
Filmes de terror com tubarões existem aos montes, e agora que “Tubarão”, de Steven Spielberg, completa 50 anos desde sua estreia, nada melhor do que ver esse subgênero ressurgindo nas telas. É evidente que o longa dirigido pelo australiano Sean Byrne não possui o mesmo peso do clássico de 1975, mas, para quem busca puro entretenimento, a experiência aqui é garantida. Imagine uma espécie de “O Albergue” em alto-mar, com um sádico sequestrando vítimas para transformá-las — literalmente — em iscas para tubarões.
Na trama, Tucker (Jai Courtney), um serial killer obcecado por tubarões, mantém Zephyr (Hassie Harrison), uma surfista rebelde, cativa em seu barco, junto a outras mulheres, enquanto grava vídeos snuff. Em uma corrida contra o tempo, Zephyr precisa encontrar uma forma de escapar antes que ele realize uma espécie de “alimentação ritualística” com seus predadores favoritos.
Diferente da maioria dos filmes do gênero, onde os tubarões são os grandes vilões, aqui o monstro é humano — e muito mais aterrorizante. Tucker choca não apenas pela brutalidade de seus métodos, mas pela forma perversa como atrai e manipula suas vítimas, usando os tubarões como instrumentos de tortura e extermínio. Ainda que os animais representem um risco real, a verdadeira ameaça vem da mente sádica que os controla.
A cena de introdução é angustiante: um casal embarca num passeio turístico para observar tubarões em uma gaiola submersa, mas tudo toma um rumo sinistro antes mesmo do título do filme aparecer. O tom macabro se intensifica quando Tucker, de maneira perturbadora, canta “Baby Shark” momentos antes de cometer um ato brutal. Essa sequência estabelece com precisão o nível de ameaça que ele representa — e nos prepara para o horror que virá.
Logo após esse prólogo, o filme adota um tom mais leve ao apresentar Zephyr e Moses, um jovem casal que se apaixona e vive um breve momento de romance, embalado por música pop, cores vibrantes e uma atmosfera ensolarada de verão. Mas essa calmaria não dura: Zephyr descobre o terror que se esconde por trás da fachada paradisíaca ao ser capturada por Tucker, que mantém outra vítima presa em seu navio.
O momento em que Tucker oferece uma de suas vítimas a um tubarão é um dos mais brutais da trama. A tensão é crescente, e o desconforto é amplificado pela direção precisa e pelo uso perturbador da trilha sonora. É uma cena difícil de assistir, não apenas pela violência gráfica, mas pelo terror psicológico que a sustenta.
Em meio à tensão crescente, uma das vítimas consegue um raro momento de resistência: ela tenta escapar utilizando um pedaço do balde que era forçada a usar como banheiro, improvisando uma arma rudimentar. A cena é desesperadora e eficiente em transmitir o nível de degradação física e psicológica a que essas mulheres foram submetidas. Apesar de conseguir ferir Tucker e pular no mar, a tentativa de fuga não é bem-sucedida. A jovem é rapidamente recapturada e dopada com uma substância desconhecida, que aos poucos vai minando suas forças e sua consciência — mais um artifício cruel do assassino para manter controle total sobre suas vítimas.
O clímax, infelizmente, escorrega na construção narrativa. Um personagem, retorna em cena “salvador” da protagonista, tentando resgatá-la em meio ao caos. O problema é que o roteiro apressa essa resolução, utilizando uma série de conveniências que enfraquecem a credibilidade da história — desde o tempo de reação do personagem até a facilidade com que ele invade o barco de Tucker. Ainda assim, o filme não perde totalmente sua força. A tensão se mantém especialmente alta nos momentos em que o vilão prepara mais uma de suas “ofertas” aos tubarões, trazendo um senso de urgência visceral às cenas finais.
Em termos de brutalidade, o filme não economiza. Há uma sequência especialmente angustiante envolvendo automutilação, que serve como um retrato cru do desespero das personagens. É um daqueles momentos difíceis de assistir, que incomodam não apenas pela violência gráfica, mas pelo peso emocional por trás do ato.
No entanto, o longa também flerta com o absurdo. A protagonista, por mais que esteja debilitada, nada entre embarcações, prende a respiração por longos períodos e transita com relativa facilidade pelo mar — tudo isso enquanto está claramente ferida e exausta. Esses exageros acabam comprometendo parte da tensão que o filme constrói com tanto empenho nas sequências anteriores.
Mesmo com seus tropeços estruturais e momentos de incredulidade, o filme se sustenta como uma experiência visceral e incômoda. Sua força está menos na coerência do roteiro e mais na atmosfera sufocante, no desconforto visual e na perversidade quase alegórica do antagonista.
“Animais Perigosos” é um terror que incomoda não pelo susto fácil, mas pela sensação constante de aprisionamento e violência — física, psicológica e simbólica. Ao transformar o oceano em um palco de horror ritualístico, onde o vilão manipula vidas como se fossem descartáveis, o longa nos lembra que o verdadeiro pesadelo raramente vem da natureza em si, mas da capacidade humana de corrompê-la para satisfazer seus impulsos mais sombrios. Aqui, os tubarões são apenas ferramentas; o monstro veste pele, sorri e canta músicas infantis.
Confira o trailer:
🍿 Filme: Animais Perigosos (Dangerous Animals)
📺 Onde assistir: Cinemas (Estreia dia 18 de Setembro)
Nota: ✱ ✱ ✱ – (7.0/10) Bom
Direção: Sean Byrne
2025 ‧ Terror / Suspense ‧ 1h 39min