
Quando soube que estava em produção um horror corporal desenvolvido a partir da história de um casal, imediatamente fiquei entusiasmado. Afinal, imagine as possibilidades de um roteiro explorar a complexidade de relações em declínio, marcadas pela dificuldade de separação. O campo de exploração era vasto, especialmente porque, mesmo fora do gênero do horror corporal, esse é um tema recorrente na psicologia e em obras de romance ou drama. Vincular esse dilema a um horror corporal seria um prato cheio para expandir a metáfora, permitindo que a brutalidade visual do gênero traduzisse de forma visceral o sentimento de casais que, mesmo diante do pior, permanecem juntos.
O conceito de almas gêmeas nasce da ideia de que, em sua origem, os humanos eram seres duplos, com quatro braços, quatro pernas e dois rostos. Temendo o poder dessas criaturas completas, Zeus os dividiu, fazendo de cada metade um ser condenado a vagar em busca de sua outra parte perdida. Essa busca incessante se tornou sinônimo de amor: o anseio pela completude. Embora tenha sido narrado por Aristófanes, foi Platão quem incorporou o mito em “O Banquete”, refletindo sobre a natureza do amor e o desejo humano de reencontro.
No filme “Juntos”, essa dimensão trágica e quase mítica encontra eco na relação dos protagonistas. A conexão entre eles ultrapassa a lógica do afeto saudável e se aproxima de uma fatalidade: duas metades destinadas a permanecer unidas, mesmo quando essa união se revela sufocante, dolorosa e, por vezes, destrutiva. Como no mito, não se trata apenas de escolha, mas de uma força maior que os atrai e os aprisiona, transformando o amor em um elo inevitável, que carrega tanto a promessa da completude quanto o peso da ruína.
A cena de abertura, em que dois cachorros se observam, antecipa de forma simbólica o tema da união e do vínculo inevitável. Contudo, o destino dos animais se revela em um golpe brutal, que nos arremessa a um fim trágico e funciona como prenúncio da tragédia que atravessará todo o filme.
Depois disso, somos apresentados ao Tim (Dave Franco) e e sua namorada Millie (Alison Brie). Os dois se encontram em uma encruzilhada quando se mudam para o interior. Com as tensões já à flor da pele, um encontro aterrorizante com uma força misteriosa e antinatural ameaça corromper suas vidas, seu amor e seus próprios corpos.
Logo no início do filme, há uma cena em que o amigo de Tim reclama do quanto ele se submete aos desejos da namorada. Em seguida, solta um comentário bastante pesado: ele afirma que, no momento da morte, não gostaria de assistir à vida de outra pessoa passando diante de seus olhos. A fala, além de cruel, funciona como uma crítica incisiva à postura de Tim, que parece ter abdicado de sua autonomia em nome da relação. Esse diálogo evidencia desde cedo a tensão central do personagem, apontando para o tema da perda de individualidade dentro de um relacionamento sufocante.
Só que minha frustração parte exatamente dessas ideias desperdiçadas por um roteiro frágil, que nunca mergulha a fundo nessas problemáticas e tampouco consegue entrelaçá-las com o horror corporal.
Ainda que seja evidente que o diretor Michael Shanks busque fazer isso — e em poucas ocasiões até consiga —, nunca é o suficiente. Mesmo depois desse diálogo, surgem outras situações envolvendo o casal que pareciam destinadas a conduzir a uma conclusão mais incisiva dessa temática atrelada ao horror corporal. No entanto, alguns elementos que mais tarde entram em cena para explicar a união dos corpos acabam desmantelando toda a ambição inicial do roteiro.
Se o roteiro falha em desenvolver suas ideias, ao menos as sequências que exploram o horror corporal cumprem a função de provocar desconforto e manter uma tensão constante. Uma das mais perturbadoras acontece no banheiro de uma escola: após o sexo, o casal descobre que seus corpos estão grudados pelos órgãos genitais. A cena é ao mesmo tempo grotesca e angustiante, sintetizando bem a brutalidade física que o filme almeja explorar.
No entanto, a que considero a mais bem conduzida vai além do choque imediato e se aproxima de um verdadeiro cinema de terror. Nela, enquanto dormem separados, os personagens são atraídos por uma força maior para um corredor onde corpos se contorcem em desespero. Nesse espaço claustrofóbico, seus braços passam a se unir até se tornarem um só, numa imagem poderosa que mistura simbolismo e desconforto visceral. É nesses momentos que o filme mostra o potencial que poderia ter alcançado, caso tivesse encontrado a mesma consistência em sua narrativa.
Se em “A Substância” Coralie Fargeat demonstrou como o terror corporal pode ser um gênero poderoso para discutir as pressões sociais ligadas à juventude e à eterna beleza, “Juntos”, de Michael Shanks, revela justamente o oposto: um filme que prefere se acomodar no caminho mais fácil, sacrificando reflexão em nome de explicações banais. Mesmo quando algumas cenas insinuam um elo psicológico entre a fusão dos corpos e a dependência emocional de um relacionamento, o roteiro não ousa explorar esse território. A conclusão, em vez de expandir essas ideias, apenas repete soluções já desgastadas no gênero, tornando-se indistinguível de tantos outros exemplares medianos.
O que deveria ser o clímax — a cena final de junção dos corpos — naufraga em efeitos especiais mal executados, que não só destroem o impacto visual, mas também reduzem a potência simbólica da sequência. E, para piorar, o desfecho insiste em prolongar a narrativa com uma última cena desnecessária, que apenas escancara as limitações do projeto. Juntos não só desperdiça seu potencial, como evidencia, em cada escolha, o quão distante está da ousadia e da força que Fargeat alcançou em “A Substância”.
Confira o trailer:
🍿 Filme: Juntos (Together)
📺 Onde assistir: Cinemas
Nota: ✱ ✱ ✱ – (6/10) Bom
Direção: Michael Shanks
2025 ‧ Terror/Drama ‧ 1h 38m