
Antes de mais nada, preciso dizer o quanto adoro o personagem Superman. Considero “Superman – O Filme” (1978) e “O Homem de Aço” dois grandes acertos nas adaptações cinematográficas do herói. São filmes completamente distintos, mas cada um com uma proposta original: o primeiro destaca o lado altruísta e solar do Superman, enquanto o segundo apresenta uma visão messiânica, típica do estilo de Zack Snyder. É evidente que a versão de 1978 ainda é vista como a definitiva, enquanto a de Snyder assume um tom mais autoral e independente, não sendo lembrada por muitos como a representação “clássica” do herói. Ainda assim, é importante lembrar que nos quadrinhos também existem versões sombrias do Superman — o que valida essa abordagem diferente da anterior.
Dito isso, a nova versão que promete resgatar o Superman esperançoso e iluminado é mais do que bem-vinda, especialmente após três filmes marcados por tons mais sombrios: “O Homem de Aço”, “Batman vs Superman” e “Liga da Justiça de Zack Snyder”.
O cinema é feito dessas transformações. Em alguns momentos buscamos algo mais realista, mas em outros precisamos exatamente desse respiro — de fé na humanidade. E em tempos tão sombrios, com guerras e crises acontecendo ao redor do mundo, esse tipo de história pode ser mais necessária do que nunca.
A inclusão de outros super-heróis logo no primeiro filme, como Senhor Incrível, Mulher-Gavião e Lanterna Verde, acaba desviando o foco do protagonista em alguns momentos. Embora esses personagens tragam elementos de alívio cômico e ampliem o senso de aventura — exatamente o que essa nova adaptação busca e, de fato, executa com competência —, é inegável que isso prejudica um pouco o desenvolvimento do próprio Superman nesse primeiro filme da nova fase da DC no cinema. No fim das contas, são escolhas criativas que dividem opiniões e, inevitavelmente, geram debate.
Logo no início, a introdução que nos apresenta um Superman vulnerável, precisando da ajuda de seu cãozinho Krypto, já serve como uma prévia do quanto este filme é carregado de coração. A cena evidencia a proposta da nova adaptação: mostrar um lado mais humano do personagem. A relação de afeto com seu animal de estimação reforça que, apesar de ser um ser praticamente invencível vindo de outro planeta, ele também é capaz de fragilidade e sensibilidade. Krypto o resgata e o leva até a Fortaleza da Solidão, que é visualmente deslumbrante — tanto por fora quanto por dentro. É nesse momento que somos apresentados aos robôs responsáveis por auxiliar na recuperação do Superman — algo que nunca tinha aparecido em outras adaptações cinematográficas do Homem de Aço.

Depois desse início, somos apresentados a Lex Luthor e à LuthorCorp. E é aí que Nicholas Hoult brilha, entregando, na minha opinião, a melhor versão cinematográfica do vilão. Ele supera com folga o desastroso Jesse Eisenberg dos filmes de Zack Snyder e até mesmo a versão histriônica de Gene Hackman — o que não surpreende vindo de um ator como Hoult, que já se provou um verdadeiro camaleão, transitando com maestria entre personagens completamente distintos a cada novo projeto. É nessas horas que fico indignado com Hollywood por investir tanto em Timothée Chalamet e menos em atores como ele.
Chega o momento em que conhecemos os pais do Clark na Terra — uma representação muito sincera e afetuosa do casal. Em uma das cenas, vemos Martha Kent (Neva Howell), toda fofa e preocupada, ligando para o filho em uma chamada de voz, com Jonathan Kent (Pruitt Taylor Vince) ao seu lado. É um retrato simples, mas cheio de humanidade, que reforça o vínculo emocional entre eles.
Mas o momento em que o filme realmente ganha força nesses primeiros 30 minutos é durante uma longa e intensa cena entre Clark e Lois. Nela, Lois pergunta se ele aceitaria dar uma entrevista como Superman. É aí que acontece um embate acalorado entre os dois: Lois leva sua profissão com extrema seriedade, enquanto Clark ainda não compreende totalmente as consequências de suas ações na Terra. Ele enxerga o mundo com certa ingenuidade e não sabe lidar com a forma como os humanos distorcem suas intenções — mesmo quando elas são, de fato, bondosas. É uma cena extremamente bem dirigida, na qual as emoções dos dois personagens transbordam. O diálogo é construído de forma sobreposta — um interrompe o outro, sem pausas — o que dá um tom de discussão realista e intensa. As interpretações de David Corenswet e Rachel Brosnahan elevam ainda mais o momento, com uma química palpável e uma entrega carregada de eletricidade.
Quando um monstro gigantesco ataca a cidade, o filme deixa ainda mais claro seu tom cartunesco. É nesse momento que o espectador precisa se entregar ao absurdo e ao lado mais infantil da proposta — afinal, se você estiver em busca de realismo, sua experiência provavelmente será das piores. Após a destruição de um prédio, o Superman surge voando e pergunta às pessoas se estão bem. Embora isso faça parte da essência do personagem, a cena soa como uma cutucada nas destruições inconsequentes e desmedidas dos filmes de Zack Snyder. E quando ele aparece salvando um esquilinho logo depois, essa provocação parece mais evidente.

