
O que mais me encanta em “A Noite do Dia 12” (La Nuit du 12) é a honestidade do diretor alemão Dominik Moll ao declarar, logo nos créditos iniciais, que essa é apenas mais uma entre tantas histórias de feminicídios não solucionados. Desde o começo, ele deixa claro que o caso narrado no filme é um deles. Essa abordagem é particularmente interessante porque, enquanto alguns filmes exploram finais abertos de maneira envolvente, outros podem frustrar parte do público — especialmente quando se baseiam em fatos reais. Um exemplo clássico é “Zodíaco”, de David Fincher, que também investiga um crime sem resolução definitiva.
A partir dessa premissa, o espectador já assiste ao filme ciente de que não haverá um desfecho conclusivo, o que pode tornar a experiência mais satisfatória. Isso porque a trama não se resume à investigação em si, embora siga parte de sua estrutura. O verdadeiro interesse do filme está na exploração psicológica dos homens que conviveram com a vítima e na tentativa de compreender o que poderia ter levado um deles — ou qualquer outro homem — a cometer um crime tão brutal.
Na história, Yohan Vivès (Bastien Bouillon), do esquadrão criminal de Grenoble, e sua equipe investigam o assassinato da jovem Clara (Lula Cotton-Frapier), que foi queimada viva por um homem desconhecido enquanto voltava para casa tarde da noite. O que começa como mais um caso rotineiro logo se transforma em uma obsessão para o protagonista.
É fascinante observar como cada escolha da direção é meticulosa, desde a forma como o capitão Yohan Vivès pratica seu esporte. Ele é mostrado sempre pedalando em círculos em uma pista oval, entre sequências de investigação e outra, uma metáfora direta de sua obsessão pelo caso, que parece levá-lo repetidamente ao mesmo ponto. Nesses momentos o personagem libera toda sua dor e frustração por não conseguir resolver esse caso.
Falando nesse personagem, é interessante como o ator Bastien Bouillon entrega uma performance contida, transmitindo muito mais através de seus olhares e nuances do que por explosões emocionais. Diante do impacto da história, é natural que um personagem não exiba uma ampla gama de expressões faciais. O protagonista está anestesiado diante de um crime hediondo que não consegue resolver, carregando consigo a frustração de sua impotência diante da injustiça.
Há, inclusive, uma cena marcante em que Marceau (Bouli Lanners), seu colega de trabalho, comenta sobre o hábito de Yohan de pedalar sempre em uma pista oval, destacando o quão incomum isso é, já que a maioria das pessoas prefere correr em estradas abertas. Ele compara a prática a um rato de laboratório preso em um ciclo sem fim. Esse momento evidencia a clássica dinâmica entre opostos que precisam trabalhar juntos, mas vivem se desentendendo — um elemento presente na série antológica “True Detective” e em inúmeros filmes do gênero buddy cop. Essa relação acaba trazendo momentos mais leves em meio à tensão do thriller.
Um dos momentos mais marcantes do filme surge em uma conversa entre Yohan e uma mulher. Ele comenta que há um problema entre homens e mulheres, ao que ela responde: “Claro que tem. Eu sou mulher. Teria que ser cega para não ver que há um problema entre homens e mulheres.” A cena ressoa de forma poderosa, lembrando a série “Adolescência”, que trata do mesmo tema sob outra ótica — a misoginia enraizada desde a infância. Embora sejam narrativas distintas, ambas escancaram a mesma realidade: a violência de gênero como um ciclo contínuo que a ficção tenta compreender, mas que a realidade insiste em não resolver.
Ainda que Clara (Lula Cotton-Frapier), a vítima dessa história, não seja uma mulher plenamente resolvida em seus relacionamentos — algo que o filme enfatiza ao destacar a quantidade de parceiros sexuais que ela teve —, nada justifica a forma brutal como sua vida foi interrompida. No entanto, do ponto de vista narrativo, é interessante que a história seja contada a partir de uma personagem que pode gerar julgamentos por parte do público masculino.
Isso fica evidente em uma sequência em que o capitão Yohan começa a relembrar os depoimentos misóginos dos suspeitos, enquanto a montagem intercala seu rosto com o desses homens. Ainda que Yohan seja um homem justo em busca da verdade, a edição insinua que, se estivesse inserido naquele contexto, talvez ele também pudesse ser um deles.
“A Noite do Dia 12” não é apenas um thriller policial sobre um crime sem solução; é um retrato contundente de um problema estrutural que atravessa gerações. Ao se aprofundar na misoginia presente nas falas dos suspeitos e na frustração dos investigadores diante da impunidade, o filme reflete uma realidade que transcende a ficção. A violência contra mulheres continua a ocorrer de maneira alarmante, e a falta de respostas, tanto no cinema quanto na vida real, apenas reforça a urgência de discutir esse tema. No fim, o que Dominik Moll propõe não é a busca por um culpado específico, mas uma reflexão sobre um sistema que perpetua a violência e um ciclo de silêncio que, dia após dia, insiste em se repetir.
Confira o trailer:
Filme: A Noite do Dia 12 (La Nuit Du 12)
Onde assistir: Apple TV (aluguel)
Nota: ✱ ✱ ✱ ✱ – (8/10) Ótimo
Direção: Dominik Moll
2022 ‧ Thriller/Crime ‧ 1h 54m
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