
Vou começar essa análise com um desabafo — e não exatamente sobre o filme em si, mas sobre algo que tem me incomodado cada vez mais: a forma como sites de métricas, como o Rotten Tomatoes, têm manipulado (ou no mínimo distorcido) a percepção do público… e, pior ainda, até de alguns criadores de conteúdo sobre cinema.
Recentemente veio à tona que críticas publicadas no site estavam sendo pagas, o que obviamente impactava diretamente na famigerada porcentagem exibida. Após o escândalo, o próprio Rotten reconheceu a falha e prometeu “tomar providências”. Mas sejamos honestos: como confiar num sistema que já virou vitrine publicitária? Um site que antes apenas reunia opiniões virou peça-chave no marketing de grandes estúdios, com distribuidoras estampando orgulhosamente suas notas nos trailers — como se fossem selo de qualidade.
A questão que não quer calar: é possível um site desse porte se sustentar apenas na boa vontade, sem ceder aos interesses da indústria? Será mesmo que não há dinheiro envolvido por trás de algumas críticas positivas que surgem antes mesmo do embargo cair? Pense comigo: “Coringa” (2019), um fenômeno cultural, vencedor do Leão de Ouro e indicado ao Oscar de Melhor Filme, tem apenas 68% de aprovação da crítica no Rotten. Enquanto isso, o novo “Quarteto Fantástico” de 2025, que mal estreou, já aparece com absurdos 89%. Coincidência? Incoerência? Ou tem algo mais aí?
Ah, detalhe: o público deu 89% para “Coringa”. Será que faltou à DC investir em “críticas certas” na época? Provavelmente. Ou será que estamos diante de um sistema onde a credibilidade já foi trocada há muito tempo por cliques, ingressos e campanhas publicitárias Pense nisso antes de confiar cegamente em um tomatinho vermelho.
Dito isso, antes que pensem que eu detestei por completo o novo “Quarteto Fantástico“, dirigido por Matt Shakman, já adianto que não é o caso. Tecnicamente, o filme acerta em diversos pontos e até gosto de parte do elenco, como a escolha da Vanessa Kirby (“Pieces of a Woman”) para interpretar a Sue. Ela é uma atriz fantástica, com uma performance dramática acima da média para filmes de super-heróis. Também considero interessante a escalação do Joseph Quinn (“Stranger Things”) como o Tocha Humana — ele tem o carisma necessário para o papel. Por outro lado, não posso dizer o mesmo de Pedro Pascal (“The Last of Us”). Apesar de ser um ator que admiro, ele não traz nada de novo ao papel e, sinceramente, não me convence como Senhor Fantástico. O mesmo vale para Ebon Moss-Bachrach (“O Urso”) como o Coisa, que entrega uma versão apática e sem o carisma que o personagem teve na adaptação de 2005, que, apesar de seus problemas, tinha uma presença de tela muito mais marcante.
O início deste filme é marcado por uma introdução extremamente acelerada da origem dos super-heróis. Diferente da versão de 2005, aqui temos uma apresentação narrada, com cortes rápidos que apenas nos situam superficialmente sobre como os personagens adquiriram seus poderes. Partindo desse princípio, já vemos os super-heróis sendo tratados como figuras públicas, aparecendo em programas de televisão e até sendo conhecidos pelo grande público por meio de um desenho animado da equipe.
Particularmente, acredito que, após mais de uma década desde a última adaptação em 2015, o ideal seria investir em uma construção mais cuidadosa dessa origem. No filme de 2005, por exemplo, era muito mais interessante acompanhar como cada personagem lidava com as consequências de seus novos poderes, o que acrescentava uma dimensão dramática mais rica e tornava mais envolvente o contraste entre suas novas habilidades e a convivência com o mundo humano.
O mais interessante nessa nova adaptação, sem dúvidas, é todo o visual retrô-futurista, que aposta abertamente em carros voadores e, ao mesmo tempo, em elementos como um fusca e outros objetos nostálgicos que surgem em cena. Até a presença do robozinho H.E.R.B.I.E, que auxilia o grupo, é uma escolha que combina perfeitamente com a estética do longa. Os novos uniformes, em tons de azul pastel com branco, também são um destaque: belíssimos e com um ar cartunesco que dá charme ao visual do filme. É uma pena que o diretor abrace os quadrinhos apenas no aspecto visual. O filme parece sempre contido demais para lidar com os superpoderes dos heróis, optando por uma abordagem mais focada na ficção científica espacial e no drama de maternidade vivido pela personagem de Vanessa Kirby.
O filme é muito mais contemplativo, o que me fez lembrar da direção de tom adotada por Chloé Zhao em “Eternos” — um filme do qual, pessoalmente, não gostei. E se você gostou, talvez isso seja um sinal de que poderá aproveitar mais a experiência com este novo “Quarteto Fantástico”. Meu problema não está exatamente no ritmo lento ou na proposta contemplativa — afinal, adoro filmes como “The Batman”, de Matt Reeves —, mas sim quando essa abordagem soa sem alma. E foi isso que me afastou aqui: em vez de me entreter ou me fascinar com a progressão da narrativa, acabei me sentindo entediado.
