
É impressionante a habilidade de Zach Cregger em misturar gêneros sem jamais destoar da proposta central de seu filme. Ele prova isso com “A Hora do Mal”, que não apenas se tornou o meu terror favorito do ano, como talvez o meu favorito deste século — sem exagero. O longa começa como um thriller repleto de mistério e, aos poucos, escala para uma narrativa sombria, cada vez mais assustadora e brutal. Ainda assim, há espaço para um humor inesperado em algumas sequências finais — momentos que arrancaram risos de parte da plateia do cinema e que, para mim, representam mais um acerto do diretor. Não é surpresa: Cregger já vinha flertando com a comédia e mostrou essa veia no ótimo e divisivo “Noites Brutais”, de que eu já havia gostado bastante. Mas garanto: “A Hora do Mal” é ainda mais ousado e certeiro. Tanto que o próprio diretor admite, definindo seu novo trabalho como “Noites Brutais”, com esteroides.
É curioso perceber que,quando um filme é excelente, eu costumo destacar seus acertos técnicos, narrativos e as atuações. Já quando um longa não tem tanto a oferecer ou não traz algo realmente inovador — mesmo sendo muito bom —, prefiro concentrar a análise em narrar a trama. Mas com “A Hora do Mal” a situação é diferente: o filme é tão surpreendente que revelar demais poderia comprometer a sua experiência. Por isso, vou ser o mais sucinto possível, para que você também se surpreenda tanto quanto eu. Afinal, o próprio diretor admite que escreve suas histórias sem saber exatamente para onde elas vão, e é justamente isso que torna a experiência imprevisível. Se nem ele sabe de antemão como a jornada se desenrolará, imagine nós, espectadores — é como abrir uma verdadeira caixa de surpresas.
Todas as crianças da mesma sala de aula, exceto uma, desaparecem misteriosamente na mesma noite e exatamente no mesmo horário. A comunidade fica se perguntando quem ou o que está por trás do desaparecimento. Inclusive, o diretor Zach Cregger revelou que a cena das crianças correndo foi inspirada em uma imagem marcante da Guerra do Vietnã. “Acho essa imagem horrível, e o jeito como ela aparece com os braços estendidos me destrói. Há algo realmente perturbador nessa postura. Se eu tivesse que apontar, talvez seja daí que tenha nascido a semente da cena”, disse o diretor à Entertainment Weekly.

A narrativa se divide em vários capítulos, cada um focado na história individual de um personagem, mas todos interligados de forma brilhante até culminarem em uma revelação chocante e um desfecho brutal. Zach Cregger revelou ter se inspirado em “Magnolia”, de Paul Thomas Anderson, para recriar essa estrutura em seu novo filme de terror. Ainda assim, ele entrega algo bastante diferente: aqui não são apenas três tramas, como no longa estrelado por Tom Cruise, mas mais de seis histórias entrelaçadas, ampliando a complexidade e o alcance da narrativa.
Começamos pela história de Justine, vivida pela excelente Julia Garner, em um dos papéis mais marcantes de sua carreira. Ela é a professora responsável pela turma cujos 17 alunos desapareceram misteriosamente. De repente, Justine se vê sob intensa pressão, carregando a suspeita de ter alguma ligação com o caso. As crianças saíram à noite, todas na mesma direção — um comportamento estranho e aparentemente fora de seu controle —, mas o fato de ela ser a única responsável por eles durante as aulas a coloca no centro das investigações e do julgamento público.
Depois de conhecermos um pouco sobre Justine e o círculo de pessoas com quem ela convive, a narrativa se expande para outras histórias: Archer (o magnífico Josh Brolin), pai de uma criança desaparecida; Paul (Alden Ehrenreich), um policial azarado que só se envolve em enrascadas; James (Austin Abrams), cuja presença torna a vida de Paul ainda mais complicada; Andrew (Benedict Wong), o diretor da escola; e Alex (o talentoso ator mirim Cary Christopher), o único garoto que não desapareceu. Todas essas tramas são conduzidas com maestria e sustentadas por atuações à altura de seus personagens. Cada uma se encaixa com precisão na outra, formando um quebra-cabeça que o espectador vai montando aos poucos.
