
“The Americans” se tornou uma das melhores produções televisivas que já assisti — e, nesse ranking pessoal, estão também “Breaking Bad”, “Chernobyl”, “Six Feet Under”, “Olhos Que Condenam” e “Mad Men”. Ou seja, não estou falando de pouca coisa. Se os filmes hollywoodianos de espionagem costumam glamurizar o gênero em nosso imaginário, esta série surge para desconstruir tudo, entregando a realidade mais crua e perturbadora da vida de espiões. É uma obra difícil de assistir, justamente por nos fazer imaginar até onde o ser humano é capaz de ir e quais atrocidades e consequências está disposto a enfrentar em nome de um sacrifício ideológico.
Dois espiões da KGB, interpretados brilhantemente por Keri Russell (“A Diplomata”) e Matthew Rhys (“Perry Mason”), se passam por um casal americano que vive no subúrbio de Washington, com a missão de controlar a rede de informações entre os agentes que operam no país.
A premissa é simples, mas o que se desenvolve a partir dela é um verdadeiro labirinto, no qual os protagonistas parecem cada vez mais encurralados — especialmente quando Elizabeth (Keri Russell) e Phillip (Matthew Rhys) se tornam vizinhos do agente do FBI Stan Beeman (Noah Emmerich). A tensão cresce quando Phillip acaba se tornando amigo de Stan, e mais tarde, o próprio agente cria laços afetivos até com os filhos do casal.
Essas conexões entre lados opostos, transformam cada interação em uma bomba-relógio, remetendo a situações de séries como “Breaking Bad”, onde um agente da DEA convivia de perto com Walter White — um professor em estado terminal que se tornara o maior traficante da região — desenvolvendo, ao mesmo tempo, uma relação quase de amizade.
Ainda que a série guarde semelhanças com “Breaking Bad”, a forma como encerra suas histórias é distinta — mas nem por isso menos avassaladora. As consequências são brutais, mas na reta final são psicológicas. E, falando em psicologia, é fascinante observar como a produção explora a psique de seus personagens e retrata, com enorme sucesso, a ambiguidade de Elizabeth (Keri Russel) e Phillip (Matthew Rhys). Eles são, ao mesmo tempo, espiões e assassinos frios e calculistas quando o trabalho para a KGB exige, mas também seres humanos vulneráveis, cheios de medos e inseguranças. Nada disso é entregue por meio de diálogos expositivos; sentimos cada angústia graças às interpretações excepcionais, ao roteiro afiado e à direção impecável.
Elizabeth e Phillip vivem aprisionados em um relacionamento moldado pela mentira e pela manipulação. No trabalho para a KGB, o corpo deles é mais uma ferramenta — e dormir com outras pessoas faz parte da missão. Eles tentam se convencer de que isso não importa, mas o ciúme e a ferida no ego são inevitáveis. A cada nova infiltração, um pedaço da confiança mútua se perde, e eles precisam engolir a dor para continuar servindo à causa. A intimidade que ainda resta surge como um lampejo: momentos de desejo intenso, quase como um ato de sobrevivência emocional, seguidos pelo declínio inevitável, quando o peso das mentiras, mortes e medo sufoca qualquer possibilidade de paz. É um amor que resiste… mas sempre à beira do abismo.
No campo cultural, o clima era de vigilância e paranoia: o medo de infiltrações comunistas fazia parte do imaginário popular. A ascensão do conservadorismo de Reagan também influenciou os valores familiares e sociais, criando um contraste ainda mais forte com a vida dupla de Elizabeth e Phillip — que precisavam viver como a “família americana perfeita” enquanto trabalhavam para o inimigo.
E o que torna a dinâmica dos protagonistas ainda mais interessante, é que enquanto a Elizabeth tem total devoção por sua missão como espiã, Phillip parece cada vez mais desconectado disso, e se familiarizando com a cultura e o capitalismo dos Estados Unidos. Ela quer servir ao seu país e não importa as consequências, enquanto ele se vê cada vez mais dividido entre a sua moralidade e o que se propôs a fazer pela Russia.
E, como se não bastasse, a série criada por Joe Weisberg e Joel Fields não se apoia apenas em protagonistas ricos em dramaticidade, mas também em coadjuvantes tão complexos quanto eles — responsáveis por alguns dos melhores núcleos da produção. É o caso de Alison Wright (“Feud: Bette and Joan”), que dá vida a Martha, uma mulher com quem Phillip precisa se envolver romanticamente e até se casar para obter informações para a KGB. À medida que essa relação se aprofunda e consequências devastadoras recaem sobre a personagem, a série entrega uma de suas maiores catarses, evidenciando como pessoas comuns se tornavam vítimas desses espiões e tinham suas vidas manipuladas de forma cruel e implacável.
Além de Martha, coadjuvantes como Stan (Noah Emmerich), Oleg (Costa Ronin), Paige (Holly Taylor) e Claudia (Margo Martindale) ganham destaque com histórias que enriquecem a narrativa central, revelando arcos dramáticos próprios e igualmente envolventes.
“The Americans” é um thriller fascinante — não apenas por mergulhar em questões reais e desenvolver personagens complexos em tramas intrincadas com maestria, mas também pela tensão elétrica que percorre cada episódio. Sua trilha sonora é um espetáculo à parte, seja nas composições instrumentais de Nathan Barr, seja nas escolhas certeiras de canções de artistas como Peter Gabriel, Phil Collins, The Cure e Fleetwood Mac. É difícil traduzir em palavras o que essa série representa, porque a experiência de assisti-la transborda sentimentos que nem sempre conseguimos nomear — apenas sentir.
As quatro primeiras temporadas seguem em uma escalada constante de tensão, com apenas uma ressalva da minha parte: a quinta temporada, que desacelera um pouco esse ritmo crescente. Ainda assim, a última temporada não apenas reacende essa chama, como intensifica cada momento, conduzindo a uma reta final que considero espetacular. É o tipo de desfecho que faz o espectador aplaudir de pé, pela coragem de não seguir o caminho mais previsível e, mesmo assim, entregar um final coerente e impecavelmente construído a partir das situações e das características de seus personagens — que jamais são negligenciadas para agradar o público. Aqui, tudo acontece como deveria, provando o quanto a série foi brilhantemente escrita e desenvolvida. No fim, “The Americans” não é apenas sobre espiões, mentiras e política — é sobre o preço de ser fiel a algo, mesmo quando isso significa perder tudo o que se ama.
Confira o trailer:
🍿 Série: The Americans
📺 Onde assistir: Disney Plus
Nota: ✱ ✱ ✱ ✱ ✱ – (10/10) Obra-prima
Criação: Joe Weisberg
2013 – 2018 ‧ Drama/Espionagem ‧ 6 temporadas