O que me incomoda nessa adaptação são os trajes dos heróis. Ok, eu entendo que a proposta seja algo mais desconectado da realidade, com uma pegada cartunesca e descolada. Tudo certo até aí. Mas vamos combinar? Algumas coisas funcionavam nos anos 70 e 80 — hoje, com tanto avanço em design e acabamento, é difícil engolir trajes que mais parecem saídos de uma loja de cosplay do que de uma superprodução cinematográfica. Custava dar um capricho a mais? Só pra gente não ficar com a sensação de que o Superman pegou o uniforme num brechó geek.
Mas, em meio ao tom camp e à leveza cartunesca da narrativa, o filme encontra espaço para tocar em temas relevantes, como imigração e as consequências de guerras que atravessam fronteiras e identidades. No fundo, essa abordagem estabelece uma conexão bela e simbólica com o próprio papel do Superman: um estrangeiro tentando pertencer, encontrar seu lugar e usar sua diferença como força para proteger a humanidade — mesmo quando ela mesma insiste em se destruir. Além dessas questões, o filme também fala sobre fake news, e é interessante vê-las inseridas na trama, especialmente por serem tão atuais no nosso mundo contemporâneo.
Precisamos falar sobre o visual do filme. Além de ser extremamente colorido, ele carrega muito da identidade estética dos trabalhos de James Gunn. A cena entre Clark e Lois à noite, enquanto os outros heróis enfrentam uma criatura dimensional, é um ótimo exemplo disso: os tons neon dão um brilho único à sequência, tornando-a belíssima de se ver. E aquele abraço final… é o tipo de momento que aquece o coração.
Toda a sequência envolvendo os experimentos de Lex Luthor, enquanto Clark tenta salvar o metamorfo e seu filho pequeno — ao mesmo tempo em que caminha rumo a um buraco negro ao lado de Krypto — é visualmente deslumbrante. Há uma explosão de cores e elementos que se dissolvem como se estivéssemos observando fragmentos de uma galáxia. Essa escolha estética, aliás, é uma marca registrada de James Gunn, já presente em trabalhos como “Guardiões da Galáxia”. O que poderia facilmente ser apenas mais uma cena genérica de ação se transforma em uma aventura com personalidade — com a assinatura de um diretor que, a cada novo projeto, consolida ainda mais seu nome no universo dos filmes de super-heróis. Falando em “Guardiões da Galáxia”, o momento em que Lex Luthor sequestra o cachorro Krypto e o submete a um experimento é uma referência direta ao que James Gunn fez no último filme da trilogia.
A energia de James Gunn para filmes de super-heróis é evidente em cada cena de ação. Uma das mais empolgantes é aquela em que o Senhor Incrível salva Lois enquanto enfrenta um grupo de soldados, tudo a escolha de um som contagiante. Mesmo não sendo uma cena revolucionária em termos de coreografia ou efeitos, ela funciona perfeitamente porque Gunn sabe injetar carisma, ritmo e estilo. Fica claro o quanto ele se diverte com o gênero — e essa vibração passa direto para o público.
Alerta de spoilers nessa página:
Depois de tantos acertos nesta adaptação, o diretor James Gunn — que também assina o roteiro — consegue concluir o filme com muita emoção. Tudo começa com a cena em que Superman fala sobre humanidade para Lex Luthor, encerrando esse embate com uma mensagem poderosa. Logo em seguida, temos um momento hilário: Krypto dando uma verdadeira surra no vilão. É impagável e divertidíssimo — a vingança perfeita pelo que ele fez com o cachorro antes.
A cena final, com Superman deitado na Fortaleza da Solidão, assistindo às lembranças da infância ao lado dos pais ao som de “Punchrocker”, do Iggy Pop, é de uma delicadeza comovente. Um encerramento reconfortante, que nos faz lembrar da importância dos laços familiares — e da necessidade de continuar acreditando em um mundo melhor.
Em resumo, o novo “Superman” de James Gunn acerta ao oferecer um respiro necessário em meio ao cansaço de narrativas sombrias que marcaram a fase anterior da DC. Ao resgatar o espírito otimista do herói — sem abrir mão da complexidade emocional e de um discurso social relevante —, o filme acerta o coração do que o Superman representa: esperança. Ainda que tenha escolhas discutíveis, como o excesso de personagens coadjuvantes e os figurinos questionáveis, a proposta funciona porque é feita com alma, com paixão pelo personagem e com uma visão clara de reimaginar sem desrespeitar. Gunn entrega um filme que não tem vergonha de ser emotivo, de ser colorido, de ser esperançoso — e isso, hoje, é tudo o que precisamamos. Ao final, saímos da sala não apenas com a sensação de termos visto um bom filme de super-herói, mas com algo mais raro: um filme que reacende a vontade de acreditar no melhor do ser humano.
Confira o trailer:
Filme: Superman
Onde assistir: Em exibição nos cinemas
Nota: ✱ ✱ ✱ ✱ – (8.0/10) Ótimo
Direção: James Gunn
2025 ‧ Aventura ‧ 2h 05min
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