Quem espera logo de início um terror convencional pode se frustrar com a ausência de elementos sobrenaturais, gore ou violência explícita. A primeira hora é dedicada quase inteiramente às relações que esses personagens têm com o desaparecimento das crianças. Ao meu ver, essa escolha é um acerto: ela nos permite conhecer melhor cada um deles e criar um vínculo emocional que torna o impacto muito maior quando tudo sai do controle e as vidas desses personagens são colocadas em risco. Passamos boa parte do tempo acompanhando momentos cotidianos — como a professora Justine , interessada pelo policial Paul e tomando um drink com ele, ou as interações do diretor da escola com ela e com o pai de uma das crianças desaparecidas — e é justamente essa aproximação que amplifica a tensão quando o horror finalmente se instala.
E quando o mal finalmente toma forma, fica evidente como a escolha do elenco foi certeira. A pessoa responsável por arquitetar o plano maligno por trás do desaparecimento das crianças entrega uma das melhores performances do filme — conduzindo momentos genuinamente aterrorizantes e exercendo uma hipnose sobre o espectador, que permanece preso a cada fala e olhar. O diretor, ciente de que acertou em cheio nessa escalação, explora ao máximo todo o arco desse personagem. Ele começa com uma cena perturbadora envolvendo o diretor da escola e seu namorado, que rapidamente escala para um momento brutal, seguido de uma perseguição à personagem de Julia Garner que me deixou com os pelos arrepiados.
Vale destacar a sensação única que o filme transmite. Nas mãos de um diretor menos criativo, alguns momentos poderiam soar banais ou repetitivos. A forma como Zach Cregger enxerga o horror é profundamente enervante. Não são apenas suas escolhas de enquadramento e a direção de atores que se mostram extremamente eficazes — a trilha sonora desempenha um papel crucial, amplificando cada instante de tensão e tornando a experiência ainda mais imersiva, seja pela atmosfera criada ou pela intensidade impressa em cada cena.
O terror é um dos gêneros mais divisivos do cinema. Basta alguém comentar sobre uma obra para que surjam questionamentos sobre ela ser ou não “terror”. Mas, no fim das contas, tudo que envolve o medo — independentemente de atingir ou não o espectador — se enquadra no gênero.
O mais interessante é como o diretor entende que o terror foi se remodelando ao longo das décadas e sabe mesclar, com habilidade, o terror contemporâneo, geralmente mais psicológico, com o terror exagerado que se popularizou nos anos 1980 em filmes como “Evil Dead”, de Sam Raimi, ou “Despertar dos Mortos”, de George A. Romero. Em “A Hora do Mal”, isso fica claro: a primeira hora remete a thrillers investigativos como “Os Suspeitos”, de Denis Villeneuve; já a segunda metade abraça momentos escatológicos dignos de filmes de zumbis — ainda que zumbis não façam parte da narrativa. A energia caótica, no entanto, é praticamente a mesma.
Essa mudança de tom e gênero fica ainda mais evidente na reta final, que recria a cena inicial do filme. No começo, ela é acompanhada por uma canção que, à primeira vista, destoaria de um terror convencional. Já no desfecho, revisitamos essa mesma cena sob uma perspectiva muito mais sombria, graças à edição de som e à trilha sonora, que transformam completamente o clima. É essa virada que torna tudo ainda mais interessante: nossa imersão no mistério do desaparecimento das crianças foi construída por uma narrativa que sabia exatamente onde queria chegar, mesmo que, segundo o próprio diretor, o percurso até lá tenha sido, para ele, uma verdadeira caixa de surpresas durante o processo de escrita.
No fim, “A Hora do Mal” é mais do que um simples filme de terror: é uma experiência que nos prende pela curiosidade, nos envolve pelo drama humano e, quando menos esperamos, nos atinge com uma intensidade devastadora. Zach Cregger demonstra um domínio impressionante sobre ritmo e atmosfera, conduzindo o espectador por uma narrativa imprevisível que transita entre o suspense investigativo, o terror psicológico e o horror mais insano e caótico — sem jamais perder a coesão.
É o tipo de obra que fica reverberando na mente muito depois dos créditos, não só pelas imagens perturbadoras, mas também pela sensação de que acabamos de assistir a algo que, daqui a alguns anos, será lembrado como um clássico moderno do gênero. Se o cinema de terror precisa de novas vozes que arrisquem, surpreendam e transcendam fórmulas, Cregger prova que está pronto para liderar essa renovação.a
Confira o trailer:
🍿 Filme: A Hora do Mal (Weapons)
📺 Onde assistir: Cinemas
Nota: ✱ ✱ ✱ ✱ ✱ – (10/10) Excelente
Direção: Zach Cregger
2025 ‧ Terror/Suspense ‧ 1h 52m