Mike Flanagan troca o terror pela ternura no belíssimo “A Vida de Chuck”

“A Vida de Chuck”, novo filme dirigido por Mike Flanagan, é baseado em um conto de Stephen King, mas engana-se quem espera um terror clássico. Apesar dos nomes envolvidos — o longa se distancia do gênero e mergulha num drama existencialista, com toques de ficção científica e fantasia. É claro que o mestre Stephen King já nos presenteou com obras profundamente tocantes, que também foram adaptadas para o cinema, como “Fica Comigo”, “À Espera de um Milagre” e “Um Sonho de Liberdade”. Agora, seu mais novo conto a ganhar vida nas telas é “A Vida de Chuck”.

A cada nova obra, seja filme ou série, minha admiração por Flanagan só cresce. Para quem ainda não conhece (o que é difícil), ele é o criador das aclamadas minisséries “A Maldição da Residência Hill” e “Missa da Meia-Noite”, além de filmes como “Doutor Sono”, “Hush: A Morte Ouve”, “Jogo Perigoso” e “O Espelho”. Agora, Flanagan também assumirá o novo capítulo da franquia “O Exorcista”, gerando altas expectativas — especialmente após o fracasso do último filme dirigido por David Gordon Green.

Em “A Vida de Chuck”, a história é contada de trás pra frente, com a narração de Nick Offerman. O filme se inicia com o terceiro ato: A internet desaparece, e o mundo entra em colapso. Em meio ao caos, anúncios misteriosos de Chuck começam a surgir em todos os cantos, agradecendo por seus maravilhosos 39 anos de vida — mas ninguém parece saber quem ele é.

Nesse cenário caótico, mais adiante na história acompanhamos os últimos momentos de um homem terminal. Esse homem é Chuck, e conforme os atos retrocedem, vamos conhecendo sua trajetória — da decadência ao auge, da juventude à infância — como se desmontássemos, camada por camada, o impacto de uma única vida no universo.

No último ato (o que vemos em primeiro neste filme), Chiwetel Ejiofor se destaca. Já no segundo, é Tom Hiddleston quem assume a narrativa, vivendo Chuck em um período ainda pleno de saúde e sucesso. Durante uma conferência, ele é arrebatado por um momento espontâneo: uma baterista toca, ele começa a dançar, e logo uma multidão se une àquela vibração. É uma cena leve, vibrante e cheia de humanidade — uma das mais tocantes do filme — e mostra a habilidade de Flanagan em nos emocionar, mesmo longe do horror tradicional.

Aqui, ele faz nossos olhos brilharem e arranca sorrisos genuínos, mesmo que já saibamos o desfecho triste daquela jornada. Esse segundo ato termina com uma frase marcante, que resume a essência do filme: tudo que Chuck tem — a dança, a espontaneidade, as pequenas alegrias — está prestes a se perder. É um lembrete do que o tempo inevitavelmente nos tira.

Foi impossível não lembrar do insosso “Aqui”, de Robert Zemeckis, que também tenta abordar o tempo e a efemeridade da vida, mas sem a conexão emocional que Flanagan alcança aqui. Em “A Vida de Chuck”, cada momento é filmado com alma, tornando a experiência íntima, sensível e profundamente humana.

A narrativa brinca com o enigma, mas aos poucos revela uma linha tênue — quase invisível — costurada por afeto, lembranças e conexões que definem quem somos. Com uma trilha sonora comovente, imagens carregadas de simbolismo e reflexões que ecoam muito além dos créditos finais, o filme nos faz repensar o que deixamos para trás, o impacto das pequenas ações e a beleza que existe nos momentos aparentemente banais.

No último ato (o primeiro cronologicamente), conhecemos a infância e adolescência de Chuck. Uma professora lhe diz que ele tem o dom de acalmar multidões — e essa pequena fala lança luz sobre o impacto que ele terá no mundo. O jovem Chuck é interpretado por Benjamin Pajak, que não só lembra fisicamente o ator Tom Hiddleston, mas carrega a mesma doçura e intensidade. É uma escalação perfeita que sustenta a continuidade emocional do personagem.

O tempo, nesse filme, é personagem central. Ele aparece como lembrança, como limite, como força implacável e também como presente. Uma conversa entre Chuck e seu avô (interpretado por Mark Hamill, em atuação comovente) sobre o tempo é breve, mas cheia de melancolia — especialmente porque sabemos onde tudo vai parar. Chuck passa por luto, perdas e infortúnios desde cedo. Mas mesmo com toda a dor, o filme encontra beleza. É triste, sim, mas também é profundamente inspirador. Inspirador porque nos lembra da preciosidade do tempo, da importância de viver intensamente, amar sem medo e valorizar os momentos que parecem pequenos — mas que, no fim das contas, definem quem somos.

Com uma estrutura narrativa não convencional, atuações sensíveis e uma direção surpreendentemente delicada, “A Vida de Chuck” se consolida como uma das obras mais ousadas e emocionais de Mike Flanagan. Mais do que um filme, essa obra funciona como um abraço silencioso para quem atravessa perdas ou sente o peso da finitude. Ao invés de cair no melodrama, ela se apoia na sutileza para valorizar a beleza escondida no ordinário. Stephen King e Mike Flanagan mostram que não é preciso uma vida grandiosa para ser inesquecível. Flanagan prova que, mesmo longe dos sustos, sabe tocar fundo na alma — e nos lembra que toda vida, por mais comum que pareça, carrega dentro de si um universo inteiro.

🍿 Filme: A Vida de Chuck (The Life of Chuck)
📺 Onde assistir: Estreia dia 4 de Setembro nos cinemas
Nota: ✱ ✱ ✱ ✱ (8.0/10) Ótimo
Direção: Mike Flanagan
2025 ‧ Drama/Fantasia ‧ 1h 40min

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