
A diretora Celine Song, aclamadíssima por sua estreia com o romance “Vidas Passadas”, retorna agora com seu mais novo filme: “Amores Materialistas” — curiosamente vendido como uma comédia romântica pela distribuidora e por todo o material de marketing. Essa abordagem, no entanto, soa um tanto desonesta, já que o público encontrará aqui um romance dramático, que busca refletir sobre os valores que moldam os relacionamentos afetivos na contemporaneidade — especialmente aqueles mediado por interesses materiais.
Na trama, Lucy (Dakota Johnson) é uma casamenteira de Nova York que se vê dividida entre dois homens: Harry (Pedro Pascal), um empresário romântico e enigmático, e John (Chris Evans), um ex-namorado financeiramente instável, que ainda tenta reorganizar sua vida. O reencontro desperta em Lucy sentimentos antigos, mergulhando-a em um dilema entre dois homens com visões de mundo opostas.
E se alguém acredita que a abordagem de Celine Song ao retratar uma casamenteira está ultrapassada pela era digital — em que relacionamentos nascem por meio de aplicativos —, bastaria uma rápida pesquisa para descobrir que essas agências ainda existem e seguem ativas. No Brasil, por exemplo, Roseli Sanches Carvalho, de 62 anos, e André Luiz de Carvalho, de 51, contaram ao site g1 que atuam como “cupidos profissionais” há mais de 20 anos.
No filme, logo no primeiro ato, Lucy precisa lidar com uma cliente rejeitada por um pretendente considerado ideal, que a descarta unicamente por conta da idade — revelando, de forma sutil, mas contundente, as superficialidades que ainda norteiam muitos relacionamentos contemporâneos, frequentemente baseados em critérios como idade, status financeiro e até altura.
A entrada de Pedro Pascal em cena acontece durante um casamento, quando Harry se aproxima de Lucy, interessado em seu trabalho. É nesse momento que John também reaparece, criando um clima visivelmente desconfortável para Harry, que demonstra interesse por Lucy. Após a cerimônia, Lucy e John têm um reencontro delicado, no qual ele demonstra vergonha de estar trabalhando como garçom. Ela, por sua vez, o conforta, afirmando que não há motivo para se envergonhar de ter um emprego — e admite que sentiu sua falta.
Nos primeiros 30 minutos, o filme até flerta com a comédia, mas de maneira muito sutil. Logo, o tom dá lugar à melancolia, à medida que os conflitos internos dos personagens vêm à tona. Um flashback impactante mostra Lucy e John discutindo no carro por causa do valor do estacionamento. É nesse momento que percebemos o desconforto de Lucy com a instabilidade financeira de John — tanto que ela decide descer do carro no meio da estrada para evitar continuar a discussão. A cena é incômoda, intensa, e reflete a fragilidade da relação.
No presente, Lucy parece esquecer esses conflitos diante da recaída emocional que sente ao rever John. Quando ele a deixa em casa, ela o convida para subir, mas ele recusa, dizendo que gostaria, mas que não deveria — provavelmente por reconhecer que reviver essa relação pode ser prejudicial a ambos.
Mais adiante, Lucy tem uma conversa sincera com Harry, em uma cena de grande maturidade. Ela o elogia como um homem perfeito — rico, bonito, inteligente — e chega a questionar o motivo de ele se interessar por alguém como ela. Ele responde que busca alguém que entenda “como o jogo funciona”, alguém confiável — e que enxerga essas qualidades nela. Ele também afirma ter dinheiro suficiente para que ela não precise se preocupar com isso. É uma conversa honesta, em que ambos colocam suas cartas na mesa, abrindo espaço para que a relação avance. Em seguida, eles passam a noite juntos.
Infelizmente, o roteiro — também assinado por Celine Song — parece não sustentar a complexidade emocional que deseja abordar. A diretora tenta explorar a imaturidade e o egoísmo que marcam muitas relações adultas, algo extremamente rico quando bem trabalhado. No entanto, em “Amores Materialistas”, isso é feito de maneira apressada e, em alguns momentos, incoerente. Um exemplo é quando Lucy, logo após saber que Harry passou por uma cirurgia para aumentar a altura, revela que não o ama — uma reviravolta que soa abrupta e rasa, especialmente porque o filme não constrói, até então, nenhuma tensão real entre o casal.
Apesar disso, a direção segue como o maior acerto da obra. Celine Song continua apostando em enquadramentos intimistas, focados nos personagens, com composições muito semelhantes às de “Vidas Passadas”. O diretor de fotografia Shabier Kirchner retorna para colaborar mais uma vez, utilizando uma paleta de cores suaves e naturais, que confere leveza visual à narrativa.
Na reta final, Lucy se abre com John, confessando seu materialismo. Ela diz que não se vê comendo em restaurantes ruins, que escolhe parceiros como quem faz um cálculo, e que ele precisava saber disso antes de decidir continuar com ela. John, por sua vez, admite que ainda a ama. Mas, mais uma vez, embora Lucy demonstre consciência de seus próprios conflitos, essa maturidade não se reflete em suas ações, revelando um abismo entre o que ela diz e o que ela faz. E, sim, essa contradição faz parte da proposta de Celine Song: explorar a incerteza e a fragilidade humanas. O problema é que isso não se sustenta quando o roteiro falha em articular essas ideias com profundidade. Assim, “Amores Materialistas” acaba soando tão frágil quanto os próprios personagens que retrata.
Ainda que o roteiro escorregue em algumas decisões e dialogue de maneira instável com as emoções que pretende retratar, é preciso reconhecer que as intenções de Celine Song são válidas — e, dentro de suas limitações, às vezes funcionam. Existe uma sinceridade no olhar da diretora para as contradições humanas, especialmente na forma como lidamos com o amor, o dinheiro e a autoimagem. Mesmo quando não alcança toda a complexidade que almeja, “Amores Materialistas” ainda consegue capturar momentos genuínos de vulnerabilidade e desconforto emocional, que tornam a experiência, no mínimo, provocativa. No fim das contas, é um filme que erra tentando acertar — e isso, por si só, já o torna mais interessante do que muitas produções genéricas que seguem fórmulas seguras.
Confira o trailer:
🍿 Filme: Amores Materialistas (Materialistic Lovers)
📺 Onde assistir: Cinemas (Estreia dia 31 de Julho)
Nota: ✱ ✱ ✱ – (6.0/10) Bom
Direção: Celine Song
2025 ‧ Drama / Romance ‧ 1h 47min