Visual incrível, romance fraco: vale a pena ver o “Drácula: Uma História de Amor Eterno”?

Recentemente, tivemos a excelente adaptação do clássico “Nosferatu”, desta vez dirigida por Robert Eggers (dos sensacionais “A Bruxa”, “O Farol” e “O Homem do Norte”). Como era de se esperar, mexer com qualquer adaptação de Drácula nesse momento é arriscado, já que é impossível dissociar certos elementos do longa de Eggers. Ainda que a escolha do diretor francês Luc Besson e a escalação de Caleb Landry Jones sejam empolgantes — especialmente lembrando o quanto a dupla funcionou bem em “Dogman” — algo me deixava apreensivo, principalmente depois do insosso romance “June e John”, também lançado este ano.

Eu sabia que “Drácula: Uma História de Amor Eterno” poderia ser um grande acerto ou um desastre completo, mas, para minha surpresa, não foi nenhum dos dois. A nova adaptação do conde, acaba ficando em um meio-termo em relação aos dois últimos trabalhos de Besson. Há aqui uma força criativa muito bem explorada, especialmente nas partes que se apoiam na narrativa clássica, mas também um nítido declínio quando o filme aposta em um romance que simplesmente não funciona como deveria. Luc Besson apresenta sua própria leitura de Drácula, mesclando romance trágico, fantasia sombria e um toque inesperado de galhofa. A narrativa se inicia com belas cenas românticas entre o conde e sua esposa, reforçando o elo profundo que os une. Esse vínculo é brutalmente rompido quando ela é capturada e morta, levando Drácula a travar uma batalha épica para salvá-la.

Ao ser negado pelo bispo, ele se enfurece — momento que marca sua queda definitiva para as trevas. É um começo intenso e visualmente impactante, que estabelece com clareza o tom trágico do longa. Séculos depois, encontramos Drácula em um estado deplorável e repulsivo, quando um jovem advogado chega ao castelo para conhecê-lo, tal qual na história clássica. Estranhamente, ele não demonstra qualquer reação à aparência horrenda do conde — algo que outras versões, como o recente Nosferatu, trabalharam com mais veracidade. Ainda assim, a caracterização do Drácula envelhecido impressiona: todo o trabalho de maquiagem, aliado à estética sombria e ameaçadora, figura entre os grandes acertos do filme.

Esses aspectos visuais não funcionam apenas como pano de fundo, mas como parte ativa da narrativa — o castelo, por exemplo, é quase um personagem por si só, refletindo a decadência e o isolamento do conde ao longo dos séculos. O contraste entre a opulência do passado e a ruína do presente intensifica o peso da tragédia pessoal de Drácula, reforçando o tom melancólico que Luc Besson busca imprimir à sua adaptação. O diretor também inova ao apresentar gárgulas como serviçais de Drácula — figuras sombrias que não apenas aprisionam o advogado, mas também participam ativamente de momentos-chave, conferindo ao filme um ar creepy e visualmente diferente das demais adaptações.

Se a escolha de Caleb Landry Jones já se mostrou um grande acerto de Luc Besson, o mesmo pode ser dito do padre vivido por Christoph Waltz, cuja investigação sobre um caso envolvendo uma vampira ninfomaníaca, mantida amarrada por cordas, rende algumas das sequências mais curiosas e sombrias do filme.

Por outro lado, quem infelizmente não funciona é o ator Ewens Abid, no papel do jovem advogado. Sua atuação carece de nuances: ele raramente demonstra qualquer reação convincente, e, quando tenta, entrega expressões tão apáticas e inexpressivas que não transmitem o senso de urgência da situação. Essa falta de envolvimento emocional enfraquece momentos-chave da trama, especialmente em um filme que se apoia tanto na tensão.

Em um flashback, o filme adota um tom inesperadamente leve — para não dizer meio caricato — ao mostrar Drácula como um perfumista. Ele cria uma fragrância para atrair mulheres, numa tentativa desesperada (e, convenhamos, um tanto cafona) de reencontrar sua amada reencarnada. Toda essa parte na França assume uma estética mais descontraída, que pode até conquistar alguns pela ousadia, mas para mim quebra totalmente o clima sombrio tão bem construído na primeira hora. É como se todo aquele cenário gótico — o castelo, os gárgulas, o ar vampiresco — tivesse sido trocado por uma novela de Walcyr Carrasco das seis. Sério, só faltou uma cena com bolo na cara.

O ponto de virada acontece quando ele descobre que a esposa do advogado Mina (Zoe Bleu), é sua Elisabeta reencarnada. Para reconquistá-la, ele decide ir atrás de sangue humano, já que passou séculos sobrevivendo de ratos mortos. De volta à juventude, ele a reencontra e tenta de todo jeito fazê-la voltar aos seus braços, despertando nela memórias do passado. É aqui que o romance se arrasta e perde força.

O clímax compensa: a batalha final é dirigida com energia e ganha ainda mais força graças à potente trilha sonora de Danny Elfman, que eleva a grandiosidade da sequência.No fim, o Drácula de Luc Besson é um filme visualmente rico e repleto de ideias originais, mas que oscila entre o sombrio e um romance insosso que raramente empolga.

Ainda assim, entrega momentos memoráveis e uma abordagem que, mesmo imperfeita, busca se afastar das adaptações mais convencionais. Porém, é inegável que “Drácula de Bram Stoker”, de Francis Ford Coppola, e até o recente e divisivo “Nosferatu”, de Robert Eggers, se mostram muito superiores a esta releitura de Luc Besson.

Confira o trailer:

🍿 Filme: Drácula: Uma História de Amor Eterno (Dracula: A Love Tale)
📺 Onde assistir: Cinemas
Nota: ✱ ✱ ✱ – (6/10) Bom
Direção: Luc Besson
2025 ‧ Terror/Romance ‧ 2h 10m

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