A primeira aparição da Surfista Prateada, interpretada pela Julia Garner, até que é bem bonita. Ela surge com um ar imponente, e o design da personagem está caprichado. Tem uma cena em que ela foge da Terra e fica flutuando no espaço, até o Homem-Tocha ir atrás dela — parece uma pintura de tão bonita, é um momento contemplativo que realmente funciona. Mas aí ela abre a boca. E fala. Pausadamente. Muito pausadamente. Igualzinho ao vilão Galactus. E personagens que falam como se estivessem recitando um poema no sono profundo, sinceramente, são um ótimo remédio pra insônia. Fica difícil levar a ameaça a sério quando tudo o que você quer é apertar um botão e gritar: acelera, minha filha!
E então, depois disso, temos uma longa sequência em que o Quarteto decide viajar para o espaço para enfrentar a Surfista Prateada. Nesse momento, eu me senti assistindo a uma ficção científica estilo “Star Trek“ — Só que sem originalidade, sem energia e, pior ainda, sem propósito. Tudo soa reciclado de outros filmes espaciais, com a única diferença de que aqui temos personagens superpoderosos que mal usam seus poderes e não acrescentam quase nada de novo à trama — nem mesmo uma aventura mais inspirada, já que, com habilidades tão únicas, dava pra criar várias situações criativas em um conflito no espaço.
Uma curiosidade um tanto cômica é como adoram engravidar a Vanessa Kirby nos filmes. E não só isso: parece haver uma verdadeira obsessão em colocá-la nas situações mais caóticas possíveis durante o parto. Desta vez, ela dá à luz em pleno espaço sideral, dentro de uma nave. Já em “Pieces of a Woman”, foi em uma das sequências mais angustiantes dos últimos anos, com um plano-sequência que se arrasta por longos minutos e corta o fôlego.
Essa questão da maternidade se estende para os conflitos dramáticos do casal vivido por Kirby e Pascal, o que torna a trama repetitiva e sentimentalista demais para um filme de super-heróis. Enquanto isso, a parte mais empolgante — os superpoderes e a aventura — acaba escanteada por dilemas familiares que já vimos à exaustão em dramas que souberam trabalhar isso muito melhor.
É necessário destacar a escolha do vilão Galactus — e, principalmente, a forma pouco inspirada como ele é desenvolvido na trama. Ainda que seja uma figura icônica dos quadrinhos, sua presença no filme é reduzida a um recurso genérico, utilizado apressadamente em um confronto final que carece de impacto e criatividade. A sequência remete a batalhas simplificadas, pouco condizentes com a grandiosidade que o personagem representa.
Em determinado momento, quando ele caminha entre arranha-céus colossais, não causa danos estruturais na cidade, apenas algumas vezes que esbarra em prédios, o que enfraquece sua construção como uma ameaça real. Me pergunto: que tipo de vilão intergaláctico tem essa consciência cívica toda? Até o Superman do Zack Snyder foi mais destrutivo que ele, ainda que involuntariamente. As falas do vilão, excessivamente pausadas, reforçam um estereótipo de antagonista cósmico, mas acabam prejudicando o dinamismo da cena. E quando ele estica o Senhor Fantástico? Perderam uma oportunidade de ouro de tornar a cena ao menos mais criativa. Imagina se Galactus, num surto de humor involuntário, confunde o herói com um chiclete e tenta engolir? Seria um alívio cômico bizarro, sim — mas, diante de um embate final tão sem graça, ao menos traria algum tempero.
Após os créditos finais, há uma cena que, arrisco dizer, é o momento mais interessante de todo o filme: o Doutor Destino aparece segurando sua máscara. E, sinceramente, fica difícil entender por que não escolheram logo esse vilão para o primeiro filme. Teria sido uma escolha infinitamente mais instigante do que o Galactus apresentado aqui — uma figura sem carisma, sem ameaça real e que, não assustaria nem os executivos da Marvel, e olha que eles andam assustados com qualquer bilheteria.
Agora, a última cena pós-créditos… essa merece um destaque à parte. Um trechinho de uma animação do “Quarteto Fantástico” que não leva a lugar nenhum. Foi aquele momento clássico em que você se sente um completo idiota por ter ficado sentado até o fim das letrinhas, esperando algo impactante, e recebendo, em troca, um teaser que parece ter sido feito só pra rir da nossa cara. Se a intenção era reforçar a frustração, parabéns — conseguiram com louvor.
Confira o trailer:
🍿 Filme: Quarteto Fantástico (Fantastic Four)
📺 Onde assistir: Cinemas
Nota: ✱ ✱ – (5.0/10) Mediano
Direção: Matt Shakman
2025 ‧ Ficção científica / Aventura ‧ 2h 15min
Deixe um comentário