente atacada, tornou-se um marco no gênero. Certamente, muitas mulheres na época ficaram aterrorizadas, especialmente se precisassem tomar banho sozinhas em um motel de beira de estrada. E a reação de Norman Bates, ao descobrir o corpo de Marion, é uma das cenas mais inesquecíveis e impactantes do filme.
Hitchcock, um mestre dos plottwists, realmente inovou com “Psicose”. O fato de matar a protagonista nos primeiros 50 minutos de um filme de duas horas foi um golpe audacioso, algo que mudou para sempre a maneira como os thrillers e filmes de terror seriam feitos. E a ousadia não para por aí: o filme não só mata a “mocinha” no início, como também transfere o protagonismo para o próprio vilão da história, Norman Bates — algo completamente inesperado para o público da época.
Após a morte de Marion, a história se volta para a investigação do desaparecimento dela, com o detetive Milton Arbogast (Martin Balsam), que acaba despertando o lado mais sombrio de Bates. A cena em que Arbogast é atacado, enquanto sobe as escadas do Bates Motel, é outro momento de puro terror.
E quando o mistério vai sendo desvendado, o filme se transforma de um thriller psicológico para um verdadeiro filme de terror, especialmente com a presença fantasmagórica da mãe de Norman Bates, cujo rosto, à janela, se tornou uma imagem arrepiadora — um momento que combina o mistério psicológico com o terror visual de maneira brilhante.
Quando o detetive Arbogast é morto, a história segue com a irmã de Marion, Lila (Vera Miles), e seu amante, Sam Loomis (John Gavin), que começam a investigar o caso. Apesar de serem personagens menos carismáticos do que Marion e Norman, Lila e Sam desempenham um papel crucial para o desfecho da trama, conduzindo a narrativa para o ponto final de revelações e explicações. A sequência em que Lila descobre o cadáver da mãe de Norman Bates é um desses momentos que se tornam indeléveis na memória do espectador.
A parte explicativa, que algumas pessoas hoje questionam, foi uma decisão importante para a época. Nos anos 60, ainda não existiam os estudos aprofundados sobre psicopatas que surgiriam décadas depois, nos anos 70.
A explicação final sobre o estado mental de Norman Bates e a relação com sua mãe tinha um grande valor informativo. Aliás, é fascinante perceber como o romance de Robert Bloch, que serviu de base para o filme, estava tão à frente de seu tempo — tanto na forma como retratava o comportamento de Norman Bates quanto nas escolhas feitas por Hitchcock para sua adaptação cinematográfica.
Confira o trailer:
🍿 Filme: Psicose (Psycho)
📺 Onde assistir: Telecine e Oldflix, Prime Video (aluguel), Apple TV (aluguel), Claro Video (aluguel)
Nota: ✱ ✱ ✱ ✱ ✱ – (10/10) Obra-prima
Direção: Alfred Hitchcock
1960 ‧ Terror/Mistério ‧ 1h 49m
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